• Tratorando laranjas

 

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

A TV Globo e outras emissoras parceiras/concorrentes repetiram, à exaustão, o vídeo sobre pés de laranja  sendo “tratorados”, sob a responsabilidade de pessoas que seriam ligadas ao MST ou Movimento dos Trabalhadores Sem Terra.  Os editores de imagens sabem, melhor do que ninguém, que algumas delas, descoladas dos seus contextos, podem causar uma verdadeira comoção… Calculadamente, autoridades são chamadas para que se pronunciem sobre o ocorrido, de forma fragmentada. Fala-se de uma árvore e a floresta inteira é esquecida. E aí o miserê está feito contra os que clamam por terra, por pão, por justiça social.

Que imagem a TV vem construindo dos que militam por uma sociedade justa, quando deformam intencionalmente a perspectiva da paisagem? Ou melhor, que imagem de mundo e de realidade, os telespectadores construirão nas suas cabeças, depois dessa massa imagética ser previamente salivada e mastigada pelas empresas audiovisuais capitalistas, de potentes dentes-lentes afiados?

Outras “tratoragens” – muito mais lesivas aos trabalhadores, quais as da contra-reformas do Estado perpetradas pelo atual governo, nas trilhas do seu antecessor, capitaneadas pela voracidade do capital financeiro sem pátria – são toleradas, estimuladas, ou até, se conveniente, omitidas.

Que fim levou o clamor contra as “tratoradas” cometidas pelos ilustres políticos, para aprovar projetos espúrios ou para livrar velhas raposas de merecidas tosas? O que mais deu além do congraçamentos em torno de uma saborosa pizza? Alguém pode me informar melhor?

Ao longo de décadas, por tentativa-e-erro, as empresas de TV vão se tornando cada vez mais espertas, no que diz respeito a assegurar para si faturamento seguro e forjar credibilidade (via mito do bom profissionalismo), dispondo, para isso, de um grande trunfo: diariamente se cercam de pessoas simpáticas e modelares que emprestam (ou vendem!) seu talento, sua simpatia, seu sorriso, sua sapiência e tudo mais  que o público foi programado a desejar. Nosso país é o melhor e o mais generoso do mundo; aqui não há vulcões ou ciclones; os nossos empresários são justos e excelentes empreendedores; nossa criança é a esperança e exemplo para o mundo; o telespectador decide, pode tudo, é soberano. Contanto que ele não deseje alterar a ordem do grande capital.

Pobrezinhas dos milhares de pés de laranja destruídos. Pobrezinhos, mais ainda, dos sem-pão, dos sem-emprego, dos sem-terra, dos sem-teto, dos sem-escola, dos sem-saúde, dos sem-justiça, dos sem-futuro.

Pobrezinho do Brasil, pobrezinho do seu povo trabalhador. As laranjas e os “laranjas” sempre pagam o pato, para o benefício das elites. As laranjas, injustamente; os “laranjas”, merecidamente, quando não são ingênuos.

Mas, neste imenso laranjal verde-amarelo, o povo historicamente, tem sido pato. Sempre. E, às vezes, laranja.

Até quando?

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3 Respostas to “• Tratorando laranjas”

  1. Menandro Ramos Says:

    Enviei o texto acima para as listas UFBA/APUB, acompanhado da seguinte mensagem:

    Car@,

    Há dias o Saci não dá as caras. Acho que depois que o UFBA em PAUTA censurou a divulgação sobre sua exposição de charges e caricaturas, o coitadinho ficou todo melindrado. O pior é que sobrou pra mim. Para ele eu não tomei uma postura firme diante da infâmia. Ele queria que eu fosse para a imprensa denunciar a envelhecida Universidade Nova. Tentei argumentar que esperasse mais um pouco, que eu iria oportunamente com outros professores, mas ele não quis acordo. Pra ele é: ou vai ou racha. E parece que rachou comigo.

    Você acha que pode esse radicalismo todo, leitor? Não que eu fique no muro como alguns colegas da APUB, isso nunca! Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, já dizia o meu amigo e finado Elegance.

    De qualquer modo, estou até gostando de ele não ter aparecido. Que não me apareça tão cedo! Venho achando o dia bem maior do que de costume. Ele exige muito da minha atenção quando está presente. Coisa se louco.

    Para melhorar a situação, como diz um conhecido filósofo de auto-ajuda, o universo parece estar conspirando a meu favor. Alguns professores até escreveram sobre umas cositas atinentes à administração da atual diretoria da APUB! Aqui pra nós, achei ótimo…

    E já que a palavra está com os colegas Prof. J. Tavares-Neto, Claudemiro Neto, Profa. Patrícia Borja, Prof. Francisco Santana, Prof. Tomasoni, Joil Celino, entre outros, que se posicionam sobre a censura, bem como sobre a casa de praia que a APUB está mirando, eu me libero para escrever sobre coisas outras. Como, por exemplo, acerca dos trabalhadores do MST e as laranjas na beirada estrada. Não que precisem da minha defesa. Eles próprios sabem se defender e o fazem com muita garra, apesar da mídia querer demonizá-los. Mas acho oportuno tecer algumas linhas em cima das últimas notícias que vi na TV. […]

  2. Fernanda Gonçalves Says:

    Querido Mena,

    Na última quarta, estive na FACED, apreciando sua exposição. Está linda e ótima, revelando seu poder criativo e humor. Eis um exemplo excelente de evento educativo da Universidade.

    Parabéns para você! E para nós também, pois, afinal, não é sempre que podemos desfrutar da bela arte, criada por um amigo.

    Beijos,

    Fernanda

  3. Menandro Ramos Says:

    Obrigado, Fê.

    Foi justamente essa exposição que o UFBA em PAUTA achou de boicotar.

    De qualquer forma, esse golpe contra a liberdade de expressão desmascara os que dizem que não há censura no atual reitorado da UFBA. Como diz o Saci, os censores não caminham com as próprias pernas…

    É por essas e outras que estão dizendo por aí, que a Universidade Nova não se sustentará apenas com as luzes coloridas do Palácio da Reitoria à noite…

    Mas o julgamento da História será implacável.

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