• Primeiro de Maio: Dia da Limpeza de Pele

 

 

 

 

 

“A história do Primeiro de Maio mostra, portanto, que se trata de um dia de luto e de luta,
mas não só pela redução da jornada de trabalho, mas também pela conquista de todas as
outras reivindicações de quem produz a riqueza da sociedade.”

                                                        Perseu Abramo

 

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED
/UFBA

Eu estava meio distraído quando me apareceu o Saci com o rosto todo pintado de branco. Apesar do susto, fiz-me de indiferente. Nem precisei perguntar-lhe pela palhaçada que saltava aos olhos. Ele foi logo se entregando:

– Não é Carnaval não, meu bródi, é o “Dia do Trabalho” mêrmo. Estou vindo de São Paulo. A CUT botando pra quebrar, véi. Ó pai, ó!

Foi apontando para seu rosto untado de um treco branco, como se fosse creme dental. Diante do meu ar interrogativo, ele puxou, da mesa da sala, uma cadeira quebrada, de apenas três pernas, sua preferida por sinal, e arrastou-a até o quarto onde eu me encontrava. Em seguida, pôs-se num vai-e-vem interminável de corpo, me contando tudinho o que vira na capital paulista – se é que vira – naquele primeiro de maio.

Eu tentava, em vão, adivinhar onde ele queria chegar. Desisti. Lembrei-me do Novo Manual Ortográfico do Baianês que havia recebido por e-mail. Em tom de deboche resolvi exercitar-me um pouco.

Eu quero é prova e um Real de Big-Big! – fui logo esnobando.

– Num tô comeno reggae do mô fiu. – reagiu ele prontamente – Já vi que mô men ta por fora. Não acredita em mim, então relaxe mô rei. Se ligue, no culhudeiro hoje à noite. Deve dá tudinho no reporte.

Num gesto assustado de quem olhava para um relógio de pulso que não existia, mostrou-se preocupado com o horário:

– Tô ferrado. A mina hoje me dispacha! Inda quiria quexá aquela pirigueti.  

Antes do seu já clássico rodopio, ainda pude ouvir sua declaração de amizade:

 – Cê tá ligado qui cê é minha corrente, mô peixe?

Não pude deixar de reconhecer que o Saci, quando queria, sabia encantar como ninguém. E essa pressa toda agora? Estaria ele amando como insinuara, ou era só para tirar onda comigo?

Ao entrar no banheiro, fui logo notando o tubo de pasta aberto. Compreendi, então, que aquela história da CUT era pura armação. Claro que ele não estivera em São Paulo. Por outro lado, eu não conseguia ligar coisa com coisa.

Só na hora do Jornal Nacional foi que a ficha caiu. Enquanto, naquele Primeiro de Maio, no mundo todo, a classe trabalhadora organizava passeatas, atos públicos, manifestações e exigia dos governos melhores condições para o trabalhador e dizia não às demissões, algumas organizações sindicais brasileiras patrocinavam sessões de manicure e de limpeza de pele, entre outros delicados agrados.

– Certamente, o gesto seria por demais simpático, se a flexibilização da luta sindical não fosse pavorosamente perigosa ao trabalhador – pensei. Talvez fosse isso que o traquinas quisesse me dizer, através daquela alegoria patética cheirando a menta…

***

De maio para junho é um pulo. Eu já conseguia imaginar a próxima armação do Saci. Faltava pouco para ele me chegar de chapéu de palha, camisa xadrez e calça remendada, dando vivas ao Arraiá da APUB. Dessa vez não precisaria simular sair do Estado, pois, aqui, o que não falta é licor, pamonha e quadrilha.

*** 

Há muito que ele percebera que os sindicatos dessas e de outras bandas – com as exceções, é claro – já não mais lutavam. Apenas comemoravam.

Só não sabia o quê.

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3 Respostas to “• Primeiro de Maio: Dia da Limpeza de Pele”

  1. Cecília de Paula Says:

    Colé, men!
    Eta saci esperto né, Mena. Mas, diferente de limpeza de pele, a CONLUTAS promoveu vários movimentos de luta e denuncia da precarização do trabalho, da ampliação das demissões e da perda de direitos dos trabalhadores conquistados na luta sindical. Ontem fizemos um ato bonito na FORD de Camaçari e nas praças desta cidade, demonstrando a força que podemos ter se unidos na luta dos trabalhadores.
    Assim, temos como lutar. Para isso precisamos nos re-organizar para exigir de nossa seção sindical a saída da CUT(is) governista (irc!), o retorno das contribuiçoes ao nosso sindicato nacional (ANDES-SN) e o fortalecimento da CONLUTAS aqui na UFBA.
    Oi como se fala por aqui, Eu tô ligado que cê tá ligado na de colé de merma.
    Abraços ao Saci pintado e danado.

  2. Menandro Ramos Says:

    Pois é, Ci.

    As conquistas do trabalhador são sempre COM LUTAS, muito labor e determinação. Parabéns pelo ato, a vc e aos demais participantes.

    Que a cutis fique sob os cuidados de cada qual, e que a façam bela, cheirosa, reluzente… Afinal, o poeta já disse: “Gente é para brilhar”!

    Nada contra o bom trato, a celebração, o encontro amigo e o pileque maneiro. E quem há de ser? Só um tonto… com porre!

    Nada a favor, entretando, do esquecimento de que SINDICATO É PARA LUTAR. Tudo contra, mesmo!

    No mais, é só lamentar que a epiderme outrora tão combativa tenha se transmutado em cutis descorada e sem vida. Talvez até ocasionada pela penumbra palaciana!

    Andemos com luta. Ao trabalhador, o que é do trabalhador!

    Grande abraço,
    Menandro

  3. Menandro Ramos Says:

    Recebi muitas mensagens cobrando a tradução de alguns dos termos do baianês usado no texto acima. É sinal que o Blog do Saci-Pererê está sendo acessado por não-baianos…

    Como baiano que sou – modéstia à parte, e para completar, sertanejo – manjo muita coisa, ou pelo menos razoavelmente, do que é dito fora da academia… Mas por precaução, recorri a um e-mail recebido recentemente, com uma relação básica de algum dos termos mais usados cotidianamente. Escolhi os mais esclarecedores para o texto.

    Ei-los:

    Mô bródi, mô peixe, mô men, mô rei, mô pai = Meu amigo.

    Relaxe mô fiu! = Sem problema, amigo!

    Cê tá ligado qui cê é minha corrente, né véi? = Você sabe que é meu bom amigo, não é?

    Vô quexá aquela pirigueti. = Vou paquerar aquela garota.

    Eu tô ligado que cê tá ligado na de colé de merma. = Estou ciente do seu conhecimento a respeito do assunto.

    Num tô comeno reggae de (fulano)! = Não estar com medo de provocação/ameaça de (fulano)

    Eu quero prova e R$ 1,00 de Big-Big! = Não acreditar. (O Big-Big é um chiclete consumido por pessoas de todas as classes).

    Ó paí ó! = Olhe para aí, olhe!

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