• O Saci e o novo Secretário

 

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

Enquanto aguardava a boa vontade do computador renderizar um vídeo que eu estava editando, armei a rede para descansar um pouco a coluna.

Embora tivesse pegado uma revista para passar o tempo, enquanto esperava, tinha dificuldade de fixar os olhos nas palavras. Não me saía da cabeça o que vira na TV. A que ponto chegara o nosso Poder Legislativo! Brigas, xingamentos, insultos, nepotismo… Coisa de louco! Eram pródigos, os excelentíssimos políticos, em falta de decoro. E ainda recebiam  régia remuneração por isso!… Um caminhão de detergente não dava para lavar, diariamente, aqueles espaços projetados por Niemeyer com tanto gosto e ousadia…

De repente me bateu um pensamento cabalístico:

– Teriam sido as formas das respeitáveis Casas Legislativas, com suas semi-esferas arrojadas, que estariam atraindo fluídos cósmicos gastronômicos para aqueles honoráveis recintos, razão pela qual, depois de todo e qualquer fuzuê, os ânimos se aplacavam e se convergiam para uma acolhedora pizzaria da Belacap? Até quando teríamos vigentes as soluções estomacais? Seria aquilo um  reles pretexto de um Demiurgo glutão para, no final, tudo acabar em pizza, segundo a imagem e semelhança do seu desejo divino?

Foi nesse exato momento que chegou o Saci todo serelepe.

– Parabéns, chefe! Seu colega da UFBA é o novo Secretário Estadual da Administração!

– Da Educação, Saci… – tentei corrigir.

– Não, chefe, da Administração mesmo…

– Não, Saci, Educação! – interrompi-lhe novamente.

– Ô chefe! ta biruta? Administração!

Ficamos mais de meia hora naquele pingue-pongue de palavras. Ele teimava em dizer “Administração” e eu insistia em afirmar “Educação”.

– Administração – Educação – Administração – Educação –Administração – Educação – Administração – Educação –Administração – Educação – Administração – Educação…

Embora minha voz estivesse calma e firme, pelo menos aparentemente, por dentro eu estava para explodir como uma Challenger sanguinolenta. A teimosia do Saci me deixava possesso.

Eu já havia recebido a notícia, que fora dada por um colega, através de uma lista da internet. Inclusive, ele havia publicizado um link para A Tarde On-Line, com o nome do novo Secretário de Educação e tudo mais.

Só havia um meio de acabar com aquela teimosia do Saci: interromperia a renderização, em processo, do vídeo eu que estava editando e, simplesmente, entraria no site do jornal. Nada mais simples. Aí, veria quem estava com a razão.

Só que aí me bateu uma insegurança básica. E se eu tivesse lido errado? A pressa nem sempre é boa conselheira. Não é à-toa que estamos lutando para que a Estatuinte da UFBA não ocorra a toque de caixa, como quer o tal núcleo duro… Pela lógica, o Saci tinha tudo para ter razão. Na verdade, o novo Secretário era professor da nossa vizinha unidade, a Escola de Administração…

Por outro lado, considerei, voltando atrás ao que pensara, que esse negócio de lógica tem que ser visto com muito cuidado, pois a lógica de quem está empanturrado não é a mesma de quem tem a barriga roncando… O próprio Saci costumava dizer que no capitalismo periférico avançado, o mesmo Palácio do Planalto que abrigou por oito anos um sociólogo, abrigou por mais oito um metalúrgico, sem contar os vinte e tantos anos que foi teto para a farra da ditadura militar… Ou então, se a lógica fosse lógica, quem iria imaginar que um laureado epidemiologista pudesse, um dia, deixar seus vírus e bactérias para queimar o juízo reitorando uma universidade após adjetivá-la e arriscando macular sua reputação de intelectual brilhante, caso o “infalível plano” desse com os burros n’água? Quem?

Quanto mais eu cotejava os exemplos da dura realidade, mais eu me convencia que o Saci também tinha chances de estar certo.

