• Se a propaganda é a alma do negócio, a embalagem é o corpo…

 

 embalagens1

 

 

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso”! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

Olavo Bilac

 Muito pior, mas muito, do que ouvir estrelas é ouvir Saci. Eu que o diga!… Nunca sei quando e como ele vai atacar. Às vezes entra de mansinho, outras, esbaforido. Dessa vez chegou filosofando. Com ar circunspecto, sentenciou: “Se a propaganda é a alma do negócio, a embalagem é o corpo”.

Sem entender lhufas, clamei por mais clareza. E ele não se fez de rogado. O verbo rolou solto:

– E um corpo sarado, colorido, contemporâneo merece o lugar que lhe é devido: no foco das luzes – aufklärung ! – mais intensas, nas gôndolas das commodities especiais. De repente, não mais que de repente, um burburinho ecoa no espaço chique, revestido de granito. ELA chegou! Chegou ELA! Saradíssima é muito pouco! ELA é mais do que mais! Sessentona enxuta, que mão habilidosa teria operado o inaudito milagre? Pitangui? Não. O mar seria a inspiração maior. Esse mar descomunal que reflete a luz do céu e dos altiplanos, ainda que abrigando profundezas insondáveis e sereias fatídicas de vozes melodiosas. O mesmo mar de superfícies límpidas e cristalinas que inspira as boas e santas aventuras, ou boas aventuras santas. Tanto faz. Mar dialético. Ormuz e Arimã; sagrado e profano; puro e concupiscente; lux et tenebris.

Numa cusparada, quase tissunâmica, aproveita para tomar fôlego e prossegue inspirado:

– Mil flashes inundam de luz a passarela cobiçada. O ambiente é bom. Bom? Bom é muito pouco. É bótimo. Muita gente fina e cheirosa. No ar, a fragrância exata para a ocasião. Nanopartículas de cheiros especialíssimos. As melhores soluções sintético-florais que a tecnologia do olfato já pôde engendrar. Um estouro de paladar nasal, se assim fosse possível expressar. Néon, silhuetas esguias, estilo apurado, grifes impecáveis. Humm! O Diabo Veste Prada. (Mas não seria melhor pravda, ou Пра́вда, no mais castiço sentido expresso na língua de Nikolaj Aleksandrovitch Romanov, o último czar?). Eu sinto um negócio me coçar bem aqui. Um fogo como nunca dantes sentido. Um comichão nas entranhas. Sinto que vou parir, expelir do meu cérebro umbroso um vaticínio, uma profecia. Eu sinto em mim o borbulhar do  Eugênio. Escrevam, pois.

– A Universidade Nova vai ser uma apoteose. É o triunfo das luzes sobre as trevas!

Segundos após aquele vagalhão apoplético, de muito, muito entusiasmo, quedou hirto. Encolheu-se silencioso, taciturno, melancólico. Quase não se reconhecia o entusiasta de momentos atrás. Devagarzinho, dramático, foi tirando do gorro vermelho uma fotografia brilhante, ligeiramente amassada, recentemente saída de um bureau de impressão. Dava para sentir o olor digital. O ar ficou impregnado de bites e bytes. Pude ver, então, uma seqüência de caixas coloridas e vistosas. No canto superior esquerdo havia a inscrição “Estudo de Embalagens”. Logo compreendi que aquilo era uma pilhéria. Não passava do fruto de uma mente vadia, desocupada.

Mal pude ouvir quando o meu amigo Saci balbucio sensível:

– O que me preocupa, entretanto, é que o excesso de luz pode, também, ser uma armadilha para fisgar insetos!

Sua gargalhada quase me derrubou o mouse. Ainda atônito com tamanha encenação, senti na testa um piparote. Maldito Saci. Só então a ficha caiu.  Num pinote ele pulou pela janela, pipocando de tanto rir, e num torvelinho invejável de domínio corporal, de deixar ginasta olímpica de queixo caído, foi praticamente voando em direção do shopping mecenas.

Pensei que nem tivesse ouvido quando lhe gritei que a foto havia ficado. Engano puro. Mais uma vez me deu de dois a zero. No ar, a sua voz retumbou sarcástica:

– Faça bom proveito dela!

– Maldito Saci!

 _______________________

Palavra-chave. Néon, mar, oceano, grife acadêmica, silhueta, estilo apurado, estilista português; verve sociológica; neu-aufklärung; new-enlightenment; novo mar português (neo-mar).

 

* Menandro Ramos é amigo do Saci.

 
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Uma resposta to “• Se a propaganda é a alma do negócio, a embalagem é o corpo…”

  1. José Tavares-Neto Says:

    Além de texto excelente, é inteligente. Com tudo isso, se vivo fosse o Prof. Anísio Teixeira estaria vendo até mulas-sem-cabeça.

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