– UFBA despedaçada

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

O Saci encasquetou em comentar comigo sobre a carga horária docente da PUN (acrônimo da Pós-Universidade Nova), conforme ele insiste em denominar. Apesar das minhas esquivas, acabei capitulando, mas não sem antes de o encher de resmungos mal-humorados.

Como sempre, ele me criva das mais estapafúrdias perguntas. Dessa vez me questionou se a tal ampliação da carga horária docente poderia ser considerada um presentinho de despedida do reitorado que se finda. De grego, diga-se de passagem…

– Bem, Saci, uma pergunta dessa não pode ser respondida de maneira açodada, uma vez que…

Foi o suficiente para o pilantra me cobrir de insultos. Mas continuo dizendo que não se pode responder tal questionamento com um simples “sim” ou um simples ”não”. Na idade que me encontro, prefiro a metodologia bovina – mudando o que deve ser mudado – de ruminar, ruminar e ruminar. A questão não é tão simples assim.

Em outro momento, o Saci indagou, com cenho franzido,  se essa tal ampliação da carga horária docente não seria uma espécie de bomba de fissão nuclear ou até mesmo uma bomba suja (bomba com o TNT – trinitrotolueno – empacotado com um material radioativo). Diante do clima que foi criado entre os professores, tal hipótese não me pareceu exagerada. Bastou o petardo ser disparado para ter início uma disputa entre os docentes e um desconforto inter pares. É um querer sem fim de se provar que fulaninho é mais produtivo que sicraninho. Um tem pesquisa hiperimportante; o outro só dá umas aulinhas mixurucas; aquele tem quilos de papers de publicação com qualis; aqueloutro só faz coçar… o dedão do pé. E por aí vai.

Enquanto isso, a solidariedade entre os trabalhadores da educação, gota a gota, vai escorrendo para o ralo… E os estrategistas neoliberais exultam pela feliz ideia que tiveram de pulverizar a categoria… Algo semelhante aconteceu na Era Collor. Muitos docentes preferiram aposentar-se, diante de uma guerra interna fraticida…

Mais uma vez, o Saci procurou exercer o seu senso de justiça.

– Pensando melhor, chefia, se a responsabilidade magna é do dirigente maior da universidade, os cardeais também não podem ficar de fora. Afinal, eles aprovaram a bomba!…

– Nem sei mais o que pensar, Saci!…

– E tem outra, chefe! Se mais essa precarização do trabalho docente foi aprovada por unanimidade, a perguntinha básica que deve ser feita é: onde estavam os diretores de Unidades, os ilustres conselheiros dos Orgãos Superiores da UFBA, e os nobres representantes da APUB que, em última instância, deveriam defender o interesse dos docentes?

Evitando fazer qualquer comentário, por não ter maiores informações sobre as reuniões dos Conselhos Superiores, não me furto, entretanto, de conjuminar ideias a respeito dos representantes da APUB. Penso com meus botões: talvez os diligentes festivos não tivessem outros pensamentos a não ser para os festejos que se avizinhavam na época… Quais? Ah! Não sei! Um calendário qualquer esclarece essa dúvida simplória…

O mais incrível de tudo isso é que, enquanto a UFBA se despedaça em desavenças e incertezas, o Arraiá da APUB afina a sanfona em rítimo de Copa e finge que tudo está às mil maravilhas…

Um autêntico abacaxi azedo para a futura reitora, a Profa. Dora Leal Rosa, descascar.

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Uma resposta to “– UFBA despedaçada”

  1. obsuni Says:

    Os instrumentos da pulverização são as Fundações Universitárias por um lado, e as agências de fomento por outro. Todas agem à margem das Reitorias inviabilizando qualquer planejamento centralizado para infraestrutura, regime docente e assitência ao aluno.

    Os grupos mais ágeis se aglutinaram em torno de projetos de pesquisa ou de consultoria conseguindo assim prestígio e dinheiro. Resistem , portanto, a dividir a carga do REUNI que eles, na sua maioria, aprovaram.

    Á medida que as gerações mais antigas de docentes se aposentam vai ficando cada vez mais difícil determinar quem vai dar aula no noturno, no sertão, na mata, no lago, etc… Sobra para os alunos de pós, mas esses não têm o dom da ubiquidade. Pois se assumirem carga didática ou de consultoria vão demorar mais tempo para concluir suas teses, consequentemente, os artigos que delas derivam e que alimentam os mesmos grupos.

    As AP´s que estão surgindo em substituição às AD´s favorecem esse modelo misto. O problema que vão enfrentar é a falta de braços para fazer o serviço pesado.

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