Por outro lado, quando eu cerrava os olhos, conseguia, claramente, recordar o título que o jornal dera. Não podia ser diferente. Era aquilo mesmo. Eu estava com a razão. A Tarde On-Line escrevera com todas as letras. O colega da UFBA era o novo Secretário da Educação, ainda que lotado na Escola de Administração.

Afinal, qual era o problema, o que estava pegando? O próprio Anísio Teixeira não era bacharel em Direito? Por acaso, quando Góis Calmon o convidou para assumir a Diretoria-Geral da Instrução, que hoje equivaleria à Secretaria de Educação, o que ele manjava do novo ofício? Por que, então, estranhar que alguém de administração pudesse secretariar a educação? E se a Educação estivesse precisando, de fato, ser bem administrada, e nada mais?

Aquele raciocínio me fortaleceu o espírito e as convicções de que eu podia estar enganado. Definitivamente, eu não tinha certeza de estar certo ou de o Saci ter se equivocado.

Pensei na possibilidade de o Saci estar blefando e, nesse caso, a nomeação seria do Secretário de Educação e não o contrário, conforme ele insistia em afirmar.

Ao olhar, entretanto, o pilantra se balançando na sua cadeira predileta de três pernas, sorrindo confiante, a dúvida novamente visitou-me. E se ele estivesse com a razão? Ah, maldita incerteza! Caso eu me equivocasse, com que cara iria olhar para ele? Gozador como ele é, que moral eu teria para enfrentá-lo daqui para frente? No mínimo, iria dizer que eu aprendera a fazer leituras truncadas e distraídas com o  Prof. Isolpi,  Digníssimo Presidente da APUB. No mínimo.

Depois de instantes catatônicos, resolvi agir. Era tudo ou nada. Aquela angústia me sufocava. Decidi arriscar. Tinha ciência que a porcaria do computador, sestroso como estava, não assumia ser um multitarefa. Um clique em falso e… pimba! Perderia toda a renderização que já me consumira um bom tempo. Mas eu precisava tirar a prova. Somente acessando a página do jornal, eu poderia acalmar aquele desconforto interior.

Respirei fundo e cliquei no ícone para conectar-me à rede. Senti-me o próprio Júlio César diante do Rubicão. Alea jacta est! Foram momentos de suspense. Depois de esperar um bom tempo, vi que não acontecia nada. Claro. O computador havia travado. Todo o meu trabalho estava perdido. Maldito Saci!

O malfeito estava feito, mas ainda me restava o prazer de desmoralizar o moleque infame, de esfregar-lhe na cara que a nomeação do governador fora para a Secretaria de Educação. Era só dar boot no computador e fazer a conexão com a rede. De soslaio, percebi que ele continuava com o mesmo sorriso confiante, indiferente ao meu infortúnio, pitando e poluindo meu ambiente de trabalho.

Reiniciei a máquina e tentei novamente a conexão, por uma duas, três, vinte, trinta, cem vezes e nada. Maldita Tim Web Movel, maldita telefonia! E eu que dobrei o valor da mensalidade para aumentar a velocidade! Decididamente, caíra no conto da 3G wireless e o escambau!

Aceitei assumir a minha urucubaca. Existem dias que os astros se alinham para chacoalhar com a vida da gente e aí não dá outra: o passarinho de baixo cospe no de cima e acerta o alvo. E não adianta espernear, porque as coisas são assim mesmo.

Já mais conformado, pensei em não deixar aquilo barato. Eu estava quieto no meu canto e eis que me surge o vadio do Saci. E tudo muda. E muda para pior. Nada mais justo, pensei, que ele pague a fatura deste preju.

Uma lição bem dada no moleque safado teria dupla função: ensinar-lhe a não criar mais problemas para os outros e evitar que eu explodisse feito um homem-bomba sem bomba, ou melhor, apenas com litros de adrenalina acumulados na extensão de todo o corpo.

Um bom tabefe iria colocá-lo dentro dos conformes.

