– UFBA emplaca mais um Secretário de Estado

 

      
 

Para o Saci, o risco que corre o "PT light" é desenvolver uma anorexia pelos assuntos relacionados ao trabalhador... (clique na arte para ampliá-la).

 

 

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

Habemus papam! Ou melhor, habemus cardinalis! Ou melhor, habemus Secretário da Cultura!

Para o Saci, a UFBA está com toda a corda. É só alegria. Emplacou mais um Secretário de Estado. Dessa fez foi o da Cultura. Isso prova que a nossa universidade está deveras prestigiada no governo do PT. Nem é preciso lembrar também que a UFBA é parceira de fé da Petrobras, cujos laços foram estreitados a partir do Prof. José Sérgio Gabrielli, também docente da UFBA. Os campi foram literalmente invadidos pelos logos, placas e totens da parceira empresa de petróleo. Sem falar dos cargos do segundo escalão, terceiro, quarto… Por longos minutos, foi discorrendo sobre os liames ora tênues, ora sólidos que ligam a Universidade Federal da Bahia aos membros do Partido dos Trabalhadores. Desde os mais influentes aos, aparentemente, que se encontram no degredo ou ostracismo. Até a presença do ex-ministro José Dirceu no Palácio da Reitoria da UFBA – fazendo palestra! -, foi lembrada.

– Mas, ainda assim, chefia, eu acho que o Ministro da Educação deveria ter saído da UFBA também. Fiquei desolado com a recondução do ministro Hadad. Perdemos essa. Não me conformo. Minhas charges e caricaturas estariam garantidas por quatro ou oito infindáveis anos!…

Diante de meu semblante sério, e da minha cara de poucos amigos, ele sacou logo que eu não estava para gracejos. Depois, até fiquei com pena dele. Meu pobre amigo, escabreado, retirou-se para a sala e concentrou-se no You Tube, com fone de ouvido e tudo.

Trinta ou quarenta minutos depois, ele me tirou de um belo cochilo que eu dava na cadeira de vime. Diante do meu ar assustado, desculpou-se e me recomendou a continuar a sesta. Disse-lhe que estava satisfeito. Já descansara o suficiente. O que queria mesmo era cair no chuveiro, pois o quarto estava um forno.

Vendo que me levantara, o meu bom amigo tentou perscrutar-me a alma. Agora, depois do ocorrido, avalio que fui um tanto ríspido com ele.

– Cê apreensivo, chefia? Eu também

Eeeu apreensivo? Sim, Dr. Freud! Quer que também eu me deite no divã?

falando sério, chefia! Sei que está melancólico pelos rumos que o país, o estado e a universidade estão tomando…

– Você é muito besta moleque! O Estado não sou eu!… É cada uma que eu ouço!

Ele tentou ainda dizer-me qualquer coisa, mas eu cortei-lhe prontamente a palavra.

– Era só o que me faltava. Eu apreensivo!… Hum! O que eu quero é cuidar da minha vida. O Estado e a UFBA já são grandinhos e podem caminhar com suas próprias pernas…

– Pois é, chefia. Poder até que podem… O pior é que estão caminhando com pernas alheias. Por exemplo, a universidade está cada vez mais perdendo a sua autonomia, antes assegurada pela Constituição Federal… Uma moedinha aqui, uma mixaria acolá e assim vamos perdendo o que conquistamos às duras penas… Aos poucos, vão transformando a universidade brasileira em prestadora de serviço. Em doses homeopáticas, vão precarizando o trabalho docente, flexibilizando as relações laborais, cortando a carne que denominam de “gordurinhas supérfluas”…

Decididamente, eu não estava a fim de conversar. Recusei-me em sequer olhar o título de algo que ele escrevera. Insistiu, fez beicinho de tristeza, mas eu estava firme em meus propósitos. Não queria papo. PT e não saudações. Vendo que eu não capitulava, tentou sua última cartada.

– Pensei que você quisesse reler o que o Prof. Felippe Serpa alertara sobre o PT light

De repente – vou abrir o jogo com você, leitor -, fui tomado de uma súbita curiosidade. Mas não dei na pinta. Fingi gélida indiferença. Provavelmente, o pândego do Saci estava se referindo a uma gravação em vídeo que eu fizera para a pesquisa de doutorado da Profa. Maria Inês Marques, da FACED/UFBA. A memória da gente é mesmo uma droga. Não foi à-toa que inventaram a escrita, o papel, o livro, o pendrive… Em menos de oito anos do passamento do colega, ficara apenas uma névoa de saudade. O que ele dissera e escrevera estava cada vez mais diluído na poeira do tempo –  que embora não provoque rinite, ocasiona a esclerose… Tudo tinha mudado muito depressa – o Brasil, a universidade, a política, a economia… Até a esperança recebera uns catiripapos do Deus Mu, outrora tão bem cantado por Gilberto Gil: Levante-se! /Prepare-se para celebrar/O deus Mu dança! O eterno deus Mu dança! / Talvez em paz Mu dança! Talvez com sua lança… Tudo indicava que a paz dos cemitérios tinha levado a melhor na história. Pelo menos, por enquanto…

O que eu demorei alguns minutinhos para escrever, naquele momento de tempestade cerebral, superara mesmo a velocidade da luz. Trezentos mil quilômetros por segundo, certamente, era uma eternidade se comparados ao tempo em que eu levara para realizar algumas sinapses-base do que compõem o que chamamos de pensamento.

Mais vivo do que o ex-presidente Lula na presidência, o moleque sacou que era em vão insistir. Retirou-se como um furacão, não sem antes de me recomendar:

– OK, chefia! Se não que ler, não insisto. De toda forma, caso resolva, vou salvar o texto na sua área de trabalho.

Mal senti que o moleque não se encontrava mais no pedaço, fui assaltado por uma vontade incontrolável de ler o tal texto que ele anunciara. Na verdade, era uma transcrição que ele fizera de um dos meus vídeos postados no You Tube.

Segundos depois de ler a referida transcrição, concluí que o Prof. Felippe Serpa era um bruxo, ou, então, tudo aquilo não passava de uma tremenda coincidência. Dos nomes que ele mencionara como inclinados a aceitar a inexorabilidade do mercado, dois compunham agora o gabinete de Sua Excelência o governador Dom Jaques Wagner.

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Abaixo, a transcrição do vídeo sob a responsabilidade do Saci:

“Felippe Serpa, para sempre” – Parte 6

http://www.youtube.com/watch?v=Y9g3tX9NLK0

[…] E aí essa coisa se desdobrou e aí o avanço, essas greves dos servidores públicos, professores, foi fundamental para segurar a universidade. Estimular privatizações internas. Eu aqui na reitoria, a vice-reitora presidiu uma comissão que levantou todas as coisas privadas que tinham dentro da universidade, até essas organizações empreendedoras de estudantes. Essas… Tipo…  Júnior… Empresa Júnior. Levantou tudo. Eu peguei todo esse catatau, levei pro Conselho Universitário e o Conselho Universitário formou uma comissão para analisar isso e fazer proposta. Esse Conselho, essa Comissão levou um ano com isso na mão, sentou no meu gabinete numa audiência e veio dizer que não tinha feito nada e que não iam fazer nada.

Bom, a universidade não quer tomar nenhuma medida contra as privatizações internas dela. Porque havia uma postura que chamaria do PT light de que o caminho era esse mesmo, era inevitável o mercado e que portanto, a universidade tinha que ter mecanismos de captação de recursos. Estou apontando para lá, mas está em Ondina. Mas era Albino, Barreto, Manoel José… Um grupo, né?[…] [1:13 – 5:34]

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