– As Condições de Trabalho

Maria Inês Marques

Cheguei em casa depois de dar aulas para uma turma de 50 estudantes, marteladas e barulhos próprios de uma sala de aula, forçaram elevar o tom de voz que resultou em dor de garganta. Não foi a primeira vez. Desde o primeiro dia de aula constatei o quão difícil seria permanecer assim todo o semestre. Solitariamente, fui até à direção e explicitei o problema para a Celi, que intencionava comprar microfones. O semestre está terminando e as aulas continuam acontecendo com as mesmas características e minha garganta dói.

Em outro dia, sentindo muita dor de cabeça, falei com o homeopata que me acompanha e ele perguntou de pronto: está tomando água? Lembrei-me então, que naquele dia, não havia tomado um copo de água, a que existe na secretaria tinha acabado, o dinheiro que deixamos na caixinha de coleta para comprar água tinha sumido e o departamento estava fechado em função da greve, não vi se por lá tinha água comprada do mesmo jeito, com vaquinha. Para completar, havia esquecido de levar minha garrafinha e as aulas e reuniões me fizeram esquecer de beber este líquido que nos faz viver.

Fico me perguntando se deveremos continuar entendendo que não precisamos de condições de trabalho. Celi tem mandado cartas reiteradas vezes para a reitora pedindo providências para finalizar as obras, para termos a copa de volta, mas os pleitos não chegam a termo. Quando nos juntaremos para defender nossas condições de trabalho? A tarefa de colocar um fim nesta situação de descaso com a Faced, deve ser de todos nós.

Em minha opinião, a representação docente na Congregação precisa ter uma ação mais contundente em defesa de nossos interesses, que passam não só por eleições, mas para mudar o que nos afeta. Quero dar aulas e não perder minha voz, para isto preciso beber água, falar sem muito esforço nestas salas às vezes improvisadas e sem acústica. Para levar o resto do dia no trabalho, um café cai bem, não pode ser feito, porque não temos copa, as garrafas térmicas estavam sendo lavadas no banheiro, a água do café é coletada no banheiro. Celi denuncia, a reitoria não faz nada e nós continuamos agindo como se tudo estivesse bem e suprindo um pouco de nossas necessidades do próprio bolso. Espero que quando a reitora voltar para a sala de aula na Faced, não encontre o mesmo quadro. Que ela chegue no seu local de trabalho sem o barulho de martelos, com a obra pronta realizada por uma empreiteira séria, sem que a instituição perca dinheiro por aceitar propostas de licitação pelo preço mais baixo, que resulta no que aconteceu conosco, a empresa não terminou a obra. Que encontre filtros ou garrafões de água à vontade e não como hoje, sem nem uma gota de água para refrescar sua garganta, ou, pagando quase 3 reais na cantina privada para ter uma garrafinha.

Fiquei muito satisfeita quando a indignação passou a ser palavra de ordem e transformou-se em ação em diferentes países. Parece que entre nós, pessoas esclarecidas, intelectuais respeitados da Bahia, ela não tem significado. Olho para todos e vejo desunião e nem um pouco de indignação a ser transformada em ação. Queremos que a direção dê jeito em tudo, mas sem apoio, retaguarda, os dirigentes continuarão a fazer ouvidos de mercador…

Minha proposta é de que a representação docente entre com um pedido na Congregação para discutir nossas condições de trabalho, que possamos fazer uma lista de necessidades e entreguemos para a colega de faculdade, que hoje é reitora, mas amanhã, voltará para a sala de aula. Por ser originária da Faced, não a obriga a nos dar mais atenção, claro, mas ela sabe de nossas condições melhor que ninguém. Como dirigente, ver o quadro deplorável das reformas e as condições de trabalho, deveria ser estímulo suficiente para dar tratos à bola e pensar–se docente, pois reitoria é temporária. O problema não é menor, é ainda mais grave diante da naturalização, e aceitação, das nossas precárias condições de trabalho, por nós e pelos dirigentes.

