– Karl Marx no Festival de Verão

 

Se, para o Saci, a melhor maneira de avaliar "45 mil qualquer coisa" é colocar 45 mil cadeiras enfileiradas, uma atrás da outra, por outro lado, eu fico perguntando o que é que o comunista Karl Marx foi fazer num evento empresarial/artístico organizado pelo Grupo da TV BAHIA? (clique na arte para visualizá-la melhor).

Karl Marx no Festival de Verão

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

  

O Leitor atento e inteligente deve estar perguntando o que é que tem a ver a ilustração acima com o título do presente texto. É verdade. Num primeiro exame, o Leitor tem razão. Não tem nada a ver.

Veja, eu disse num primeiro exame! Mas vamos por parte. Como fazia o temível Jack, se me permite a péssima comparação.

Primeiramente, tomemos o número 45. 000. Ok? Bem, agora vamos tentar recordar o que esse número lembra. Está difícil? Tudo bem! Como essas conjuminâncias são frutos da cabecinha irrequieta do Saci, você não tem obrigação de compreendê-las assim a seco . E isso não o faz menos inteligente. Eu também não saquei de primeira, e nem por isso estou me sentindo o mais tapado dos homens. É que certas coisas não muito claras à primeira vista. Está lembrado da polêmica de quando alguém disse que a terra era redonda? Pois é. Você nem faz ideia do deus-nos-acuda que foi. O fato é que, na época, parecia uma ideia absurda.

Segundo o Saci, o real nos passa a perna o tempo inteiro. Não que o real seja perverso em si mesmo. Apenas os nossos sentidos não são cem por cento… Isso ficou meio confuso, não? Também achei, mas vou tentar explicar de outra forma… É que o real é lacunar… IHH! Acho que ficou pior… Vamos ver de outra maneira: É que nem sempre, num primeiro momento, sacamos as coisas como elas são. EPA! E como elas são verdadeiramente? Bem, às vezes, os nossos olhos vêem uma coisa, mas essa coisa não é bem assim como a vemos. Somos iludidos pelos nossos sentidos. Exemplo? Tudo bem, vamos lá! Pense naquela colher que está dentro de um copo d’água. Pensou? Bacana. Vamos chegar lá.

Agora me diga como você vê a colher? Ela está quebrada ou inteira? Já começou a sacar? Eu sabia! Você é uma criatura esperta! Mesmo que alguém diga que não o é, eu digo que é. E não é para fazer média com você, não. É simplesmente porque você tem um neocortex humano prodigioso. E talvez nem saiba disso…

Neo o quê?

Calma. Essa é um pergunta que você logicamente fará se não conhecer a tal palavra “neocortex”. Tudo bem. Vamos ver mais uma explicação. Só não quero que pense que tem a ver com a palavra “neoliberal”… Neoliberal é a política que reduz o papel do Estado a uma coisa mínima, do tamanho do caroço de uma azeitona, e que é hegemonicamente adotada no mundo atual, inclusive no Brasil, porém, nesse caso, não se assume… Mas isso agora não adianta muito para se compreender melhor o que queremos abordar. Voltemos ao neocortex, ou melhor, para facilitar, vamos simplesmente substituir a parte pelo todo, ou seja, em vez de dizermos “neocortex humano”, vamos dizer apenas cérebro, que abrange tudo da famosa massa cinzenta enrugada.

Eu diria, para resumir, você é esperto – não porque eu queira -, mas porque tem um cérebro humano, uma cachola, uma massa cinzenta enrugada e isso faz a diferença. Repare que eu não falaria sobre o “real” ou sobre as coisas que nos cercam e que nos envolvem, para uma cadeira ou para uma porta. A menos que estivesse brincando de dar vida a esses objetos. Eu falo apenas para você que pode me compreender, pois é um ser inteligente. Para não me alongar mais – uma vez que quando começamos a explicar uma coisa, mil outras vão surgindo e exigindo novas explicações – vou resumir tudo isso do que tentei dizer: não seria exato mencionar que a ilustração acima tem tudo a ver com Karl Marx, filósofo e economista alemão. Isso não. Mas que o famoso barbudo deu subsídios para o Saci explicar o que o número 45.000 suscitou, isso deu!. Calma, vou dizer de outra maneira. Acompanhe o meu raciocínio.

