• O Regime DE e o bode do Saci

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

Havia muitos dias que o Saci não dava as caras. Desde que eu lhe pedi para dar um tempo, ficou todo melindrado. Sempre que isso acontece, entretanto, fico chateado comigo mesmo. Sei que a cólera é péssima conselheira, mas o Saci também abusa.

Eu havia pedido a ele para não mais me falar da história do plebiscito (ou daquela “armação”, como alguns preferem). Ainda assim, ele ficou insistindo. Primeiro, me torrou a paciência para eu denunciar o fato de não ficar professores junto às urnas, nos locais de votação, e de não se exigir nenhum documento de identificação na hora de votar. Passou na minha cara que, eu mesmo apenas disse o meu nome, e o “fiscal” me forneceu a cédula eleitoral, sem nunca ter me visto mais gordo. Isso foi verdade, mas ele só me chamou a atenção do fato dias depois. Não adiantava chorar o leite derramado. Caso eu pudesse imaginar aquilo, teria feito um teste, e tentado me passar pelo Prof. Francisco Santana, por exemplo, ainda que com toda a minha fealdade… Evidentemente, antes me fazendo cercar de algumas testemunhas, anunciando que aquilo era só para comprovar a fragilidade da fiscalização. Isso no caso do teste ser descoberto, para não quererem me processar por falsidade ideológica…

Depois ele ficou no meu pé para eu publicizar o escorregão que deu o presidente da APUB ao se auto-nomear presidente da Comissão Eleitoral do tal plebiscito. E chegou a esbravejar que aquilo era a mesma coisa de o presidente Lula se candidatar e ele próprio presidir o Tribunal Eleitoral. Fiz-me de desentendido e aproveitei para comentar que Sua Excelência agora estava era cotado para dirigir o Banco Mundial, segundo havia lido, tão logo desocupasse o Alvorada. Assim, se dependesse do camarada Obama, o Cara assumiria o cargo tranquilamente.

Fazendo pouco do que eu comentei, ele insistiu em dizer que “era uma desumanidade” o que estavam fazendo com o presidente da APUB. Permitir que o coitado fosse obrigado a contar cédula por cédula, pela madrugada afora, e se atrapalhando a todo momento… E tendo que recontar tudo, tamanho era o seu cansaço e – por que não dizer – sono!

Aquilo fora a gota d’água para eu esbravejar e pintar o diabo com o endiabrado estroina. Odeio pessoas ranhetas e insistentes. Na raiva, ainda disse que não escreveria meia letra sobre o assunto. Disse e cumpri! Aliás, você mesmo, leitor, pode testemunhar a meu favor. Por acaso recebeu alguma mensagem minha, nas últimas semanas, recebeu? Pois é…

Senti que depois daquele desabafo o cinto me folgou consideralvelmente. Talvez uns quatro furos. Logo depois concluí que havia perdido uns três quilos e, de quebra, o amigo Saci!

Mas qual! Era quase meia noite quando ele me apareceu ontem. Eu abrira a janela para ver a lua quando, de repente, notei um eclipse em câmara rápida. Só depois de alguns nanossegundos é que meu cérebro conseguiu processar o ocorrido.

O pilantra adentrou pela sala com um falsete estridente:

– Boca de forno! Forno! Farão o que o seu Mestre mandar?

Depois me veio com uma fábula sem pé e nem cabeça sobre um certo leão que descera de seu platô para confabular na savana com suas ovelhas, numa amálgama desengonçada de Nietzsche e La Fontaine, e, ainda por cima, trazendo gratuitamente a figura de um bode fedorento e de uma saleta apertada, que o filósofo e o fabulista jamais conheceram… Confesso que não entendi nada!

***

Não me dou por vencido facilmente. Só por desaforo. Agora é uma questão de honra. Faço acordar o detetive que existe adormecido em mim, e que, às vezes, ronca tresloucado. Encontrei um fio de cabelo: acabo de ler o “Notícias da APUB nº 334” que diz:

“O Regime de Dedicação Exclusiva (DE) não corre mais risco – A informação foi dada pelo Reitor da UFBA, […] em reunião na sede da APUB no último dia 03, à qual compareceu a convite dos representantes docentes no Conselho Universitário da UFBA,[…]”  [o negrito do “não” é por minha conta…]

Aqui tem! Alguma coisa me diz que foi daqui que o Saci extraiu o tal bode. Intuo que estou esquentando! Hummmm! Sinto que estou fervendo. É aqui que está o chicotinho queimado! Eureka, Watson! Elementar, meu caro Arquimedes!

Eis o bode da fábula do Saci, em forma de assertiva categórica:

O Regime de Dedicação Exclusiva (DE) corre risco de ser extinto!

