– Era uma vez um Velhinho-Mauzinho…

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

ra uma vez um velhinho de uns quinhentos anos, bem mauzinho. Chamava-se Capitalismo. Seu esporte era acumular. Acumulava um tantão de coisas, inclusive tinha um sacão deeeeste tamanho, onde, dentre outros trecos, acumulava maldades. Cada uma pior do que a outra. Por onde passava, deixava um rastro de sangue. O disfarce era sua especialidade. Ora vestia-se de liberdade, ora de democracia. De outras vezes, travestia-se de empreendedor, de pós-moderno e de um sem-número de disfarces. Eram tantos, que nem me lembro dos nomes, assim de cabeça. Todos eles eram feitos, sempre, de um tecido muito brilhoso, extremamente sedutor.

 Independente da fantasia escolhida para se apresentar, nas suas andanças, pelo mundo afora, ele sempre portava um escudo reluzente chamado de Ciência Positiva. Era um troço tão reluzente que a todos cegava ou, pelo menos, a quase todos. Digo a quase todos, porque algumas pessoas descobriram uma espécie de óculos de lentes especiais, que dispunham de um filtro, capaz de proteger seus usuários da terrível luz ofuscante. Esses óculos protetores, conhecidos como “Visão Crítica” eram odiados pelo Velhinho-Mauzinho.

Ele era muito viajado. Conheceu muitas terras – de reinos a repúblicas. Era sempre a mesma coisa. Por onde passava, tirava sempre a sua lasquinha: fome aqui, doença ali, desemprego acolá. Por onde andava, deixava sementes da morte, em covas quase sempre rasinhas. Ele era do tipo “tão ruim que não morre” como se costuma falar. Isso acabou lhe dando fama de durão, de eterno, o que era pura mentira. Mas ele tinha muito gosto de alimentar o mito. Volta e meia ele tinha crises. Nessas ocasiões, somente as guerras lhe davam novo ânimo. Elas eram o seu elixir de longa vida. No início do século passado, ele teve uma dessas crises. A coisa foi tão braba, mas tão braba, que praticamente todo o mundo entrou na dança, quer dizer na guerra. Logo depois, teve outra crise, um troço também muito sério, a ponto de romper uma bolsa nas suas entranhas putrefatas. Foi um negócio de doido. Começou em Nova York, mas foi uma constipação geral pelo mundo afora.

Quando tudo parecia se acomodar, olha o Velhinho-Mauzinho aprontando de novo. Dessa vez começou lá pras bandas da Alemanha e logo, logo, a desgraceira estava novamente espalhada pelo mundo inteiro. Aí foi sangue, mas sangue mesmo. Milhões de pessoas morreram. Dessa vez, o Velhinho recorreu a novos instrumentos de morte, que iam desde a câmara de gás até a bomba atômica. Foi uma quentura dos diabos.

Logo depois, o Velhinho-Mauzinho resolveu fazer algo diferente. Foi aí que bolou a guerra fria. Mas não pense que foi como nos filmes americanos de décadas atrás, em que os atores trocavam “amabilidades” com tortas frescas no rosto. Não foi nada disso. Espirrou também muito sangue por aí afora. Países da Ásia e da América Latina foram palcos de dor e sofrimento. Além de milhares de mortes, a tortura campeou solta.

Para o Saci, não foi difícil o Velhinho-Mauzinho, através dos países colonizadores, tirar o leite das crianças africanas e de outros Continentes: eles tinham as contribuições da Ciência burguesa a seu favor…

Nessas idas e vindas, o Velhinho-Mauzinho tem usado e abusado dos disfarces. E, como sempre, tudo com o mesmo brilho. Às vezes, tem-se a impressão de que, cada vez mais, está remoçado. A cada momento, vale-se de uma tecnologia mais sedutora, de deixar qualquer um de queixo caído. Nos últimos tempos, tem exibido um trecozinho chamado de Globalização. Essa geringonça é uma espécie de prancha de surf que faz o Velhinho-Mauzinho deslocar-se pelos Mares dos Mercados com a maior agilidade. E aí ele deita e rola. Além de ceifar vidas, vai destruindo culturas. Mói tudo o que encontra pela frente. Transformando tudo numa massa informe, às vezes, com o aspecto de um grande hambúrguer acompanhado de um líquido escuro. De longe parece sangue, se bem que não é, exatamente, de cor vermelha…

Desde o fim da época da tal guerra fria, em que destruiu um muro que ele próprio havia construído, e que infernizara, por quase trinta anos, a vida de uma galera, o Velhinho-Mauzinho não cabe em si. Aproveitou das conclusões apressadinhas de um tal Francis Fukuyama, que imaginara que a História havia acabado (e alguns acreditaram!), para proclamar-se “o eterno”.  Mas logo o engodo de Fukuyama foi desmascarado, pois as guerras continuaram e, portanto, a História estava vivíssima da Silva. (Epa! Eu escrevi da Silva? Ai meu deus, mas essa é outra história. Então, daqui a pouco eu conto…) Como eu dizia, ou melhor, como escrevi, o filósofo americano, de nome japonês, acabou ficando conhecido pela sua célebre frase, em outras palavras, fez o seu marketing, mas as coisas continuaram como antes no Quartel de Abrantes (Não seria do Pentágono?) Bem, não importa, o Velhinho-Mauzinho continua fazendo o que ele adora fazer, ou seja, lambuzar-se de sangue. Uma guerrinha aqui, outra acolá, ainda mais agora que a tecnologia faz a terra ficar menor…