É que, coincidentemente, o Blog do Saci-Pererê está atingindo a marca de 45.000 visitas!…

“Coincidentemente por que ou com o quê?” – você irá perguntar. Maravilhosa pergunta! E eu respondo: o número de visitas ao blog do pestinha coincide com a média do número de pessoas que prestigiam o megabadalado Festival de Verão, esse extraordinário empreendimento comercial do Grupo da TV Bahia, como você sabe – ou não! – o grupo da emissora afiliada ou “afilhada” da toda poderosa TV Globo, cujas imagens superam, em qualidade,  zilhões de quilômetros as que eu consigo produzir com minha videocamarazinha peba. Mas esqueça esse inútil detalhe… Voltemos ao referido Festival, cuja média diária de público pagante é de 45.000 pessoas. Tudo bem até aqui? Posso continuar? Então, vamos lá!

Certamente, você já reparou na frequência com que TV Bahia, nos últimos tempos, tem divulgado o evento criado por ela, não é verdade? Consegue se lembrar do animado jingle? Pois é. Ele não sai da minha cabeça, de tanto ouvi-lo…  Você vai dizer: “Claro que ela o faça. O interesse é dela! E por que as outras emissoras deveriam anunciar um evento da concorrente poderosa?” Bem, se você pensou assim, não é exatamente disso que estou falando. O que eu quero dizer é da badalação que é feita sobre o Festival, mostrado como a oitava maravilha do mundo e que o povo baiano pode usufruir. E isso não é dito apenas pelo pessoal da TV como apresentadores, repórteres etc. Esses são profissionais que tiram sua sobrevivência do trabalho que realizam na empresa. E nem falo também dos cantores, músicos, pop stars que igualmente vivem do seu trabalho enquanto artistas da voz, dos instrumentos, do palco etc. Claro que é um trabalho – aqui para nós – bem remunerado, diferente dos outros que conhecemos, principalmente para alguns medalhões… Mas isso são outros quinhentos… milhões!… Quem sabe um pouquinho menos… Porém, ainda não é sobre esses profissionais – que permutam gentilezas com os magnatas da economia -, de que quero falar. Não mesmo. Eles apenas vendem, bem vendida, diga-se de passagem,  as sua competências, os seus talentos …

Parcerias Publico-Privadas

Quero falar dos políticos, dos dirigentes que acabam, como uma mãe zelosa, amparando os eventos da esfera privada no colinho gostoso e aconchegante do Estado. O artifício das Parcerias Público-Privadas (PPP) ou a relação “cordial” entre a Administração Pública e a iniciativa privada não é de hoje, e, a pelos menos 164 anos atrás, o barbudo Karl Marx, juntamente com o seu amigo de ideias e de lutas Friedrich Engels, de alguma forma, abordaram o tema, ainda que não exatamente pensando que um dia – no governo de um ex-metalúrgico  e ex-sindicalista com alto índice de popularidade -, surgiria um projeto com o nome de batismo de PPPs e tudo na forma da lei. Abro um parêntesis. Para ficar mais fácil de entender sobre o referido projeto, pense nas rodovias federais que são construídas com o dinheiro público, portanto com os recursos do Estado. Pensou? OK. Agora pense quem é que está colocando as catracas nos pedágios existentes nas estradas e que fica com a grana que é cobrada nelas, pensou? Você é esperto, eu sei! Claro que sacou que são as empresas privadas, que exploram por algum tempo (uns trinta anos!) os ditos cujos pedágios e, claro, também ficam com a polpuda bufunfa que vai render do tal pedágio. Ou seja, o Estado entra com o filé mignon e a iniciativa privada entra com a cebolinha, o coentro e, em alguns casos, até mesmo com a azeitona…