Rebento da genitora, esse Saci!!! Curto e grosso. Matou a charada primeiro do que eu… Vai ser bom assim em Caetité! O resto é colóquio flácido para bovino ressonar, como ele próprio costuma dizer…

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4 Respostas to “• O Regime DE e o bode do Saci”

  1. Cecília de Paula Says:

    Oi Menandro, oi saci,

    Eu também fiquei espantada com o ocorrido, mais do que na imagem do Saci, mas na nossa Universidade…

    Fico aqui a pensar com os vários botões da roupa de inverno, num dia de frio, ao abrir o e-mail da APUB. O moço saiu da sala “reitoral” para tirar dúvidas e fazer campanha para o governo e sua proposta de ataque frontal a nossa carreira?

    Pior ainda, defender o ataque contínuo do governo Lula a nossa categoria profissional e ao nosso modelo de Universidade pública, autônoma, democrática, laica e socialmente referenciada!

    Parece que ainda estou na fábula. Já pedi a um amigo para me beslicar, e mais espantada fiquei quando verifiquei que estou acordada.

    E que a notícia estava lá sim…

    A seu convite, visitei alguns escritos de La Fontaine e encontrei algumas pérolas por lá. Voltei então a nossa realidade e as questões referentes a DE.

    Ao que parece, temos muito a conversar e ampliar a nossa luta em defesa da Universidade Pública. Mais bandeiras para a nossa luta sindical junto ao ANDES-SN. Mais ainda a revelar do “saco de maldades” do governo Lula para os professores de Instituições Públicas de Ensino Superior!!! E mais e mais indagações…

    Como a nossa seção sindical não chama a categoria para discutir essas questões? Será que temos alguns iluminados, que, mesmo sendo representantes dos docentes prefere conversar com a administração central sobre os assuntos que deveria discutir com a categoria????

    Será que estamos diante de algum (uns) iluminados, que resolvem por todos e ainda consideram que estão nos representando ao simplesmente seguir o que o “Mestre” mandar, talvez por medo do “bolo” que irão levar, caso resolvam pensar diferente do Rei-tor??

    Por que a APUB, nossa seção sindical do ANDES-SN, não participa dos fóruns de discussão do nosso sindicato nacional, como os grupos de trabalho do ANDES -SN que estão discutindo e encaminhando a luta pela defesa de nossa carreira docente e da Universidade Pública, autônoma e democrática?

    Esta semana estará acontencendo (de 16 a 19 de julho) o 54 CONAD com o tema central de: Unir os trabalhadores para enfrentar a crise, defender a educação pública e os direitos sociais. Certamente a nossa categoria docente estará se debruçando sobre estas questões com nossos pares, os professores, para nos posicionarmos coletivamente e, de fato, com as posições da categoria de defesa da nossa categoria. Infelizmente, a nossa universidade, mais uma vez, não estará presente, conforme deveria. Mais uma vez, estaremos de fora dessa importante discussão.

    A conclusão é que temos muito a fazer… muito a lutar como professores da UFBA e sindicalizados do ANDES-SN. Muito temos a fazer, por exemplo, repensar os rumos que esta diretoria está dando a luta sindical! Isto porque, de fato, a “armação” do plebiscito está posta e explicita no teu texto por outros registros. A nossa luta sindical na UFBA, apesar do atrelamento declarado da atual diretoria da APUB a reitoria e ao governo federal, permanece. E o Saci é figura importante nesta ação.

    Quanto ao DE, de fato, o regime de Dedicação Exclusiva (DE) corre risco de ser extinto!

    Ainda bem que o Saci retornou!!!!

  2. Cristiano Says:

    Menandro,

    Estamos aqui em reunião da diretoria do ANDES e um dos pontos da avaliação foi justamente o risco de extinção da DE não somente no setor das federais, mas também no setor das estaduais, já se trata de uma política mais ampla para a universidade pública no Brasil. Faço parte da coordenação do setor das universidades estaduais do ANDES e o relato que temos é que em diversos estados já é possível verificar iniciativas no mesmo sentido. Isso ficou mais claro com a avaliação que o pessoal do setor das federais apresentou no GT de Política Educacional do ANDES. Aqui na reunião de diretoria estamos, inclusive, com uma minuta de portaria do ministério da educação que trata desse assunto. Portanto, existe sim o risco concreto de extinção da DE, tal como a concebemos e defendemos. Seria importante a APUB pautar essa discussão na UFBA e tentar se integrar em uma luta mais ampla em defesa da DE. Não tenham dúvidas que isso será necessário. Se não nos unirmos o governo federal e governos estaduais darão passos largos em direção ao seu objetivo.

    Abraços para você e demais colegas da APUB
    Cristiano

  3. Maria Inês Marques Says:

    Mena,

    Você trate de reatar o vínculo de amizade com o Saci, que tanto te faz raciocinar. Senti falta de seus comentários pós-plebiscito e agora entendi o silêncio o silêncio de ambos. Não há mesmo muito que comentar, mas denunciar… Realmente a oportunidade foi perdida.