Aliás, pra dizer a verdade, não é de hoje que ele acha a terra pequena demais para abrigar as guerras que vem fomentando. Vem gastando os diabos a fim de que elas aconteçam também nas estrelas. O negócio é guerra. Aliás, sem elas, como é que ele vai vender as armas que fabrica? E agora que estão cada vez mais sofisticadas? Em fração de segundos é cabeça pra todo o lado, com precisão cirúrgica. É só apertar um botãozinho e booummm! Parece coisa de videogame. Um troço de doido. Ou melhor, destroço.

Para o Saci, nas guerras deflagradas pelos interesses de mercado, o trabalhador é transformado em soldado que mata outros trabalhadores. E nesse mata-mata da indústria da morte, o Velhinho-Mauzinho sempre sai lucrando e acumulando mais-valia…

Engana-se, porém, quem pensa que o Velhinho-Mauzinho só cuida de guerra. Ele semeia também uma zorra com o mesmo poder de destruição. Trata-se de uma semente produzida em laboratórios neoliberais e conduzida por um pássaro maligno de nome BIRD, também conhecido como Banco Mundial, gestado enquanto os mortos na Segunda Guerra Mundial ainda estavam insepultos. Esse pássaro voou, voou, voou….

Um certo dia, após uma grande tempestade ocorrida numa linda e vasta terra do Atlântico Sul, o sol, afinal, resolveu dar as caras. Despudorado, decidiu espargir os seus mais “calientes” raios sobre a população daquela localidade encantada, mas mesmo assim com problemas a resolver. Foi então que, em plena euforia de seus habitantes, um jovem doidivanas bem nascido, de fino trato e bem-falante de muitas línguas, encantado com a “modernosidade” tomou o seu arado untado de “newave” e cravejado de brilhantes e preparou os primeiros alqueires da terra que iria receber a semente transgênica. Para afastar agricultores que se opunham ao espécime estranho, o jovem engomado batizou seus opositores de Marajás e vociferou em alto e bom som que iria caçá-los para o bem do que ele julgava ser seu reino.

Um dia, porém, o jovem com os traços já não mais tão finos, chafurdou-se em um charco fétido e, assim, os seus projetos foram interrompidos precocemente. Da penumbra, o Velhinho-Mauzinho acompanhava tudo com atenção.

Para o Saci, um Fernando começou e o outro deu continuidade. Depois disso, o de nome Inácio só fez copiar seu antecessor e multiplicar por mil, adoidadamente…

Alguns outonos depois, veio um outro não tão jovem, dizendo-se mulatinho, e continuou arando a terra para receber a semente que não era de feijão. Esperto e vaidoso, esse outro correu terras para olhar-se nos espelhos do mundo. Tão deslumbrado ficou, com a sua própria imagem, que resolveu editar um segundo tempo, para completar a sua obra. Assim, pôde preparar muitas leiras e teve tempo de vender, por um punhado de tostões, que ele batizou de reais, o patrimônio do seu povo, construído em longas décadas. Da mesma forma que o seu antecessor, criou uma figura para servir de bode expiatório. Dessa vez, escolheu os aposentados, a quem os denominou de vagabundos, responsabilizando-os pelas dores do mundo. Enquanto isso, o Velhinho-Mauzinho, de sorriso maligno, não perdia uma cena.

E aqui há uma controvérsia. Teria tido o Velhinho-Mauzinho uma ideia súbita de alternar aparentemente o poder, razão pela qual teria escolhido, justamente, um Silva, retirante nordestino (está lembrado que eu havia prometido contar a história do Silva?), sem eira nem beira, cujos pés, na infância, tocaram as terra ressequidas do nordeste? A história de menino pobrezinho, mirrado, sofrido, que havia também pisado no chão da fábrica, antes de ocupar um palácio, lá no alto, daria um belo e comovente enredo. Ou teria o próprio retirante se deixado seduzir pelo Velhinho-Mauzinho, que ele maldizia nos comícios realizados, no passado, nas portas das fábricas?

O fato é que o Silva foi escolhido. Não demorou muito e, logo, se revelou disposto a aprofundar as leiras escavadas pelo seu antecessor, a quem tomou como modelo. Mas claro que com o próprio estilo. O gosto de viajar era igualzinho nos dois. O anterior tinha fama de mão fechada. Já o nordestino é generoso e anda perdoando, de forma adoidada, a dívida de outros países. Enquanto o ministro do outro era mais lã, o desse é pau e osso. O atual não diz mais “vagabundos”. Prefere chamá-los de “privilegiados”. Um bebia apenas socialmente, o outro “come com farinha”, como andaram dizendo por aí. Talvez até seja uma odiosa calúnia… Aqui vendo pelo preço que comprei. Deu no New York Time.