Mas voltando ao que a ilustração das 45.000 visitas tem a ver com o barbudo Karl Marx: aparentemente nada, mas de alguma forma, o número de visitantes deste Blog chamou a atenção do Saci, que era o mesmo número diário de pessoas que foram curtir o Festival de Verão. E foi aí que o pestinha se deu conta do quanto o evento criado pelo grupo da TV Bahia é poderoso. É muita gente numa espaço só, e é muita grana que corre lá. E foi aí lhe ocorreram duas perguntinhas básicas. 1) O que leva essa multidão de jovens a um local meio contramão, e, de certa forma, até um tanto desconfortável; 2) Para o cofre de quem vai tanto dinheiro com a venda de ingressos, de aluguel de espaços comerciais e de serviços, e, ainda, de publicidade e de propaganda?

Matrizes Teóricas

Creio que de tanto percorrer corredores e recantos acadêmicos, por osmose, o Saci sacou que para responder certas perguntinhas mais complexas, além da sua intuição prodigiosa e da sua capacidade de observação das coisas e dos eventos do mundo, ele poderia fortalecer-se com o que já foi pensado por outras pessoas, tanto do presente quanto do passado. E foi aí que ele acabou elegendo o filósofo e economista alemão para dialogar e compor o seu quadro teórico.

Mas, indagará você Leitor ou alguns colegas da academia envolvidos também com outras matrizes epistemológicas: Por que não Freud, Lacan, Skinner, Jung, Peirce, Saussure, Pêcheux, só para citar alguns? Por que logo esse barbudo foi o escolhido para explicar o evento empresarial/artístico? O que ele e seu amigo Engels tinham de especial?

Aí deixo o meu amigo de gorro vermelho e pito falar.

– Bem, não é que os autores citados acima não possam também dar suas contribuições para conhecermos melhor o real. Qualquer um pode e deve ser consultado. Por exemplo, de repente, alguém pode querer saber por que diabo uma pessoa quer por que quer acumular bens materiais, ou qual o móvel da sua compulsão pelo dinheiro, às vezes, pelo luxo, pelo ouro etc. à custa da exploração e privação do outro. Seria acaso por conta de algo que lhe falta, uma incompletude do seu eu, uma carência psicológica experimentada na infância, ou até mesmo na vida uterina? Ora, aí o velho Freud entraria com seu charuto e seus construtos de pulsão, frustração, complexos, libido, atos falhos, repressão psicológica, sonhos, desejos inconscientes e tantos outros conceitos que o famoso médico austríaco-tcheco, conhecido como o pai da psicanálise, foi construindo e esgrimindo no seu famoso sofá, digo, divã. O mesmo pode ser dito em relação a outros autores. De repente, alguém quer identificar os signos que rolam pelo espaço do Festival ou mesmo do seu entorno ou dos reclames que lhe dão suporte. Nesse caso, é de grande valia a identificação do índice, do ícone, do símbolo e de tudo o que pode ser do universo da investigação da semiótica ou semiologia, da linguagem, da análise do discurso, dos entremeios, dos discursos constituintes e por aí vai… Qualquer um desses autores poderia dar uma contribuição inestimável. Não tenho dúvida. Só que os números grandiosos do Festival de Verão me levaram também ao alto faturamento dos organizadores e isso me remeteu, por sua vez, à economia, essa grande roda que faz mover a história…

 

Mais-Valia

Para não ficar falando de coisas intangíveis, o Saci colocou uns dados de realidade no liquidificador e bateu tudo:

– Veja – disse ele – se tomarmos, grosso modo, para efeito de uma estimativa rápida, o menor preço do ingresso (que varia de R$ 45,00 a R$ 200,00) e multiplicarmos pela média de frequentadores diários do Festival de Verão (45.000), e depois multiplicarmos pelos dias das apresentações (4), teremos 45X45.000X4=8.100.000, ou seja, considerando outras receitas com  a venda de camarotes (R$200,00) e a venda de espaços para comercialização de produtos, publicidade e propaganda, não seria exagero afirmar que a merreca bruta de R$ 10.000.000,00 (dez milhões) vai para a conta bancária dos extraordinários empreendedores do grupo da Rede Bahia.  

A recomendação que faço aqui é a de que o Leitor e os versados em números e cálculos confiram as “contas de cabeça” feitas pelo meu estripulento amigo. O Saci prossegue.

– Para o Leitor ter uma ideia do montante faturado pelo grupo privado, sem contabilizar as despesas (e tampouco a mais-valia, claro!), a dinheirama equivale, aproximadamente, à metade dos recursos do Bolsa Família (R$ 24 milhões) repassados mensalmente para os municípios que atendem às exigências no desempenho do programa. Segundo fontes do governo federal, em 2006, mais de 11,1 milhões de famílias de todo o Brasil, ou seja, cerca de 45 milhões de pessoas foram beneficiadas com o dobro do que o Festival de Verão faturou em 4 dias!. Dizendo de outro modo: os empreendedores do evento faturaram um bruto equivalente à metade do que os 45 milhões de pessoas recebem para passar um mês!…

Aqui interrompo o Saci para apresentar alguns dos grandiosos números do Festival de Verão.

 

Números do Festival de Verão

Nos quatro dias do Festival, como já foi visto, com um total de quase 100 atrações espalhadas pelos vários palcos, a média diária de comparecimento é de 45.000 pessoas. Na edição de 2010, conforme está sendo divulgado no site do Festival de Verão, o evento ofereceu mais de duas dezenas de opções de alimentação, 300 sanitários químicos (no mínimo, um oceano de xixi!), cinco palcos, dois postos médicos, UTI’s de plantão, 26 restaurantes e lanchonetes.

Um dado curioso, divulgado pelo Correio da Bahia: enquanto oito estados nordestinos, incluindo a Bahia, estavam às escuras (não sei se, tecnicamente, seria um “apagão” ou um blackout), os 30 geradores transformaram o Festival de Verão num “Oásis de Luz”. Desses geradores, 24 são próprios do Festival e 6 são usufruídos dos patrocinadores. Os 7.000 kW utilizados no evento dariam, tranquilamente, para abastecer uma cidade com 40 mil habitantes.

Além do espaço do Parque de Exposições pertencente ao Estado da Bahia, o aparato estatal à disposição do Festival de Verão é constituído de Juizado de Menores, 750 policiais militares, 40 policiais civis, 70 bombeiros e 50 comissários do Juizado da Infância e Juventude (1ª e 2ª Varas).

Privatização do Espaço Público

A referência dessa pequena colaboração do aparelho estatal (público) estimulou o Saci a retomar o seu raciocínio.

– Pois a roda da economia continua a rodar e a favorecer os mesmos de sempre. Ou seja, a velha e cheirosa burguesia, detentora dos meios de produção, proprietária da bufunfa, dona do capital, a classe que faz a água correr para o mar, enfim! Não há dúvida que 45.000 pessoas é muita gente, mas, se compararmos com os cerca de 3 milhões de habitantes de Salvador, significa dizer que apenas 1,5% da população – sem considerar os que veem de outros locais do Brasil e do exterior –  usufruem do espetáculo de luz, som, cor, movimento, arte, magia e beijo na boca promovidos pelas empresas privadas patrocinadoras do evento, cujo ingresso varia de R$ 45,00 a R$ 200,00.  O mesmo pode ser pensado em relação a outros eventos artístico-culturais que ocorrem em Salvador e no Estado da Bahia. Por exemplo, em relação ao Teatro Castro Alves, qual o percentual da população de baixa renda que tem acesso aos eventos artísticos que nele exibidos? E no Carnaval, quem loteia e cerca o espaço público para dele usufruir, quer em gozo estético (e outros), quer em benefício financeiro? Acaso seriam os “cordeiros” ou os vendedores ambulantes/fixos de água mineral, refrigerante e cerveja em lata? E é nesse ponto que entra as contribuições do velho filósofo barbudo e do seu inseparável amigo (MARX e ENGELS 1980: 10):

