• O ENEM como moeda eleitoral

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

 

Enquanto esperava o aguaceiro aliviar um pouco para eu sair, lia recortes de jornais que fizera acumular num canto da sala, para desespero da minha semestralista.

Não posso nem dizer que estava me deliciando com a leitura daqueles papéis já um tanto amarrotados, o que seria, a toda prova, uma atitude masoquista da minha parte; ou, quem sabe, sadomasoquista. O máximo que posso afirmar é que a matéria me despertava um certo interesse, ainda que escrita há muitas semanas. Era algo sobre a tal marolinha, da qual o presidente fazia escárnio. Para ele, a nossa economia apenas sofreria um pálido reflexo do tsunami que fizera ruir as sólidas muralhas de Wall Street. Coisinha miúda, nada para fazer perder sono. Pelo menos, o dele. Talvez, o trabalhadores demitidos pelo país afora, tivessem opinião diferente…

A leitura me fizera pensar, justamente, na máscara e nos figurinos que alguns homens públicos envergam para certas ocasiões… Com muita astúcia, vão empurrando os problemas com a barriga, levando o público no papo e na valsa, e fazendo o que melhor sabem: ludibriar na maciota. Uma piadinha aqui, um gracejo acolá e sempre acompanhados de um séquito obsequioso e cúmplice, disposto a rir, a aplaudir e a vender sua “força de trabalho” por um lugar ao sol… palaciano.

Foi quando ouvi a campainha tocar. Tentei ver quem era, mas o hall estava um tanto na penumbra. O tempo chuvoso escurecera tudo.

– Um momento, um momento – gritei enquanto tentava vestir uma roupa mais composta. Pareceu-me ouvir uma voz conhecida, talvez aflita, porém o potente som de um carro, estacionado próximo ao prédio em que moro, me impedia de identificá-la.

Abri a porta com cuidado, tentando ver quem era. Para minha surpresa, deparei-me com aquela coisa miúda, de gorro vermelho, toda encharcada.

– Sou eu, pai! fechou a janela…

– Saci de Deus! Você está todo molhado… Vou pegar uma toalha…

– Precisa não, rei – foi logo me interrompendo – a demora é pouca. com um probleminha… Pensei se pai pode me ajudar. Também se não puder, não se grile, não… Sei que com essa crise…

Aquele jeito humilde me deixou desarmado. O que estaria acontecendo com ele para me procurar assim? Alguém consegue imaginar que os Sacis também têm problemas, e, segundo parecia, problemas financeiros?

– Sabe o que é, mô men? Tô meio apertado… O dinheiro ainda não saiu. Fico até meio sem jeito de falar. Hoje é o último dia para saldar minha dívida com o Leão da Receita. Se não pagar até hoje, tô ferrado! O pior é que o táxi aí na porta do prédio me esperando… Queria, se fosse possível, que mô pai me emprestasse quatro oncinhas… uma, que é pra pagar a corrida e três para me acertar com o imposto de renda…

Interrompi-o bruscamente para perguntar que diabo era “oncinha”. E ele me explicou que era outro nome também dado à cédula de cinquenta reais. Nem tive tempo para curtir aquela preciosidade semântica, contagiado que estava pela aflição do pobre amigo. Corri para pegar a agenda velha em que eu costumava separar o dinheiro para pagar o condomínio. A sorte é que, na noite anterior, eu tocara na casa do síndico e não havia ninguém lá. Dessa forma, consegui juntar todo o dinheiro que dispunha comigo e perfazer o montante do qual o Saci, aflitamente, precisava: duzentos reais. Trocadíssimos, mas sempre duzentos reais!

Ainda consegui uma borrachinha para as cédulas não ficarem soltas e esvoaçantes. Não se pode dar margem ao azar, pensei. É numa hora dessa que o vento leva uma só nota e todo o esforço vai pro ralo. O taxista não vai querer sair perdendo, e o Leão muito menos, voraz com é.

Desculpei-me por não acompanhá-lo até o playground e lembrei-lhe para ir rápido para o táxi, pois o trânsito em Salvador, em dia de chuva, ainda fica mais caótico.

Já com a grade fechada, ouvi sua manifestação de apreço:

– Valeu, mô men, cê é mil!

***

 

Só bem mais tarde é que me dei conta do quanto fui pateta. Deparei-me com um texto assinado pela diretoria do ANDES-SN, aberto no meu e-mail, intitulado “Novo ENEM – Por que pressa?” A simples leitura daquele título fizera meus cansados neurônios produzirem sinapses espertas.

O Saci valera-se de uma alegoria, quase kafkiana,  para me fazer entender que sob pressão a nossa guarda cai para o nível zero. Ele simulou um sufoco e acabou me levando duzentas pratas.

Ruborizei-me, tamanha era a humilhação sofrida. A minha subjetividade estava estilhaçada em milhões de cacos. Senti-me uma ave anseriforme, um anatídeo, enfim, um pato! Desde quando um Saci paga imposto de renda, pega táxi e padece por dinheiro? Eu ficara cego. O pilantra re-escrevera o ditado. Para ele a pressa era a amiga da perfeição, mas a perfeição do embuste, do golpe perfeito, do projeto astucioso.

***

Lembrei-me de algumas decisões açodadas que a comunidade universitária havia vivenciado, com prazos curtos e tempo exíguo para decidir, porque havia pressa, porque tudo era para “ontem” ou seríamos responsabilizados por omissão… Deixaríamos de receber os recursos financeiros para a manutenção das nossas Unidades de Ensino, seríamos tachados de irresponsáveis. Pensei no Reuni, na impossibilidade de discuti-lo nas instâncias universitárias, no corre-corre dos Conselhos Universitários para aprová-lo, no frenesi de apontar os prós, e na impotência de discutir os contras – porque o tempo rugia! Reportei-me também à pretensão falaciosa da realização do tal plebiscito que a atual diretoria da ABUB desencadeara, empurrando-o goela abaixo, porque o tempo é um leão voraz e o leão urge.

