• O Troféu do Sindicato


 
"Ser ou não ser... Eis a questão. Que é mais
nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos
do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar
de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes?
Morrer... dormir... mais nada..."

William Shakespeare (Em Hamlet)
 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

Desde a última que aprontou, o Saci andava desaparecido. Anunciei que ia escrever sobre o que havia feito comigo e ele tomou chá de sumiço. Foi na época em que me apareceu com um notebook, dizendo-me que o recebera de brinde da Universidade Noiva. E o pior é que eu ainda caí como um patinho, como dizem por aí. Na verdade, nem sei se os patinhos andam caindo, mas vamos lá. Depois eu esclareço melhor sobre esse mico que paguei. Prometo contar isso um outro dia.

Mas como eu dizia, hoje ele resolveu dar as caras. E só pra botar gosto ruim. Eu confesso que, além de ficar frustrado, ainda tive prejuízo nessa história toda. fazer o que, né? Faz parte. É o preço que tenho que pagar pela minha insegurança…

O certo é que eu estava meio deprê com o que havia lido sobre a crise financeira mundial, quando me chegou uma correspondência muito simpática, assinada pelo atual presidente da Apub. Abri um tanto apreensivo, julgando ser mais um aumento do Plano de Saúde. Mas qual não foi a minha surpresa quando li, com todas as letras, que eu seria agraciado com um troféu. Quase tive um troço! O pior é que precisei recorrer ao chá de camomila, pois o meu remédio de tarja preta havia acabado há quatro dias e eu estava sem ânimo para ir ao médico pegar uma receita. Perdi a conta das vezes que li a mensagem. Bateu uma dúvida: e se eu estivesse interpretando mal aquele conteúdo? Depois de muito pensar, meditar, refletir, resolvi pedir ajuda ao meu vizinho do segundo andar.

Era quase meia-noite, mas tudo bem. Vizinho é pra essas coisas. Toquei umas quatro ou cinco vezes e nada. Insisti. Afinal, o interesse era meu. Já ia desistindo, quando ouvi uma voz meio rouca, dizendo algo que não compreendi. Achei que, afinal, ele havia escutado a maldita campainha. E havia mesmo. Minutos depois a porta se abriu um pouco, limitada pela corrente do pega-ladrão. Vi o rosto congestionado de sono do meu vizinho. Em outras circunstâncias, eu teria recuado, mas naquela decidi enfrentá-lo. Pedi desculpas pelo abuso. Ao me reconhecer, ele abriu a porta por inteiro e foi logo me perguntando se havia acontecido algo comigo. Tranqüilizei-o e ele se mostrou simpático, aparentemente, apesar de eu ter lhe interrompido o sono. A sua expressão pareceu-me autorizar a falação. Animado, fui logo estendendo o papel para ele. Disse-lhe que precisava de sua ajuda para interpretar a mensagem daquela correspondência. Ele mandou que eu entrasse e ficasse à vontade. Era só o tempo para pegar os óculos. Agradeci-lhe pela gentileza, mas preferi aguardá-lo do lado de fora.

Tudo isso foi muito rápido. Minutos depois ele já tinha lido a correspondência e, meio desapontado, ergueu a vista. Deu-me os parabéns. Disse-me não ter ainda entendido no que ele poderia me ajudar. Dei-me por satisfeito. Arrebatei-lhe a correspondência e desci para o meu apartamento aos saltos. Gritei-lhe, agradecido, que ele já havia me ajudado bastante. Só ouvi o estrondo de sua porta. Acho que a fechou um pouco mais energicamente do que de costume. Ele é uma pessoa boa. Só não me conformo com certos hábitos que tem. Imagine! Fazer um barulho daquele, àquela hora da noite? É coisa mesmo de gente sem princípio, mas enfim!… Ninguém é perfeito. Também tenho os meus maus modos.

Sou obrigado a reconhecer, entretanto, que ele me deu uma grande ajuda. Tirou-me um peso da cabeça. Não havia mais dúvida. Eu e o meu vizinho entendemos a mesma coisa. Tudo estava muito claro: nas comemorações dos quarenta anos do meu sindicato eu estava sendo convidado para receber um troféu!

Fiquei pensando naquele gesto. Indubitavelmente, era de grande urbanidade. Não sei nem se eu merecia mesmo um troféu. Por outro lado, matutei, se eu não o merecesse, certamente não teria recebido a correspondência. Acho que, para decidirem quem fazia jus, de fato, à panóplia, antes empreendiam uma exaustiva investigação. Era como para a eleição de papa e canonização de santo. Investigavam tudo antes de dar o veredicto.

Ocorreu-me uma dúvida. Em que canto da casa eu o colocaria? Talvez na parte mais alta da estante… Ou quem sabe, em cima da TV? Acabei decidindo pela última opção, por uma razão muito simples: as pessoas adoram ver televisão e certamente passariam a me olhar com outros olhos quando viessem me visitar. Um troféu desse causa o mesmo impacto que uma medalha de um herói de guerra. E isso, no mínimo, me daria respeitabilidade perante os condôminos do meu prédio. Passariam a me olhar com outros olhos. Quem sabe até me dispensariam das taxas extras do condomínio…

Aquilo me remetia ao sucesso que fiz no meu interior quando, concluí o Curso de Datilografia. Afinal, aqueles extenuantes exercícios de teclar ASEFG-GFDSA, foram compensados com o belo diploma que por muito tempo ostentei na sala de visitas da minha casa, lá na Rua Barão de Caetité. Todo mundo que chegava ia logo dizendo: ?Nossa! Que lindo!? Aquilo me valeu muitas promessas de emprego, só não efetivadas por conta de eu ter vindo para Salvador estudar. O certo é que, se hoje eu uso apenas dois dedos quando digito, não é por falta de embasamento datilográfico, é por pura negligência.

Mas voltando ao troféu, pensei, fiz por merecer. Não foram fáceis aquelas idas à Brasília para protestar contra os golpes que o governo aplicava, generosamente, no lombo do trabalhador. Eram tantas as porretadas que até perdi a conta. E eu estava lá segurando faixa, apitando, gritando palavras de ordem, correndo para cima e para baixo, rachando os lábios no clima seco da capital federal, tendo piriri no caminho por ter comido salada com maionese estragada, o escambau. E as viagens de buzu pelas estradas esburacadas e perigosas, em que eu me distraía da lonjura da capital federal compondo mentalmente manchetes de jornais para que elas nunca acontecessem. “Ônibus é assaltado e passageiros são abandonados nus na estrada”. “De volta do DF, sindicalistas são assaltados e ficam com uma mão atrás e outra na frente”. ?Pelados na estrada?.

Assim, não me fiz de rogado. Comecei a me preparar psicologicamente para a noite de onze de novembro, a data gloriosa da entrega do troféu. Nada mais razoável do que, para uma ocasião dessas, escolher uma “roupa de ver deus”. Pensei logo no meu paletó azul-marinho. Se eu não fechasse os botões, daria para vestir. Provei-o e fiquei assombrado. Não podia mais usá-lo. Fiquei ridículo com ele. Nos últimos anos a minha barriga tem estufado pra valer. Estou me sentindo permanentemente grávido. Não sei onde vou parar. Nem a dieta que a crise da economia mundial está me impondo a fez diminuir. Descartei logo a possibilidade de vesti-lo. Pensei, então, em conjunto branco. Calça e camisa. Estavam ótimos. Se não caíram como uma luva, no entanto, ficaram razoavelmente “vestíveis”. Branco lembra aqueles movimentos pela paz. Aliás, muito oportuna para a ocasião.

Faltavam os sapatos. Pensei-os brancos também. Como não os tinha dessa cor, saí para ver uns que não fossem muito caros. Lembrei-me da recomendação do presidente Lula. Nessa época de crise é bom não fazer extravagância. Entramos no inferno astral da economia. Alguns até dizem é a TPM do capitalismo. Os tempos serão sombrios. Até porque é uma boa desculpa para não repor as perdas que os trabalhadores vêm sofrendo. Pela cartilha do pensamento neoliberal, o Estado só pode socorrer aos bancos quebrados. O resto é nada pra ninguém. Com perdão da palavra, trabalhador é par se ferrar mesmo.

