• Sindicato-Padrão

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

Da rede, onde eu fazia a sesta, com os olhos semicerrados podia observar bem o meu amigo Saci. Aqui para nós, eu fingia que cochilava, a fim de deixá-lo mais à vontade. Esparramado no chão, próximo de onde eu me encontrava, mergulhava-se em meus compêndios embolorados de Filosofia, livros que havia séculos eu não manuseava. Pouco afeito a leituras, a impressão que se tinha era que lia mais com os lábios do que com os olhos. O cachimbo pulava-lhe na boca, de um canto a outro, “qual borboleta irriquieta”, como diria qualquer um inclinado a ver a face lírica dos objetos e fenômenos do mundo.

Aquele frenesi com que procurava algo, que eu não sabia do que se tratava, passou a incomodar-me. Relutei em me meter, mas não resisti:

– Ô Saci! O que é que você tanto procura?

Distraidamente, ele me respondeu que procurava algo sobre “a nervura do real”. Imaginei que tivesse, de repente, se interessado em saber um pouco mais sobre as mônadas. Comecei a falar-lhe acerca do conceito de uma substância que não pode deteriorar-se, segundo alguns filósofos, mas ele não parecia ouvir-me. Sentindo-me inútil, aquietei-me.

Depois de algum tempo, resolveu falar:

– Então, é isso chefe! Se eu quiser, posso explicar tudo pelo movimento do real. Posso pegar, por exemplo, os conceitos, bolados por Aristóteles, de potência e de ato, ou até, se preferir, a dialética hegeliana ou a marxiana, e mostrar que nem poste fica parado. O broto nega a semente e a árvore adulta nega o broto. A criança é negada pela adolescência, que é contraditada pela maturidade. E assim caminha a humanidade, bem como os demais seres vivos, os seres brutos e até os pensamentos…

Interrompi seu reciocínio com uma gaiatice-zen:

Peraí, Saci! Pare com essa movimentação toda! Já estou ficando tonto!…

– É sério, chefe! acabo de descobrir o que outros Sacis morreram sabendo há séculos. Panta rei! Tudo muda. Banana passa, uva passa, tudo passa! Ninguém pega o mesmo ônibus duas vezes: mudam-se os motoristas, os cobradores, os assaltantes e os passageiros; muda-se o estado de conservação das cadeiras…

– Opa, opa! Você pegou pesado, Saci! Heráclito não disse isso!…

– Não disse porque nunca precisou pegar ônibus, chefe! Se precisasse… – interrompi-o bruscamente antes que, de forma generosa, pudesse  dar asas ao seu pensamento divergente.

– Meu querido amigo, please, diga-me logo para que sítio epistemológico você pretende me levar, pois vou ter um troço se espichar mais essa falação…

– É simples chefe, vou concluir rapidinho. ‘Tive pensando!… O movimento é a marca do real. No princípio, era só a perna. Depois veio a roda, a charrete, a biga, o comboio, a locomotiva, o automóvel, o avião, o ônibus espacial…

– Interessante, Saci! E daí?

– Da mesma forma, a humanidade se organizou repartindo benefícos e prejuizos em tempos remotos até inventar o modo de produção escravista, que foi substituído pelo modo de produção feudal e que deu lugar ao capitalismo…

– Hum! Meu amigo Saci está antenado com a economia! Puro materialismo histórico, mas, e daí?

– Daí, chefe, que  as condições adversas entre capital e trabalho motivaram a criação dos sindicatos, objetivando a defesa dos interesses dos trabalhadores…

– Tudo bem, meu caro Saci. Até aqui, estou conseguindo acompanhar seu brilhante raciocínio, mas e daí? Esse movimento todo do real vai dar onde?

– Calminha, chefe! Só mais um pouquinho… Pois bem, os capitalistas, ciosíssimos em movimentar a roda da economia (e mais ainda a da mais-valia), inventaram o conceito metafísico de “operário-padrão”. Daí para cá, foi moleza para a academia – ou, pelo menos, para alguns de seus dirigentes – pongar no vácuo e inquirir esperta: porque não criar, também, o conceito de “sindicato-padrão”? Tinha tudo a ver com o espírito da contemporaneidade. À semelhança dos operários bem-comportados, colaboradores, dóceis, afirmativos, podia-se pensar numa láurea para as unidades sindicais ou entidades que mais contribuíssem para oxigenar a nova universidade. Dito e feito!…

Percebendo a cama-de-gato que o pilantra do Saci queria me empurrar, e lembrando-me dos meus propósitos de tornar-me zen durante todo o ano de 2010, acionei a minha memória para resgatar os ensinamentos que recebi nas aulas de Integração Artística, nos idos dos anos 70, com o Prof. Possi Neto, na Escola de Teatro da UFBA. Meu esforço foi recompensado. Em segundos, tornei-me uma sementinha, para em seguida transformar-me numa pedra bruta, quieta, imóvel.

Tudo isso para concordar com Parmênides, ou com propósito de demonstrar que o movimento é apenas aparente, ou seja, que “aquilo que é não pode não ser”.

——————

Mesmo o Saci tendo se mandado, depois de esperar um tempão que eu saísse daquele estado catatônico que, sem querer/querendo, me  colocara, eu não tinha vontade de mover sequer um dedo. Sentia-me engessado, anquilosado, petrificado.

Igualzinho ao meu país, à minha universidade…

 

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