O Anno Domini de 2010 d. C., por coincidência também eleitoral, ruge ali na esquina do tempo. Bem pertinho. Aliiii! Menos de uma légua de beiço. Nele, o poder político hegemônico tem pressa em consolidar sua permanência. Mais do que resultados concretos em benefício dos cidadãos e eleitores, essa hegemonia precisa de estatísticas marqueteiras.

Vez ou outra, Ministros pleiteiam o mandato partidário – o que é legítimo -, e os números podem ser de grande valia – o que, às vezes, se torna imoral o seu uso;  do mesmo modo, Reitores podem ambicionar os labores dos ministério – o da Educação, por ventura, já estaria reservado para algum zeloso servidor? Quem seria o Magnífico contemplado?

Ministros e Reitores, cidadãos e gestores que são, têm toda liberdade de propor, de pleitear, de ousar, de ficar ou não nas suas áreas de competência por formação e, se tiverem tempo, de até sonhar. Só não têm o direito transformar a Coisa Pública em instrumentos servis ou de balões-de-ensaio de suas ambições pessoais.

Demorei mas acabei sacando para onde o Saci descambou. E tudo pelo equivalente a quatro oncinhas ou duzentos mangos. Uns e outros, em Brasília, que cobravam consultoria ao Ministério do Planejamento (e ainda presidiam um pseudo-sindicato) estavam fazendo escola. Fazer o quê? Era o preço que eu tinha que pagar por não enxergar além das sombras da caverna platônica…

Ainda que com um certo desconforto interior, talvez até por saber que esse alguém que eu julgava amigo e confidente me extorquira duzentas pratas de uma maneira Gil, digo, vil, ainda assim, eu tinha que reconhecer a eficácia da sua maiêutica. Mergulhei-me em questionamentos, em inquirições, em exegeses e depois de longos minutos de profunda meditação eu era uma outra pessoa. Sabia exatamente o que ele queria que eu soubesse.

Ele queria que eu entendesse que a aprovação açodada do ENEM, jamais possibilitaria uma discussão político-pedagógico amadurecida, e, muito menos, traria clareza do viés meritocrático e excludente subentendido nas propostas reformistas ensaiadas e impostas por esse e por outros governos brasileiros – quer estelares, quer bicudos, quer outros bichos.

Ele queria que eu sacasse que o ingresso de oito mil alunos numa universidade pública, que normalmente dava acesso apenas a seiscentos – ou números que os valham – pode soar como um grande avanço democrático e zelo do propositor pela inclusão, principalmente se o biombo, adornado de formas e apelos engenhosos, impede divisar outro horizonte que não seja o artificialmente construído; e se esse ingresso prescindisse o estressante e desumano vestibular, então, soaria de forma ainda muito mais atraente, divinamente magnífico.

E eu entendi o que ele queria que eu sacasse sem fazer pouco e nem duvidasse: que o ENEM poderia se tornar a mais nova moeda eleitoral.

***

De posse dessas sacadas, dirigi-me ao computador para escrever algo sobre o assunto. Quase não acreditei no que vi. O Saci saíra tão vexado que deixara cair o seu gorro. Era a primeira vez que isso acontecia. Estava ali bem pertinho do teclado, inexplicavelmente, seco da água da chuva. Pensei imediatamente em pendurá-lo no armador de rede, para entregar-lhe quando aparecesse. Ao tocá-lo, senti algo no seu interior. Saquei logo que era a grana que ele havia me tomado. Fiz questão de contar o bolo de dinheiro miúdo, cédula por cédula. Não faltou um real. Duzentos reais, ali na bucha!

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3 Respostas to “• O ENEM como moeda eleitoral”

  1. Fabiano Tade Grazioli Says:

    Caro professor Menandro, tenho me deliciado com seus textos. Você é muito inteligente, seus escritos são o máximo! Tenho, em momentos oportunos, levado os mesmos para a sala de aula, e os debates tem sido interessantes. Um abraço.

  2. Cecília de Paula Says:

    Olha mô rei, esse Saci é bem esperto mesmo, mas outros aí, de forma Gil, digo, vil (adorei o tracadilho), não ficam atrás não. O pior é que não devolvem nenhum centavo e ainda divulgam estarem “preocupados” com a nossa categoria docente…
    Tsi, tsi…
    E passa a chuva e algumas questões continuam enlameando a nossa ação sindical e enfumaçando a nossa visão com várias manobras, como essa da pressa por definições que apontam além, cartas marcadas de um jogo que pode ser jogado diferente. E deve. E nem nós, ainda conseguimos chegar a sua lucidez pós pressa. Mas conseguiremos, ainda mais com a ajuda do Saci. E do ANDES, nosso combativo sindicato nacional, que não se rende a uns trocados ou a alguns Rei (torados) nados…

  3. Fernanda Almeida Says:

    Que coincidência, professor… Do mesmo modo que o saci levou seu dinheiro e o ENEM foi aprovado para substituir o vestibular, entre um e outro nossa carreira de Professor de 1º e 2º Graus foi transformada em carreira do Ensino Básico, Técnico e Tecnológico… Sinal dos tempos! E o argumento é sempre semelhante, temos que aprovar logo, do contrário não teremos outra chance, perderemos mais, poucos terão acesso a um processo seletivo mais justo, em resumo: a tônica é a chantagem…

    Viva a sagacidade do Saci!

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