    Durante o silêncio de vocês, eu fiz comentários sobre ações pós-plebiscito sobre a carreira e a retomada da vida sindical do Andes. Devemos chamar uma assebléia e debater a retomada da entidade, é falsa problemática deles, o Andes tem o registro sindical. A legislação que assegura a unicidade sindical, nada menos que a Constituição Federal, é defendida pela cut/proifes não poderão contestar judicialmente. Não há caminho para eles, se houver, aí veremos a cobra fumar. O bode vai terminar assado.

    O Andes defende a pluralidade sindical, o sindicalizado escolhe seu sindicato e faz contribuição financeira voluntária, que assim é hoje garantido em estatuto. É perspectiva derrotada no movimento sindical e na realidade. O governo fechou com a unicidade e assegurou o imposto sindical obrigatório. O Andes não recebe imposto sindical e publica decisão em diário oficial, anualmente. Na nota, reitera que não se desconte o imposto do trabalhador, em seu nome. Imposto sindical é o motivo da caça ao tesouro, de cut, proifes, sinpro todos envolvidos com o registro sindical Andes.

    Enquanto isto, a entidade que parasita a Apub, desvia para si as contribuições mensais que fazemos ao Andes, as utilizam contra nós e para destruir o Andes. Pode Saci? Ainda por cima, nos impedem de participar de eventos deliberativos.

    Quem foi chamado pela Apub-Seção Sindical do Andes, (SS) para ir à reunião em que o reitor foi assegurar aos seus diretores que a DE não seria quebrada?

    Para o Andes, este seria um evento público, porque a diretoria é executiva e convida à participação seus sindicalizados. Não é novidade visita de reitores à entidade, a relação com a entidade não deve ser, necessariamente, de hostilidade. Ele pode ter ido falar de outras coisas, como por exemplo o processo estatuinte da Ufba, só eles saberão…

    A prática do proifes é decidir tudo antes, agir truculentamente e fazer o que desejam, longe da expressão democrática coletiva. Assim vem procedendo o representante dos sindicalizados Apub, no Conselho Universitário. Nunca soubemos nada do que ele vota. Nunca somos chamados a marcar nossa posição. Agora vem estatuinte, como ele votará? Como será nosso processo de intervenção?

    Tem mais, o problema da carreira não é só DE, tem ligação direta com a mudança estatutária, autonomia que o governo pretendendo, pela descentralização, ou a política cada um por si e ninguém por todos. Significará a quebra de qualquer vislumbre de um padrão unitário de qualidade para todas as universidades brasileiras. Cada uma irá se defender para sobreviver. As Ifes perderão seu caráter público e nacional, a privatização decretada, em nome da sobrevivência. Como uma universidade sustenta seu fazer público, vendendo-se no mercado?

    Está vendo aí Saci, é tudo muito mais que plebiscito…

  4. Ramankita Mayer Varela Says:

    Companheiros

    Fico cada vez mais pasma com a relação estanque entre o que o MPOG quer e o Miinistro da Educação disse que vai lutar.O ministéio da Educação quer qualidade, Dedicação Exclusiva para os Professores a partir do nível médio e pelo ensino, pesquisa e extensão de qualidade declaçao feita com ênfase na Globo News.

    O MPOG poderes para decidir o que quiser nas Universidades: Plano de Carreira,alteração na DE etc. Se tem fico mais pasma ainda. Se não tem, onde está ocultado em nosso cérebro o sentimento de indignação e de luta?

    Em tempos de tranparência porque não ficamos a par das atribuições de cada Ministério. O imobilismo dos colegas me leva a refletir se eu estou pensando tudo ao contrário dos nossos eixos de luta.Será alucinação ou isso mesmo está acontecendo?

    Estou na Universidade como estagiária desde meus 19 anos. Fiz Mestrado Doutorado na USP, tenho 68 anos e uma história na Universidade. Será que o nosso primo Alzheimer que está me confundido?

    Peço encarecidamente aos doutos que expliquem se isso não é uma ditadura acadêmica. Onde fica o livre pensar, a descontração de pesquisar com profundidade cada um na sua área.Para completar a corrida pela quantidade de trabalhos publicados ,impede o professor de publicar, pois os peródicos tem um limite. A CAPES agora quer desconsiderar os trabalhos publicados em periódicos brasileiros, mesmo quando o periódico é credenciado internacionalmente.Esse saco de maldade contra os Professores já está levando aos que não se dobram a produtividade sem qualidade a um quadro de desânimo para dizer o mínimo. Acho que é depressão mesmo. Nossos professores estão ficando doentes, pelo o excesso de trabalho, condições de trabalho ruins e pressão, muita pressão.

    A palavra de ordem deve ser LUTA e UNIÃO.

    Ramanita Mayer Varela
    Professor Doutor aposentada da UFPE

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