– Viva Tia Nastácia!

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

O.

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Saci estava meio quieto nos últimos dias. Eu não diria macambúzio, mas reflexivo. Da posse da presidente Dilma para cá, se muito, trocamos três ou quatro palavras. Uma delas foi um “oi” mixuruca.  Coincidentemente, o telefone não falava nem com reza braba e eu me encontrava praticamente isolado do mundo e cada vez mais convicto da fragilidade da nossa telefonia. Também a internet não dava sinal de vida. A impressão que eu tinha era a de que haviam dado pausa no mundo, ou mesmo que ele havia, espontaneamente, travado. E o pior é que eu não sabia como resetá-lo. Os amigos, a UFBA, tudo estava incomunicável.

Tentei puxar conversa com o Saci. Por um bom tempo ele me ignorou. Ficou dias ensimesmado, só vendo televisão. Parecia hipnotizado pela telinha. Viu de cabo a rabo as alfinetadas e elogios que a apresentadora Ana Maria Braga e convidados fizeram à cerimônia da posse da nova inquilina do Palácio do Planalto; assombrou-se com o vigor e bom gosto do vice-presidente da República. E eu, solidário, ainda que espiando a TV pelo canto do olho, acabei por acompanhá-lo, mesmo me sentido Menos Eu… Cheguei a perder a noção do tempo.

Quando dei por mim, as notícias da posse já estavam velhas e o que se noticiava agora era o falecimento da bondosa viúva do todo poderoso jornalista e empresário Roberto Marinho. O Saci nem piscava. Ouviu, emocionado, a história de contos de fadas da ex-miss Paris. Comoveu-se ao saber que, pouco tempo atrás, durante a campanha presidencial, a simpática dona Lily tivera a atenção e delicadeza de convidar a então candidata Dilma Rousseff para um elegante rega-bofe íntimo. Quem sabe animado por uma música antiga: O mundo gira depressa / E nessas voltas eu vou /Cantando a canção tão feliz que diz/ Hi, Lili, hi, Lili, hi lo. Parece que estava adivinhando! Duplamente: a vitória da candidata do Partido dos Trabalhadores e o seu próprio passamento para o andar de cima…

Sentia-me com uma grande dificuldade. Não queria admitir que havia assistido um programa de pseudo-culinária, mas, por outro lado, não tinha nenhum assunto para puxar conversa com o moleque emburrado. Foi quando me lembrei de um assunto que rolou meses atrás e que não tivera oportunidade de trocar ideias com ele. Era sobre a celeuma que havia sido criada sobre a possibilidade de se puxar ou não puxar – post mortem -, as orelhas de Monteiro Lobato, pelos termos politicamente incorretos com os quais se referiu à magnífica quituteira do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

O Saci não titubeou.

– Façam  tudo, só não o censurem!  Digam tudo o que quiserem, só não ousem dizer que Tia Nastácia apenas fez bolinhos e guloseimas!… O que seria do fabuloso Sítio do Pica-Pau Amarelo sem a força de trabalho da maravilhosa criatura que sustentou admiravelmente os moradores e visitantes daquele mundo encantado?

Como uma metralhadora, antes mesmo que eu me refizesse do susto, ele continuou.

– O mesmo poderia ser indagado, mudando o que tem de ser mudado: o que seria de São Paulo sem o suor dos nordestinos ou o que seria do Brasil sem o sangue dos afro-descendentes? E aqui um parêntesis. Não está passando da hora de repartir irmãmente as riquezas ao longo dos tempos criadas por esses bravos trabalhadores?…

– Claro, claro! – respondi tão logo ele fez uma curta pausa para respirar.

– Veja, chefia! Na ficção lobateana, se a bondosa Tia Nastácia tivesse questionado à sábia Dona Benta, avó que todos nós gostaríamos de ter, com pecados e virtudes – quem sabe se não mais virtudes? -, talvez, hoje, não estivéssemos refletindo sobre o deslize do escritor paulista – homem do seu tempo – e, sobretudo, trazendo à baila a questão do quanto o trabalhador e trabalhadora têm sido historicamente espoliado (até mesmo por escritores que aprendemos a amar!), ou, em outras palavras, no quanto a história do mundo tem sido a história da luta de classes e da exploração do homem pelo homem!

Poucas vezes eu tinha visto o Saci tão circunspecto. Bateu-me aquela dúvida se ele preparava terreno para uma piada ou se, de fato, falava sério.

– E tem mais, chefia! A literatura nos dá a esperança de pensar que podemos reconstruir o mundo segundo o nosso desejo e a nossa imaginação. Que me perdoe Santos Dumont, mas há razão convincente para não considerar Ícaro como sendo o “Pai da Aviação”? Tanto as narrativas orais quanto as escritas ou imagéticas não são senão possibilidades do verbo se materializar. Desse modo, os escritos da dupla de sertanejos alemães Marx & Engels poderiam estar pau a pau com a ficção científica do francês Júlio Verne que veio se tornar realidade tempos depois. Vide “Viagem ao Redor da Lua”, escrito em 1865!

O entusiasmo do pestinha era tão grande que eu não ousava interrompê-lo. Sua língua continuava soando qual matraca.

– O que nos estimula – certamente -, a pensar num planeta diferente de tudo o que tem sido até então. Não resta a menor dúvida de que Tia bovvx 1501Nastácia, de minha cor – o que, modéstia à parte, muito me honra! -, deixou a turma do sítio de água na boca, sim! Fez bolinhos apetitosos, limpou poeira, removeu sujeira, enfim, pegou no pesado mesmo! Mas, além de tudo, e como se não bastasse, ela como “demiurga criou, com linha e pano, a boneca ‘comunista’ Emília”, conforme lembrou o historiador e escritor Joel Rufino. Ou seja, da boca da criatura nastaciana saiu a antítese do que as mãos da bondosa negra criadora não podiam realizar, empreender, idear, capitanear ou raios que o partam! Assim, VIVA TIA NASTÁCIA! Viva a literatura e, por tabelinha Viva Lobato!

De semblante já completamente bem-humorado, piscou para mim e completou seu raciocínio:

– Dialeticamente!…

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