Tentei ver uns de preços módicos. Numa lojinha perto de onde moro, descobri uma liquidação de calçados. Meu olho bateu em um par deles. Achei-os peque-nos, mas provei-os ainda assim. De fato, estava muito apertado, pois era um número a menos do que eu calçava. Mesmo com a calçadeira, deu muito trabalho para entrar. Todo zen, o vendedor concordou que não estava legal. Para o meu desespero, aquele era o último. O que fazer? Pensei no velho truque de deixá-lo de molho no milho molhado. Hum, molho no milho molhado! Podia não ser um grande trava-língua, mas talvez fosse uma solução para o meu problema. Comprei-os, pois. A vontade era abrir-me para o vendedor, mas ele, certamente, não conseguiria entender como alguém que fazia jus a um troféu não pudesse comprar algo melhor e mais confortável para calçar os pés. Há momentos em que o silêncio vale ouro.

Fui pra casa. Tudo ficou nos conformes. Deixei a roupa tomando um ventinho na janela pra tirar o cheiro de naftalina. No exato momento em que eu conferia pela milésima vez os dizeres da correspondência que eu recebera sobre a outorga do troféu, eis que surge como por encanto o Saci.

Meio escabreado, me cumprimentou todo mansinho. Retribui o cumprimento, mas fingi não prestar atenção nele. Foi ele quem puxou conversa. Valeu-se da expressão clássica: “Calor, né” O verão ta prometendo. E olhe que estamos ainda na primavera…? Ainda tentei resistir. Balbuciei um ehhh!, sem graça. Como quem não quisesse nada, ele se aproximou da roupa e foi logo elogiando a camisa bem passada. Acabei abrindo o jogo. Falei-lhe que ia receber um troféu, sem entrar em maiores detalhes. Não precisava. Ele já sabia de tudo. Provocou-me, então:

– Ué, você vai? Imaginei que isso não combinava com você. Parece que errei. Não pensei que gostasse de comendas e lauréis. Logo você que vive falando das artimanhas do poder e do poder da cooptação…

Ainda tentei retrucar dizendo que se estava recebendo aquele troféu, era porque alguém julgava que eu era merecedor e que, certamente, esse alguém tinha autoridade para fazer isso. O que ele dizia não tinha nada a ver. Ao que ele contra-atacou:

– Bom, pelo que eu sei, todos os dirigentes vivos receberão o troféu. Ora, se troféu é coisa para herói, então todos os dirigentes foram heróis. Se considerarmos que, nesse caso, o heroísmo é algo que se volta em favor do trabalhador, então, podemos concluir que todos os ex-diretores, sempre, em todos os momentos, agiram na mais absoluta correção e com a total aprovação dos trabalhadores. Está de acordo? O simples fato se ser dirigente, já assegura um lugar no panteão do heroísmo, certo?

Então, umas perguntinhas básicas: você sempre esteve de acordo com os encaminhamentos dos diretores do seu sindicato? Você nunca entendeu que alguns deles tomavam posições “pelegas” ou outras que contrariavam o espírito de uma organização sindical voltada para defender os interesses dos trabalhadores? Você quer que eu lhe pergunte sobre a tentativa de destruição do Andes, ou sobre a verdadeira natureza do Proifes? Ou ainda, você concorda que a frase mais radical que a atual diretoria do seu sindicato conseguiu pensar, para as faixas do carnaval da “Mudança do Garcia”, foi a de que: “ACORDO É PRA SER CUMPRIDO?”

Antes que eu pudesse tomar fôlego para respondê-lo, ainda arrematou:

– Se vocês todos vão receber esse troféu, posso concluir que são uva da mesma parreira? Não precisa responder agora… Só quero que reflita uma pouco!

– Ô Saci, de uma figa, você precisa entender que essa é uma oportunidade que eu e meu grupo temos para tomar a palavra e…

O pilantra me deixou falando sozinho. Simplesmente, desapareceu. Até atrás da geladeira eu o procurei. Escafedeu-se. Que sacrista!

**

Mais uma vez o patife do Saci me deixou no dilema: “Ser ou não ser… Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer… dormir… mais nada…”

O pior de tudo é que não morri, não dormi, não discursei, não comi, não bebi, não joguei conversa fora, mas antes fiquei com o olho cravado na TV, assistindo as maldades de Flora da novela… Ô raiva!

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