Saudações indignadas

Anúncios

4 Respostas to “– As Condições de Trabalho”

  1. Menandro Ramos Says:

    Em resposta à Profa. Inês
    ————————–

    Parece que a indignação já chegou a Wall Street. Aqui, ela anda está um tanto tímida, mas há de chegar…

    Saudade do bosquinho da FACED. Quem sabe por onde anda o sabiá? Sabe, Inês, o sábio do Saci sabia que assim seria. Saberiam eles dizer o que fizeram? Talvezsim, talveznão. Hoje só a serra canta estridente e impune. O resto é indiferença…

    Abr.

    Menandro,
    também indignado!

    • osaciperere Says:

      Resposta da Profa. Inês:
      ————————–

      Menamigo,

      A indiferença é pior que um posicionamento favorável ao estabelecido, dizia minha mãe. A sensação que tenho é de pregar no deserto, só vazio. As vozes indignadas estão abafadas, talvezsim talveznão, pelo trabalho que dá lutar. Reclama-se que nos posicionamos sobre o mundo, o país, e, como diz o baiano, nos esquecemos do miudinho. Para a luta específica, localizada no ambiente de trabalho, não podemos esquecer é de que somos trabalhadores, assim sendo, não há outra via senão a unidade na luta. Acho que o Saci se valeria de Mario de Andrade e seu Macunaíma, para buscar a razão do nosso afastamento da luta por nossos direitos, em todos os âmbitos: “ Ara…que preguiça….”

      Vem aí carreira, está em pauta discussão de nossa carga de trabalho, intensificação do trabalho docente. E nós aonde vamos? Já sei: vamos entregar tudo aos representantes docentes nas instâncias decisórias, que são defensores da situação, tendendo pois, a legitimar a intensificação do trabalho docente. Ótimo, está tudo bem, já que professor pode fazer tudo, nas greves de funcionários, faz matrícula, recebe documentos de concurso, coloca notas, faz atas, enfim todo o trabalho dos funcionários. Estes, se desdobram para realizar um acúmulo de funções, por falta de novos concursos, para cobrir a defasagem desde as aposentadorias precoces e com a decisão de limitar o crescimento da educação superior pública. Agora, o discurso é de expansão, continuamos com poucos funcionários e muito substitutos temporários. Mas, está tudo bem, vamos continuar fazendo nosso silêncio imenso à beira do rio Uraricoera, já que a luta não se faz só com heróis. Encerro com Mário de Andrade:

      “-Macunaíma!

      O dorminhoco nem se mexia.

      -Macunaíma! Ôh Macunaíma!

      -Deixa a gente dormir , aruaí…

      -Acorda, herói! É de- dia!

      – Ah…que preguiça!…

      -Pouca saúde e muita saúva,

      Os males do Brasil são!…”

      ”Acabou-se a história e morreu a vitória.”

      Beijo

      MI

  2. osaciperere Says:

    A Profa. Izaura Cruz escreveu na lista “faced-l”:
    ——————————————————

    Olá Inês e demais colegas,

    Penso que essa reflexão e algum posicionamento sobre nossas condições de trabalho são urgentes e concordo que a representação docente precisa pautar essa questão na reunião da congregação. Também tenho feito algumas queixas individuais a professora Celi, sobre nossas condições de trabalho, e, concordo que esse processo não pode ser individual mas sim uma luta coletiva pois estamos todos/as sofrendo com essa situação.

    Aguardo posicionamento da representação docente sobre essa proposta de encaminhar nossas demandas à congregação.

    Abraços,

    Izaura.

  3. aspinola@ufba.br Says:

    Existe na UFBA UM ORGÃO responsavel pela vigilância da Saude dos Trsbalhadores(eX-SERVIDORES) o SMURB, tem lei, portaria, grana etc. Mapa de risco, e o Sindicato- APUB, tem que está nesta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: