• O difícil lema da Campanha da Fraternidade

 

 

 Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

Foi o meu amigo Saci quem me chamou a atenção para o pertinente lema da Campanha da Fraternidade, este ano organizada de forma ecumênica, em parceria com o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil (Conic).

O tema ‘Economia e Vida’ inspirou o lema ‘Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro’. Para o Saci, o mote da Campanha é excelente, independente de ser ou não religioso, mas a parada é duríssima.

– Chefe, é só olhar para essa festa da zorra que é o Carnaval da Bahia: enquanto o capital vai de camarote cheiroso, lindão e seguro, o trabalho, coitadinho, vai de pipoca, com sede, com fome, de chinelo, todo lenhadão…

Ainda tentei mostrar-lhe alguns senões e, sobretudo, o esforço que algumas pessoas fizeram para melhorar o convívio entre os participantes da folia, a exemplo dos que elaboraram o Estatuto das Festas Populares, mas ele nem me deixou concluir.

– Chefinho, meu querido! Ingenuidade demais é burrice ou má-fé. Tudo é lindo e maravilhoso! No gogó, os cantores e compositores, por exemplo, defendem o pluralismo cultural, a participação popular, a paz na avenida, fazem votos de amor eterno aos foliões e outras coisinhas super-simpáticas, mas depois da folia, vão pra casa contar gulosamente o que faturaram. E é só. Claro que não são todos. falando dos que vivem em palácios, faturam horrores…

– Esses constituem exceções, Saci. E depois, os artistas ralam muito, rebolam como podem… Além de tudo, são muito amados pelo povo…

– Menos, chefe, menos! Pelo povo, não, pela massa, pois a mídia é a mãe do estrelato… Veja como alguns desses popstars reverenciam as mídias empresariais e como são por elas afagados. Eles são sócios no negócio; é pura simbiose: “ me ajuda a faturar que eu lhe faço milionário, bilionário…” Já viu como fazem média com os políticos de plantão e com os políticos-proprietários das mídias? Já reparou como eles se cumprimentam da avenida para os camarotes-palanques e vice-versa? Ah! e a alegria de alguns repórteres-apresentadores que formam com eles um trio

– Não é bem assim não, Saci… Claro que existem aqueles que…

tem razão, chefe! bem  assim, não!  É muito pior! Pro’cê ver, o capital reluta em pagar, aos cordeiros, míseros 30 real por uma jornada de cinco horas de trabalho duro, embora pareça festivo… Sem falar no descumprimento do Estatuto do Carnaval e no cambalacho que os donos da grana e do espaço público…

– Ok, Saci! Ok! Você venceu – cortei o papo sem dó nem piedade – Já sei, já sei! Eles têm as armas e as leis!… Tudo bem, mas vou ter que sair para pagar umas contas…

…………….

– ‘Tadinho do Saci! – pensei tão logo saí de casa. Agora estou mal comigo mesmo. Fui meio grosseiro com ele. Reconheço. Ele estava louquinho por um papo cabeça. Mas a culpa é dos meus neurônios que ficaram inativos nesses dias de folia momesca, enquanto ele, o sacripanta de uma figa, se esbaldava como uma pipoca enlouquecida no asfalto.

Longe da avenida e do rebolation presencial, deixei-me narcotizar pela belezura da telinha tentadora. Coisa de doido. É tudo muito lindo, colorido, luminosos. Dá uma vontade louca de tomar toda aquela cerveja que desce redondo, de comprar aquela TV de 32 polegadas para ver melhor os pelinhos do pêssego que é a pele daquela modelo estonteante. Por sinal, que está vestindo uma grife chiquerésima… Ah! Um dia desse, ainda hei também de comprar  uma, igualzinha, para a minha amada… Ah! Se vou!…

Por muito tempo ainda pensei nesse montão de coisas que a telinha já me mostrou e cuja ausência delas, nos meus haveres e posses, foi capaz de criar uma incompletude crônica no meu ser e de transformar o meu viver em uma vidinha pífia.

 …………….

A fila andou rapidinho e o meu objeto de consumo, agora, passou a ser a telona luminosa 3D, de 54 polegadas, que dá um colorido vivo e magnitude excepcional à nossa existência sem glamour,  pobre e, ainda por cima, besta; é através dela que poderei ver melhor o potente carrão 4X4 – dos meus desejos mais ocultos -, deslizar de par com a manada bravia de cavalos alados, rumo ao condomínio ecológico dos meus sonhos, instalado numa fatia verde da Mata Atlântica… E dos meus pesadelos de frustrações.

Mas o diabo é que isso tudo custa muito dinheiro. AFF! E justo o dinheiro de que fala a Campanha da Fraternidade.

………………..

Enquanto eu pensava nas muitas tentações que rondam os cristãos e não cristãos de boa vontade, nos estertores das minhas merecidas férias, na cama, como em outras ocasiões, distraía-me com as dicas de como gozar a vida, generosamente publicizadas pela loira – apresentadora global de receitas de guloseimas (hummm! chame os cachorros!…) -, e do seu louro fiel.

Hoje, quinta-feira, um dia depois de o lema da Campanha da Fraternidade ter sido divulgado pela mídia, a loiríssima apresentadora mostrou a proeza de uma simpática velhinha (com mais de cem anos!), pulando de pára-quedas. Que delícia de reportagem (veja)! Como não podia deixar de ser, logo após exibir o registro imagético, feito com a corajosa anciã, pára-quedista por um dia, foi a vez de entrevistá-la, ao vivo, no estúdio-cozinha da emissora.

Inquirida pela apresentadora, em outras palavras, se ainda gostaria de se casar com “um guapo rapaz”, a entrevistada não titubeou:

– Só se ele tivesse muita grana…

Lembrei-me das palavras sábias do Saci. A parada seria duríssima, mesmo, para a Campanha da Fraternidade. O cifrãozinho, já incrustado no nosso genoma, era o grande vilão. Com certeza!

Ao longo dos séculos, aos poucos, foi triunfando a doutrina da predestinação, consolidada na Idade Moderna, destronando, assim, a economia, os valores e a moral do medievo, que condenava a usura e os juros ao fogo eterno do inferno. Com o advento da burguesia e do capitalismo, ter muita grana e acumular bens preciosos passou a ser um piedoso signo da escolha e da manifestação divina.

Assim, mesmo simpatizando com o esforço desse segmento das igrejas cristãs para melhorar a nossa sociedade injusta, ainda assim, sou obrigado a reconhecer que o meu amigo gracejador tem uma pitadinha de razão no que disse. Creio que ele acertou – pelo menos um pouquinho -, quando concluiu que “para transformar este mundão de meu Deus, as preces apenas não bastam…”

Bastam mesmo não, Car@ Leitor@! Infelizmente! É o que também estou achando…

Como sou leigo em matéria de economia, passo a bola para os cardeais – tanto os da UFBA, quanto os da Igreja -, caso  tenham disposição e gosto, pois não ganharão um tostão por isso.

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2 Respostas to “• O difícil lema da Campanha da Fraternidade”

  1. Mary Arapiraca Says:

    Ainda bem que você e o Saci passam a bola com pernas de Garrincha!
    Parabéns, aos dois.
    Mary

  2. Pesquisa aponta que UFBA prefere festas à fraternidade « Blog do Saci-Pererê Says:

    […] Contou o número de visitas que buscaram temas festivos ou apologéticos, a exemplo das publicações A APUB na mudança do Garcia ou Presidente da APUB é premiado e simplesmente comparou com a visitação de outro texto intitulado O difícil lema da Campanha da Fraternidade. […]

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