O legado de 31 de março

 

Não é mais necessário ter medo. Passou a borrasca. O fantasma do comunismo já pode ser adquirido como simples mercadoria  em qualquer loja de máscaras. Os que outrora ameaçaram a ordeira sociedade brasileira, hoje estão comportadíssimos, convertidos ao catecismo do Banco Mundial. Frequentam agora o Grand Monde e tomam café no Mais Você com Ana Maria Braga.

Não faz muito tempo, quando ainda era viva a bondosa viúva do patriota jornalista Roberto Marinho, a sua mansão/museu/parque-temático escancarava suas portas à ex-mocinha rebelde, para que a futura primeira mandatária brasileira pudesse conferir o (in) discreto charme da burguesia…

Os “Anos de Chumbo” ou “Anos Rebeldes” se transformaram em “Anos Redimidos”. Os “vermelhos” do passado, agora ostentam os tons violáceos da “maturidade” política e… financeira. O Cidadão Kane triunfou!

E Viva o Brasil! IL-IL-IL-IL!

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Leia mais AQUI.

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Editorial do jornal “O Globo” do Rio de Janeiro, em sua edição de 02 de setembro de 1964.

 RESSURGE A DEMOCRACIA

 Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições. Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.

 

Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo. Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

 

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo. As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, “são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.

 

No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, consequentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei. Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.

 

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo. A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

 

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.

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4 Respostas to “O legado de 31 de março”

  1. ANTONIO DE SOUZA BATISTA Says:

    Pois é, querido Menandro, um novo modelo de democracia se implantou no Baratizil (no idioma abanhangues). Daquele período em que
    “os vermelhos” eram caçados (mas não foram cassados), até agora, resta-nos uma nova democracia! Essa em que “os vermelhos” os comu e os soci, agora são os amigs do rei. Sentam nas cadeiras das mesmas mesas para gargalhar do cidadão que ostenta a sua carteira de trabalho, que lhe diz não ser ele, um escravo à toa.
    Uma nova democracia que deixa até o cidadão falar, mas inaugura uma praça de pedágio, a cada metro, nas estradas brasileiras,nas barbas da OAB, do Ministério Público, do Poder Judiciário e do Congresso Nacional.
    Precisamos andar (Beyond Citizen Kane) muito além do Cidadão Kane, no Brasil.

    Abraço Amigo
    do Amigo Batista

  2. Iracy Picanço Says:

    Menandro,
    o papel que você tem desempenhado, quer seja no registro de acontecimentos do momento ou no de manter vivos momentos de nossa história para que não sejam postos (ou varridos?) no baú do esquecimento e nos faça refletir como agir, tem sido muito importante. Tanto para aqueles que vivenciaram e ainda vivenciam os acontecimentos, quanto para os jovens, para quem nem como historiografia lhes passam os fatos, ou que tenham, inclusive pelas práticas educativas, se tornado “cultuadores” apenas do momento vivido e em torno de mero individualismo, ou melhor, em torno do próprio umbigo ou do niilismo.
    Parabéns pela sua coerência e firmeza de princípios!

  3. Menandro Ramos Says:

    Grato, Professora Iracy!

    A luta é árdua, mas precisa ser travada sempre.

    At.
    Menandro

  4. Menandro Ramos Says:

    Batista,
    Meu querido Menestrel da UFBA,

    Tempos de esquecimento, Camarada!
    Não nos restou senão a bela e velha canção “desbotada”, sem sentido para os tempos de perda de autonomia, precarização do trabalho e oportunismo…

    Caso queira matar a saudade, clique AQUI.

    ————-

    Viola Enluarada

    Composição : Marcos Valle / Paulo Sérgio Valle

    A mão que toca um violão
    Se for preciso faz a guerra,
    Mata o mundo, fere a terra.
    A voz que canta uma canção
    Se for preciso canta um hino,
    Louva à morte.
    Viola em noite enluarada
    No sertão é como espada,
    Esperança de vingança.
    O mesmo pé que dança um samba
    Se preciso vai à luta,
    Capoeira.
    Quem tem de noite a companheira
    Sabe que a paz é passageira,
    Prá defendê-la se levanta
    E grita: Eu vou!
    Mão, violão, canção e espada
    E viola enluarada
    Pelo campo e cidade,
    Porta bandeira, capoeira,
    Desfilando vão cantando
    Liberdade.
    Quem tem de noite a companheira
    Sabe que a paz é passageira,
    Prá defendê-la se levanta
    E grita: Eu vou!
    Porta bandeira, capoeira,
    Desfilando vão cantando
    Liberdade.
    Liberdade, liberdade, liberdade…

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