“a burguesia, desde o estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial, conquistou, finalmente, a soberania política exclusiva no Estado representativo moderno. O governo do estado moderno não é senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa.”(*)

A citação oportuna dos autores do famoso Manifesto, garimpada pelo Saci, me fez lembrar da expressão de júbilo no rosto do prefeito da cidade, ao ser entrevistado, falando sobre o evento empresarial do grupo da TV Bahia, responsável, segundo o nobre político, pelo alto faturamento da rede hoteleira e de inúmeros outros segmentos da economia local. Recordei-me do que li sobre a Tribuna de Honra e do Backstage, pit stop dos astros e políticos, uma espécie de topo da pirâmide social, em que altos representantes do governo estadual, e outros, cantaram loas ao evento propulsor de “aquecimento” do mercado baiano.

Também o Saci testemunhou a pugna imensa travada nos grandes cerros e palcos do Festival dos Festivais da Bahia e do seu entorno.

– De fato, vi com os meus próprios olhos o sorriso escancarado de orelha a orelha da filha de uma amiga, cuja mãe de alto astral, em gesto abnegado, raspou a preguiçosa e raquítica poupança para descolar a mágica escova progressiva de R$200,00. Diga-se de passagem, que fez bela, belíssima – é verdade! –  a sua filhota do coração. Não é exagero dizer que todos ganham, ou quase todos: ganha a manicure, o pedicuro, a cabeleireira, a dona do salão, o flanelinha, o hoteleiro, a cozinheira, a copeira, o manobrista, o garçom, o lojista, a vendedora, o ambulante, o taxista e muitos outros trabalhadores. Mas, assim como há níveis de posições espaciais distintos, entre a modesta Pista Meia (de R$ 45,00) e a Tribuna de Honra (que não tem preço – pelo menos traduzido em moeda comum), há também níveis de ganhos pecuniários: desde a migalha que permite ao Pinto continuar ciscando para encontrar, a cada dia, a minhoca que lhe reporá as energias gastas no ato da ciscagem, até a suculenta parte do Leão que lhe assegurará músculos fortes e ricos nutrientes para levá-lo ao trono do Rei dos Animais e fazê-lo reinar com divinos privilégios e pompas mil…

As Antenas da Raça 

A despeito das críticas feitas pelo Saci a alguns aspectos do evento empresarial baiano, o Festival de Verão, na sua 13ª edição, mais uma vez bombou, como se diz hoje em dia, no linguajar da juventude brasileira. Gente bonita e talento artístico não faltaram. A julgar pelo que a própria emissora envolvida mostrou, foi tudo lindo, maravilhoso, excepcional. Terminado o evento, o eco do seu sucesso continua ocupando um lugar de destaque no espaço televisivo global e criando expectativas para muitos outros num futuro não muito distante. Já se fala que o governo estadual está vendo com bons olhos a possibilidade de transferi-lo para a nova Fonte Nova projetada para os dois grandes eventos internacionais (Copa do Mundo e Olimpíadas). No fundo, o meu arreliento amigo Pererê sabe que alguns resíduos deixados acabam construindo, querendo ou não, novas possibilidades culturais. Sei que, rigorosamente, não posso enquadrá-lo como sendo um Saci apocalíptico ou integrado, quando muito um escrachado dialético, abusado até dizer chega! Acompanhe o que ele diz, Leitor:

– Longe de mim, chefia, vir aqui para falar mal dos maravilhosos artistas e grupos que participaram do Festival de Verão. Só um tonto não enxergaria o quanto eles contribuem para divertir a moçada, que não quer apenas comida. Mesmo que o público diário pagante do badalado evento não ultrapasse a 1,5% da população soteropolitana, não tem como discordar que as suas belas e animadas músicas acabam chegando até o grande público por múltiplas vias: desde as lojas sofisticadas de CDs e DVDs de shoppings – populares ou não – aos “genéricos” vendidos em locais movimentados da cidade como a “Passarela do Som” (que liga a Rodoviária ao Iguatemi) ou o “Corredor Piedoso” (que fica nas imediações da Praça da Piedade e a região comercial do centro histórico), só para citar algumas delas. E isso sem discriminação de estilos ou gêneros. A mistura que o público tem nos palcos do Festival de Verão, encontra-se também nas “bancas portáteis” dos incansáveis camelôs e ambulantes: do axé ao tecno; do pop ao samba; do MPB ao sertanejo; do reggae ao pagode. Tem para todos os gostos e rendas. E olhe a roda do comércio informal movimentando a economia aêêê, gente!…

Tentei interrompê-lo para fazer umas colocações pessoais sobre os chamados discos “genéricos”, também conhecidos pelos lojistas como “piratas”, mas ele não me deu a menor chance.

– E isso tudo com muita agilidade, pois “time is money”, segundo o preceito liberal. Os mine-aparelhos de gravação de som e de vídeo permitem que, em dois ou três dias, o público já encontre o DVD do show de Ivete ou de Bel do Chiclete, por exemplo, baixado do You Tube ou de outros repositórios virtuais menos famosos, prontinho para o consumo. Mas não queremos falar mal de ninguém, não! A razão disso é muito simples: os cantores e músicos não estão no Festival de Verão por interesse mesquinho, ou pelo vil metal – o máximo que querem é um trocadinho para comprar o leite das crianças! –, mas apenas por amor ao público, por saberem que ali é possível levar momentos de alegria às pessoas, merecedoras de um pouco de entretenimento saudável, além do seu trabalho pauleira do dia-a-dia,  pois ninguém é de ferro.  A cada espetáculo, a juventude sai de lá mais leve, com o sentimento do dever cumprido, disposta a continuar lutando para que a sociedade seja mais justa, mais fraterna, mais digna, mais solidária e que oportunize a outros jovens, ali não incluídos, o ensejo de também participar de outros espetáculos musicais futuros…

À força, tomei a palavra do pilantra para lembrar-lhe o que o grande Ezra Pound – poeta estadunidense, que também era músico, crítico de literatura e celebrado como sendo uma das maiores figuras do movimento modernista da poesia – havia dito: “Os artistas são as antenas da raça”. Mas ele não se fez rogado. Manifestou-se na bucha, no ato.

– Pessoalmente prefiro fazer uma pequena correção: “Os artistas podem ser as antenas da raça”. Aliás, o talentoso Ezra Pound, pisou na bola ao comprometer-se com o fascismo, mas creio que se penitenciou ao dizer depois: “Minhas  intenções eram boas, mas enganei-me na maneira de alcançá-las. Fui um estúpido. O conhecimento me chegou tarde demais… Muito tarde me chegou a certeza de nada saber…”

Eu nem havia compreendido direito o sentido daquilo que ele recitara de memória, e o danadinho já mandava ver, qual uma metralhadora MG-63 (aquela que dispara 750 tiros p/min.):

– Chefinho, o capital envolve, seduz, pasteuriza, comove, enternece. Mesmo que não o queiram, os artistas ali presentes, também vão contribuindo para a manutenção da exploração do trabalhador pela classe dominante ou pelo capital. Eles reafirmam a propriedade privada dos meios de produção. Mas a inexorabilidade desse movimento também foi mencionada pelo barbudo alemão (ibid.: 11):

“A burguesia despojou de sua auréola todas as atividades até então reputadas veneráveis e encaradas com piedoso respeito. Do médico, do jurista, do sacerdote, do poeta, [do artista], do sábio fez seus servidores assalariados. A burguesia rasgou o véu do sentimentalismo que envolvia as relações de família e reduziu-as a simples relações monetárias”.

– Isso faz parte do processo de transformação do real? – continuou todo trêfego o pândego. – Faz, sim. Creio que o velho barbudo, até agora, acertou mais do que errou nas suas análises. A dúvida, apenas,  é se os artistas estão incluídos no rol dos operários modernos, cujos frutos do seu trabalho são apropriados pelo capital, como uma arma de alienação, qual o canto das sereia, ou se alguns deles encarnam o próprio capital… De todo modo, a circulação deste post num dos espaços virtuais da universidade, a internet, o acesso às informações disponibilizadas pela mídia capitalista,  a possibilidade de eu usar a tecnologia digital para desnudar o modo de produção hegemônico da burguesia , a utilização deste blog como instrumento interativo de comunicação horizontal, tudo isso aponta – sem determinismo! -, para aumentar mais ainda a probabilidade do velho barbudo alemão e do seu brother de ciência faturarem mais essa cantada de pedra. Confira só (ibid.:16):

“As armas que a burguesia utilizou para abater o feudalismo voltam-se hoje contra a própria burguesia. A burguesia, porém, não forjou somente as armas que lhe darão morte; produziu também os homens que manejarão essas armas – os operários modernos, os proletários”.

————
(*) KARL, Marx e ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: CHED Editorial, 1980.

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4 Respostas to “– Karl Marx no Festival de Verão”

  1. osaciperere Says:

    A participação de alguns artistas e grupos brasileiros:

    A Cor do Som, Alcione, Ana Carolina, Ara Ketu, Arnaldo Antunes, Asa de Águia, Aviões do Forró, Banda Calypso, Banda Cheiro de Amor, Banda Eva, Barão Vermelho, Beth Carvalho, Caetano Veloso, Camisa de Vênus, Capital Inicial, Carlinhos Brown, Charlie Brown Jr., Chiclete com Banana, Cidade Negra, Claudia Leitte, Daniela Mercury, Durval Lélis, Gilberto Gil, Gloria Gaynor, Ivete Sangalo, Jota Quest, Los Hermanos, Marcelo D2, Margareth Menezes, Marjorie Estiano, Milton Nascimento, MV Bill, Nando Reis, NX Zero, Olodum, O Rappa, Paralamas do Sucesso, Pato Fu, Pavilhão 9, Pitty, Planet Hemp, Psirico, Raimundos, Rapazolla, Rita Lee, Sandy e Junior, Sepultura, Seu Jorge, Titãs, Tomate, Victor e Leo.

    A participação de alguns artistas internacionais:

    Akon, Alanis Morissette, Ben Harper, Eagle-Eye Cherry, Fatboy Slim, Gloria Gaynor, Jason Mraz, Manu Chao, Men at Work, The Gladiators, West Life.

  2. TAFFAREL Says:

    MUITO BEM MENANDRO.

    Esta é uma denuncia IMPORTANTISSIMA respaldada no que tem de melhor em termos de explicação cientifica – o materialismo histórico dialético.
    Indica também o que fazer.
    Só lamento que cada um e todo os 45 mil, provavelmente, não leiam e não reflitam sobre o que você e escreveu.
    O dia em que isto ocorrer teremos a revolução em curso intenso.
    Ela poderá tardar mas chegará….o oriente médio demonstra isto.
    As ilusões haverão de ser quebrdadas. Temos que trabalhar para isto.

  3. Altino Says:

    Prezado!
    ótimo exercício!!! estou divulgando a análise e guardando-a para uso didático!!
    abraços,
    altino

  4. Mary Arapiraca Says:

    Muito bom!
    Vou recomendar sua leitura e humildemente contribuir para aumentar as modestas 45.000 visitas ao Blog do Saci-Pererê.
    Parabéns,
    Mary

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