Depois de tudo preparado, o descendente de lavradores nordestinos, afinal, depositou a semente na terra. Não demorou muito e os primeiros brotos começam a desabrochar. Já se enxerga, atualmente, uma pontinha tímida, ainda sem cor, mas que indica que vem sendo nutrida com empenho. Nos próximos meses, saberemos como ficará essa planta transgênica, também denominada por alguns de árvore da contra-reforma. Segundo os cientistas que a conceberam, ela terá uma copa frondosa, mas ao contrário do que se espera de uma árvore, estranhamente, ela não dará sombra. De uma das suas galhas, nascerá o fruto da imprevidência. De outra, brotará um fruto, onde o pau vai comer e que sugará toda a seiva da Universidade Pública, até extingui-la totalmente. De outra rama, surgirá um fruto do qual minará uma substância pegajosa que deixará os sindicatos imobilizados e completamente sem função. De uma outra, sairá um fruto tão letal, mas tão letal, que uma só gota é suficiente para dissolver uma cláusula pétrea. Coisa do capeta, se é que ele existe, coisa nunca vista antes. Isso, pra não falar daquela galha que, justiça seja feita, o jiló chega ser doce se comparado com o fruto dela…

Volta e meia, no final da tarde, surge, tisnando o horizonte, o BIRD, pássaro agourento, para indagar, do descendente de agricultores, sobre o crescimento da estranha planta. E a cada resposta que ouve, a ave sorri contente, enquanto o homem se curva humildemente. De um canto, na penumbra, o Velhinho-Mauzinho também sorri, seu sorriso maligno, cheio de si e pensando que é eterno.

Enquanto isso, a noite se prepara para povoar o céu de estrelas.  Depois, uma a uma vai se apagando, até ceder lugar à madrugada rósea, que expulsará do seu ventre um novo dia. E assim, muitos suceder-se-ão. Quem sabe, num deles, o Velhinho-Mauzinho não estará mais pra ver o espetáculo da aurora… Quem sabe os frutos da árvore pequem… Quem sabe…?

Rascunho Digital – FACED/UFBA – Salvador – 2004 (Publicado AQUI).

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Salvador, 10 de março de 2012

Como dizia o Prof. Felippe Serpa, ex-reitor da Universidade Federal da Bahia – e Pajé da Faculdade de Educação, conforme brincavam seus amigos –, não existe apenas a UFBA, mas “UFBAS”. E nessa variedade, há aquela mais conservadora, a hegemônica, que prima pela manutenção do status quo, dos privilégios de alguns sobre os demais – embora faça firulas para parecer que é o contrário –, e há aquelas outras que vão desde as posições “tancredistas”, conciliadoras de terceira via, etc., até uma outra mais radical, que vai muito além do discurso burguês da cidadania do consumo para todos, incorporando como referência maior a emancipação humana.

Nas formas mais conservadoras e conciliadoras da nossa instituição, há aqueles que, como Fukuyama, acreditam que a História acabou e que o Capitalismo veio para ficar por todos os séculos, dos séculos, amém. Lá ele, o Capeta! Curiosamente, os que pensam assim, desconhecem a mobilidade do real. Esta mesma mobilidade que foi alterando os diferentes modos de produção ao longo da caminhada humana pela História… Eles jamais perguntam a razão de o modo de produção comunal – ou comunismo tribal – ter dado lugar ao escravismo, que por sua vez foi contraditado pelo feudalismo, que também foi superado pelo capitalismo. A pergunta que o meu irrequieto amigo Saci sempre faz é “porque diabo a coisa pararia por aí”…

Diferente dos que acreditam que a fila deixará de andar para além do capitalismo, ou melhor, que o capitalismo ficará cristalizado para sempre, tanto eu quanto o Saci acreditamos que a História não acabou… Talvez esse seja o ponto de interseção entre nós – ou aquele milagre que nos deixa unidos entre tapas e beijos… Tanto ele quanto eu repelimos a ideia de que o capitalismo veio para ficar e que só nos resta “humanizá-lo”, como se isso fosse possível.

Na balança do capitalismo, segundo o Saci, 99% pesa menos do que isopor...

Na balança viciada do capitalismo, segundo o Saci, os 99% pesam menos do que isopor…

Nas nossas reflexões quase que diuturnas, definimos o capitalismo como uma balança desequilibrada, pendendo em favor de 1% dos terráqueos… Qualquer raciocínio elementar nos levará à conclusão que os 99% “restantes”, se esclarecidos pela Educação, lutarão pela reversão desta fórmula contemporânea esdrúxula e perversa:

MASSA + MÍDIA CAPITALISTA = SUJEIÇÃO

 para esta que contempla toda humanidade:

POVO + EDUCAÇÃO PARA O TRABALHO = EMANCIPAÇÃO

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Leia também “BI-CEBERG, o que o ex-reitor da UFBA não falou sibre o BI“.

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