– Lux et tenebris

Postado no meu ombro, o Saci fazia uma força enorme para iluminar os caminhos da UFBA com o lume bruxuleante do seu pito. Temia, o meu bom amigo, que eu levasse um tombo ou coisa pior...

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MenandroRamos
Prof. da FACED/UFBA

O meu amigo Saci insistiu para eu escrever que a UFBA está mergulhada nas trevas. Recusei-me, entretanto, por achar que é exagero dele. Até porque, tenho visto o glorioso Palácio da Reitoria – quando passo pelas bandas de lá, à noite -, iluminado com belas luzes coloridas que lembram a cenotecnia de Disney World, verdade seja dita, como nunca se viu coisa igual desde 1946, época em que era vivo o Magnífico Reitor Prof. Edgar Santos…

Isso tudo em virtude de eu ter me demorado um pouco mais na Faculdade de Educação, ontem, segunda-feira.

Explico melhor para o leitor. Quando perco a carona do Prof. Cleverson Suzart ou do Prof. Dante Galeffi e saio de lá depois das 18:30h – como todos os estudantes e servidores usuários de buzu, com atividades até mais tarde -, tenho que percorrer o bosquete que liga a FACED à rua João das Botas, ao lado da creche da UFBA. Logo em frente, há um ponto de ônibus. Quem faz esse  percurso, diariamente, sabe bem do que estou falando, inclusive do que vou falar ainda, ou seja, da escuridão que assentou praça naquele local, especialmente nos dias chuvosos,  como tem sido esses últimos. 

Talvez, se vivo fosse e por lá passasse, Raimundo Correia, poeta parnasiano maranhense, diria sobre a escuridão do local:

Vai-se a primeira lâmpada  queimada …
Vai-se outra mais … mais outra … enfim dezenas
De lâmpadas vão-se dos postes, apenas
Deita-se sanguíneo e brasido o sol…

De fato, é muita escuridão, leitor. O problema maior é que a administração da UFBA, nessa azáfama de consolidar a Universidade Nova do governo que sai, nem sempre consegue atender as demandas da Universidade Velha, a exemplo da complicadíssima substituição de lâmpadas queimadas por outras novas. Mas isso é normal na atual conjuntura. Pode até não acontecer em Harvard ou Bolonha,  locus universitários que têm inspirado os de cá, porém aqui ainda acontecem as trevas, a despeito dos lumes. Pelo menos, por enquanto. E é aí que o meu zeloso e preocupado amigo não se conforma. Na sua cabecinha apressada, a mil, eu diria, tudo tem que ser pra já. Não tem um pingo de paciência cristã para esperar o tempo bíblico da bonança, não tem!

Dessa forma, ele queria porque queria que eu escrevesse um texto destinado aos candidatos a reitor e vice da UFBA, em que instasse aos ilustres pleiteantes a prometerem, caso eleitos, zelar de verdade pelos caminhos dos nossos campi, mormente aqueles mais modestos e quase esquecidos, utilizados por estudantes e servidores que não dispõem de outro meio de transporte senão o buzu e os próprios pés, é claro.

Pensei, pensei, pensei e acabei desistindo da ideia, ainda que o amigo fizesse cara de amuado. Prometer, prometer, todos prometem, mas cumprir o prometido é que são outros quinhentos comprometidos. Infelizmente, ainda não temos um intrumento automático e eficaz que bote para correr o administrador descomprometido com os apelos justos e  democráticos da comunidade universitária, pois muitos deles só se interessam pelos seus investimentos pessoais e marketeiros.

Lembrei-me de um ex-reitor da UNB que se tornou célebre pela aquisição de uma lixeira milionária, entre outros requintados utensílios domésticos, adquiridos às expensas do erário público. Quantos, além dele, tiveram que deixar o cargo por suspeita de malversação dos recursos públicos? Quantos foram punidos por promessas não cumpridas? Quantos?

Ou, em situações mais brandas, quantos já sairam dos seus magníficos aposentos para dar um volteio e perscrutar as carências do dia-a-dia da sua comunidade? Ou, ainda,  quantos sairam para ver, ao menos, como a vida acontece fora dos Palácios Magnificentes, qual a personagem beatíssima do livro de Morris West, “As Sandálias do Pescador”?  Quantos?

O fato, caro leitor, é que, abaixo de Deus – para quem acredita -, só pude me valer do hercúleo esforço do meu amigo e diligente Saci, que iluminou o caminho por onde eu pisava. Sem ele, coitado, puxando o pito feito um condenado, com o risco de estourar a própria carótida,  quem sabe, se a esta hora,  este que vos escreve, não seria mais do que um aviso fúnebre barato ou de cortesia, publicado nos classificados de um dos jornais da cidade – ou nem isso -, tendo uma das intercorrências queda, facada ou tiro, como causa mortis, ou melhor,medium mortis”? Quem sabe?

Se alguns dos candidatos a reitor e vice se predispusessem a passar lá no escurinho da UFBA, como alguns já chamam o caminho, fazendo do medo motivo de piada, eu até que que me animaria a convidá-los e me ofereceria, de bom grado, para ciceroneá-los, quem sabe… O meu único temor, entretanto, é o de que me imaginem fazendo pilhéria com uma coisa tão séria, por suporem, inocentemente, que da nossa querida Universidade só emane lux et lumen

3 Respostas to “– Lux et tenebris”

  1. roseli Says:

    Mena, como sempre, espirituoso e áspero. gostei dessa crônica, seu Saci é mto inspirado, só que, embora bem, escreve demais. Bjs. Roseli

  2. roseli Says:

    Mena, como sempre, espirituoso e ácido. Gostei dessa crônica. Seu saci é um danadinho de inspirador, só acho que a inspiração o faz escrever demais, embora mto bem, sem dúvida. Bjs. Roseli

  3. roseli Says:

    Eu sou uma tonta, achei que não havia postado a primeira mensagem. Por favor, saci, apague uma, não me deixe pagar esse mico. Bjs. R

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