• O Magnífico Reitor e a Estatuinte

O Saci fotografado com o celular, pela Profa. Roseli Sá.
O Saci fotografado com um celular, pela Profa. Roseli Sá.

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

A Profa. Roseli Sá foi rápida no gatilho, ou melhor, no celular. Ainda bem que ela própria presenciou a ousadia do Saci. E, melhor, ainda registrou sua presença. Ela tirou-me também um grande peso dos ombros ao testemunhar o pilantra alojado na minha mochila, pois muitos colegas ainda acham que esse negócio de o Saci me visitar, é pura viagem minha. Ela o flagrou quando o moleque estripulento botou a cabeça para fora do seu  esconderijo improvisado. A cena foi muito rápida e ninguém percebeu nada.

Até o Prof. Cleverson Suzart, que estava à minha esquerda, bem próximo, só soube do ocorrido quando a Prof. Roseli, atônita, exibiu a foto no display do aparelho. É bem verdade que o clique de baixa resolução jamais lhe assegurará um Prêmio Politzer, mas certamente a colocará na galeria dos que conseguiram fotografar o traquinas do Saci. Por coincidência, ela é também uma caetiteense, embora prefira gabar-se de ter nascido em Caculé (que um dia pertenceu a Caetité)… De qualquer modo, isso é um detalhe que não contribui em nada para esclarecer o fatos, mas antes constitui-se o cumprimento do trato que fiz com ela de publicizar a sua autoria desse registro quase ímpar. Desculpo-me antecipadamente com você leitor, por essa longa digressão. Mas prossigamos.

Apesar de censurá-lo por interromper-me em uma importante reunião na minha unidade de ensino, considerei oportuna a sua aparição pelo fato de outra pessoa poder testemunhar o que venho martelando há meses: o Saci existe e está por aqui com os privatistas (o gesto de levar a mão até a parte inferior ao queixo, como se quisesse cortar a garganta, não tem nada a ver com o que os imperadores romanos praticavam).

Dessa vez, enquanto discutíamos sobre as questões do ensino público e em especial os assuntos atinentes à UFBA, ele foi saindo, na surdina, da minha mochila, para colocar um taco de papel na minha mão, contendo uma letra miúda que tive de suspender os meus óculos para conseguir ler seu conteúdo, tirando partido da minha miopia acentuada. Lá estava escrito:

“Já que vocês receberam prontinhas essas propostas de normatização para a UFBA, aliás, atualizações vitais e importantíssimas para lidar com os novos contextos da contemporaneidade, porque não perquirir o Magnífico Reitor sobre o porquê de ele não liderar a instalação de uma Estatuinte? Ainda há tempo!” (O grifo é meu).

E foi exatamente nesse momento que o seu gorro vermelho estimulou o clique acima referido, da Profa. Roseli, num gesto – acredito – reflexo, tamanha foi a sua agilidade.

Preferi não me expor ao ridículo, dizendo que aquela pergunta tinha saído da lavra do Saci. Aparentando compenetração, formulei-a como se minha fosse. Nem a Profa. Roseli percebeu a apropriação que eu fizera para salvar as aparências. Ou seja, aparência que eu ouvia vozes…

Ainda que algumas pessoas acenassem a cabeça em sinal de concordância – o que me levava a acreditar que estavam de acordo com o que eu (na verdade o Saci) indagara – talvez, pelo adiantado da hora, o indagado não suscitou maiores expressões de entusiasmo e, poucos minutos depois, a Presidente da reunião agradecia-nos pela nossa presença, bem como pelas contribuições por nós apresentadas, não sem antes de nos fazer rasgados elogios por termos vencido a longa pauta. De fato, aquela tarde fora profícua como há muito não acontecia.

Para não dar na pinta que eu abrigava na minha mochila algo tão estranho, esperei o pessoal se retirar, com o propósito de encher o salafrário do Saci de muita descompostura.

A última pessoa a sair foi a autora da foto. Disse-me que tinha um compromisso logo mais, porém queria muito conversar comigo sobre o que vira. Estava, de fato, perplexa. Prometeu-me enviar a foto por e-mail. Ainda ouvi quando ela disse, já no corredor, que nesse mundo, não mais duvidaria de nada.

Não ficou um único objeto da minha mochila que eu não espalhasse sobre a grande bancada de fórmica da sala de reunião, e nem um bolso sequer que não fosse revistado. O Saci, simplesmente, escafedera-se.

No buzu superlotado, de final de tarde chuvosa, com uma mão eu agarrava a haste escorregadia da porta do meio e a outra eu apertava firmemente o bilhete que o Saci me entregara com a indagação sobre a instalação da Estatuinte.

No Politeama, eu aproveitei a cadeira que vagou para descer sobre ela, impiedosamente, os meus oitenta e tantos quilos (claro, sem contar com a pasta, que não mais cabia uma simples caneta – sem brincadeira!). Eu estava exausto.

Dos quarenta e cinco minutos que levamos para chegar à Rua Direita da Piedade, enquanto a chuva caía forte, durante cinco eu dei um cochilo básico e o restante foi para considerar a pertinência da pergunta do Saci. Alguém precisava levá-la até o Magnífico Reitor.

Era preciso lembrar-lhe, respeitosamente, que apenas seis curtíssimos meses lhe restavam, do longo período de sua magnificência laboriosa. Aquela era a grande oportunidade para ele escrever, com letras de ouro, uma página de iniciativa – de fato – democrática. Se cometera, eventualmente, algum equívoco no seu reitorado, pois errare humanum est, aquela era uma oportunidade ímpar para penitenciar-se.

Quem sabe se um dia, depois de merecido descanso das indescritíveis fadigas do seu, por assim, dizer “generalato” – quem sabe, pois o mundo é sempre uma incógnita – se ele não renunciaria o sacerdócio de profissional da ciência médica, que tão bem soube honrar, pelo gládio da vida parlamentar, embrenhando-se pelos labirintos ínvios da capital federal? Quem sabe?

E para isso o slogan da campanha já estaria pronto, redondinho:

VOTE EM FULANO. O MAGNÍFICO DA ESTATUINTE.

***

Meus amigos sempre dizem que sou um pouco “viajandão”. Confesso que quando mergulho nesses “sonhos acordados” os engarrafamentos não são nem minimamente percebidos. Os vidros fechados do buzu e a respiração ofegante dos passageiros ainda ajudavam a criar uma atmosfera onírica, um mundo encantado, que, na minha cabeça, além de povoado de Sacis e Curupiras, também o era de muitas coisas e gestos bonitos.

Só me dei conta que chegara ao meu destino, quando alguém gritou com voz rouquenha:

– Piedade!

Ao tentar descer do ônibus, por pouco seus degraus molhados não me fizeram mergulhar de cabeça na enxurrada. Felizmente, consegui firmar as pernas. A mesma sorte não tive com o bilhete que o Saci me entregara. No solavanco da descida, desapareceu para sempre, na correnteza que descambava ligeira pela Junqueira Ayres, ladeira a baixo.

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