Com a visão lateral, tentei mirar-lhe o gorro, mas o amontoado de coisas multicoloridas à sua volta, impedia-me de fixar o alvo estripulento. Não fazia mal. Eu miraria na direção em que se encontrava, e pronto. Era o bastante. Um milímetro a mais ou a menos não faria tanta diferença. Concentrei-me sem dar na pinta, aparentando toda a calma do mundo. Discretamente, enrijeci meus músculos e punhos qual um karateca. Enchi os pulmões e soltei bruscamente o ar. Gritei alto – Yahhh! –, projetando simultaneamente a mão fechada na direção do que eu julgava ser o pilantra, com o mesmo furor que expirava. O Saci, que não é nada bobo, saíra de fininho, tão logo observara minha calmaria…

Foi uma dor de morrer. Senti nos ossos da mão direita a rigidez da cadeira de três pernas, que rodopiou tresloucada feito um pião. Encurvei-me vencido, urrando de aflição, vendo estrelas e vaga-lumes.

Só no dia seguinte é que fui constatar que eu estava certo. De fato, a nomeação do colega da UFBA tinha sido, conforme eu havia dito, para Secretário de Educação. Mas como o Saci tomou chá de sumiço, não pude passar-lhe nas fuças o meu triunfo parcial.

Digo parcial porque, no fundo, para ser justo, o novo Secretário era também de Administração, ou lotado nela. Ninguém no mundo poderia afirmar o contrário. Ele não era de Direito, nem de Nutrição e muito menos de Medicina. Era de Administração e pronto. A bem da lisura, ambos estávamos certos. Eu com a minha verdade e ele com a dele.

Agora, mais calmo, e com a mão menos dolorida, só me restava desejar ao colega uma profícua administração. E isso com sinceridade, sem bajulação, pois não aspirava qualquer boquinha, o que me permitia ser deveras honesto e autêntico.

***

Um ou dois dias depois da posse, pude ver o entusiasmo do colega da UFBA falando na TV, já como Secretário de Educação, sobre as mazelas mapeadas e que futuramente seriam administradas. Com todas as letras e números, enfatizou que dinheiro é o que não falta na sua Secretaria. O que me fez concluir que os problemas, até então existentes, eram meramente de ordem administrativa, ou de falta de gestão.

Fiquei feliz pelos colégios públicos estaduais, tão maltratados, coitadinhos, sem professores suficientes (e os existentes com salários aviltados), sem limpeza, sem segurança, sem trato, sem papel sequer para “rodar” provas e exercícios, a despeito do empenho de muitos diretores comprometidos com a educação pública.

Agora, tudo será diferente. Emocionei-me por saber que os trabalhadores terceirizados da limpeza, com o pagamento dos salários regularizado, iriam poder pensar num pirãozinho com mais sustância e que talvez o “Cebolinha” truncado e adulterado tivesse até contribuído – dialeticamente –  para melhorar o tempero das suas comidas, há muito com gosto amargo, sob os olhos indiferentes do poder público…

***

Pensei até que, talvez, o governo estadual pudesse experimentar uma espécie de Super-Gabinete, em que estivessem congregadas as Secretarias de Educação/Administração/Segurança sob a batuta do maestro de Educação ou, como quer o Saci, de Administração. Quem sabe? Contanto que a Bahia funcione… Vá lá que dê certo!

Boa sorte, Secretário, colega da UFBA, seja qual for o gabinete assumido!…

2 Respostas to “• O Saci e o novo Secretário”

  1. eldita Says:

    Meu saci, desculpa a intimidade, sao excelentes os diálogos q vc mantém com o prof. Menandro. Acredito q os arianos (eu e o prof Menandro) gostam bastante de fazer o exercício da dúvida do próprio pensamento. To justificando (se é q preciso) donde vem a minha intimidade c o saci. Vem da minha participação nestes diálogos. viva o saci q cutuca o menandro, viva o menandro q escuta ou deixa se cutucar pelo SACI. Amo os dois. Os temas do diálogo sao excelentes p minha formação de educadora matemática. Continuarei a usufruir deste contato. bjs saudosos

  2. Daiane Simões Says:

    Olá saci! Quando vi na pagina inicial do site da UFBA a “novidade” quase cair da cadeira, fiquei envergonhada de morar em um lugar onde a educação é uma questão de números. Tomara que o vc continui a cutucar o profº Menandro. até a próxima.

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