• Magnífico, Sr. X!

 Saci-Pererê,
da mitologia brasileira,
direto do bambuzal da FACED/UFBA

 

Foi num certo lugar, já faz algum tempo. Era um cenário bem parecido com o de uma escola convencional, com lousa, carteiras e tudo mais. De um lado, num tablado superior, um preceptor sisudo, com voz grave e porte de autoridade; do outro, um aprendiz de olhar atento e jeito de aluno aplicado.

 Tocou a campainha. Começou o ditado. A voz do Prof. O.M.C. (mais conhecido pelas suas iniciais), soava firme. Seu tom aveludado passava uma sensação de segurança e ciência. Sem pestanejar, o discípulo fez a caneta deslizar celeremente. O silêncio só era quebrado pela ponta da esferográfica, que arranhava o papel e maculava sua alvura de azul escuro.

Decorrido algum tempo, a campainha tornou a tocar. Com a mesma tranqüilidade que envergara durante toda a escrita, o aluno fez repousar a caneta sobre a carteira de fórmica acinzentada, após entregar a folha ao lente. Este imediatamente iniciou a correção do que havia ditado.

A cada palavra lida, manifestava-se com uma aquiescência de cabeça e um sorriso de satisfação pelo pupilo promissor.

No final da leitura, seu rosto iluminou-se com a expressão de júbilo. Nenhuma palavra errada. Cem por cento de acerto. Ato contínuo, a figura elegante do Prof. O.M.C desceu do elevado de madeira e dirigiu-se ao brilhante aluno, cingindo-o nos braços. Pragmático e comedido nas palavras, fitou-o nos olhos e disse apenas:

– Magnífico, Sr. X!

***

Se há uma coisa que não gosto de participar é de comissão julgadora de crônicas e contos. Como não sou da área, tenho a maior dificuldade para fazer análises mais abalizadas. Limito-me, apenas, a ficar no nível da doxa: gostei ou não gostei e pronto, sem maiores justificativas ou complexos esteios teóricos. Por conta disso, furto-me até em ler produções de amigos, quando me é exigido um “laudo técnico”.

Mas, ainda assim, sempre me chega algo para apreciar. Hoje foi a vez do Saci pedir os meus pitacos.

Chegou-me com uma crônica ou um conto ou sei lá o quê. Pediu-me para lhe dar uma força. Estava pensando em se inscrever num concurso literário. Li-o atentamente, reli-o, mas confesso que o achei o troço um tanto sem sal. Meio esquisitinho.

O problema era como dizer isso ao amigo, de uma forma delicada, sem ferir sua susceptibilidade. Como falar-lhe que o treco não me emocionou em nada?

No final, acabei tendo que dizer-lhe algo, meio reticente, meio constrangido, meio “Rolando Lero”. – Bem, Saci, achei seu texto um tanto corajoso, meio transgressor. Talvez essa coisa um tanto minimalista que, às vezes, você constrói, sei lá, algo como se fosse, de forma premeditada, induzir o leitor a uma das soluções daquelas apresentadas por Borges, ou quem sabe Proust, ou talvez Joice, ou Kafka… Ou até mesmo Clarice Lispector…

Peraí, mô men, aí me confunde todo! – interrompeu-me ele, de modo brusco – o que quero saber, mesmo, é apenas uma coisa e sem academicismo, já que ocê não é crítico de literatura, nem manja nada da área. O que quero saber é só isso: gostou ou não gostou? Só isso!

– Mas claro que gostei, Saci! Está excelente, todo lindão, uma obra prima. Imagine!…

– Então pronto! Era o que eu precisava ouvir. Vou inscrevê-lo agora no concurso. Tenho menos de meio minutinho para chegar até os Correios. Hoje é a data limite para fazer a inscrição.

E dizendo isso se mandou, feito um furacão.

***

Agora que se foi, eu fico pensando se agi corretamente, enchendo a sua bola, da forma que o fiz. Também, ele nem esperou eu fazer a crítica… Bem, mas agora é tarde. O leitor é quem vai julgá-lo e não eu.

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