– Empossada nova diretoria da FACED/UFBA

Discurso de Posse

Cleverson Suzart

Professora Dora Leal Rosa, Magnífica Reitora da UFBA, Professor Robert Verhine, Pró-Reitor de Ensino de Pós Graduação, Professora Celi Taffarel e Professor Prudente Pereira Neto Diretora e Vice-Diretor que ora encerram seu mandatos, colegas professores, funcionários e estudantes da querida FACED, Comunidade Universitária em Geral, Autoridades Presentes, amigos e amigas que nos alegram estimulam e encorajam com suas presenças.

Licença peço para começar começando por mim. Não se trata de um jogo narcísico, mas do resgate de momentos que explicitam com alguma precisão acontecimentos que me colocaram no papel que hoje me encontro em parceria com a Professora Dinéa Maria Sobral Muniz. Obviamente o exercício de rememorar é sempre um ato de tradução, de reconstituição e nunca revisão exata e infalível, porque ao rememorar a gente adentra em um caleidoscópio com imagens e combinações infinitas. O meu caleidoscópio é constituído de cores, sons, gestos, imagens, palavras, poesias, canções escutadas e compostas, alegrias, tristezas, convivências com mestres, colegas, amigos, familiares, um turbilhão de vivências fazendo aprendizagens, aprendizagens, aprendizagens que lançam sobre o agora, desse exato tempo-instante em que aqui na Sala dos Conselhos da Universidade Federal da Bahia, marcamos a morada de um compromisso histórico como Seres de brevidade, de passagem, do devir, da existência como possibilidades de construção de caminhos múltiplos, diversos e plurais para uma vida plena no sentido próprio do VIVER, CONVIVER, REFAZER, RESPLANDECER…

No ic et nunc (aqui e agora) evocando fatos históricos me aproximo do pensamento agostiniano, ou seja, vejo o passado presente no passado, no presente e no futuro e o futuro sempre presente no passado e no presente. Tempo, tempo, tempo como enfatizou o poeta Caetano Veloso. O tempo ali agora na janela olhando a todos nós e nos ensinando que sua eternidade se preenche de nossas tênues, mais ou menos sábias brevidades.

Fim da década de 80, período sobre o qual diria Raul Seixas “A charrete que perdeu o condutor”. Crises das mais diversas, famigerado capitalismo canibalizando tudo e todos, dilacerando sonhos para todo lado, como os personagens da música “A novidade de Gilberto Gil e Hert Viana”, chego a Mato Grosso, Estado em que me descubro educador e começo o magistério como professor de zona rural, de sala multisseriada, sem sequer ler uma linha sobre educação, sem preparação alguma para o ato da docência. Dois longos anos de aprender de tudo, desde o conteúdo a ensinar até o exercício do olhar para o outro e ver suas potências humanas. Aquele quando distante das formas de viver do nosso universo real e virtual de agora, foi um tempo-instante decisivo para minhas aproximações do que fazer na vida. Assim recapitulando, imagino que minha formação profissional começou naquele menino de 17 anos e sua frágil e irreversível iniciação na carreira docente. Veio daí o desejo de cursar Pedagogia, o que em sequência aconteceu na Faculdade de Pedagogia da Universidade Federal Viçosa, no período de 1993 a 1996, momento de devorar, na medida das possibilidades cognitivas, os clássicos Marx, Max Weber, Foucault, Platão, Rousseau, Paulo Freire, Anísio Teixeira, cantar em festivais e fazer política estudantil. Com isso fui vivendo em plenitude a vida universitária e aprendendo a importância da luta pela autonomia, democracia, dialogia na universidade. Estava sacramentado o caminho: a educação começara a ser a minha principal razão de existir. Meu sonho de uma sociedade mais justa, desde então passava, necessariamente, pelo viés de uma educação revolucionária, promotora de solidariedade, de gente feliz e triste de vez em quando, para produzir samba. Mas nunca a tristeza como destino determinista – ou como determinismo. De Minas retorno para a Bahia e chego a Salvador em busca do mestrado. Pela internet descubro que a FACED/UFBA oferecia uma linha em arte-educação. Ainda me lembro da foto na internet da Faculdade de Educação. Faço contato com o Prof. Sérgio Farias, e a partir daí, novos caminhos se abrem. Em busca de mais aprender, passo a fazer parte do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade, coordenado pelo Prof. Armindo Bião, o GIP-CIT. Ali durante dois anos pude estar mais próximo da arte e ver com toda a clareza o quanto ela está impregnada na Universidade Federal da Bahia, o quanto ela pulsa arte e o quanto a educação e, consequentemente, a vida sem arte não tem arte, não tem vida. De Teatro foi um pulo para a Educação, quando me adentro, na categoria de professor substituto na FACED/UFBA em 1999. Em 2000 inicio o mestrado e passo a conviver com os meus mestres Felippe Serpa, Miguel Bordas, Menandro Ramos, Mary Arapiraca, Dante Galeffi, Dinéa Sobral Muniz (que me honra hoje como Vice-Diretora), Lícia Beltrão, João Batista, Nelson Pretto, Roberto Sidnei, Iracy Picanço, Cipriano Luckesi, Iracy Picanço, César Leiro, Iracy Alves, Gustavo Roque de Almeida entre tantos. Passo a ouvir as histórias da FACED/UFBA, de José Arapiraca, que tanto gostaria de ter conhecido pessoalmente, de Expedito Nogueira Bastos e outros tantos que fizeram história nessa instituição quarentona, de minha idade, e, mais do que eu, tem muita história para contar e muitas outras para serem construídas. No mestrado e no doutorado ampliei a reflexão sobre a educação, desmistifiquei alguns mitos, refiz compreensões e aprofundei a reflexão sobre a necessidade de combater o capitalismo em sua vertente neoliberal, me situei em Salvador a maior população de afrodescendentes do país. Pude aprender com o mestre Felippe Serpa a importância de compreender a diferença na diferença, de ter a diferença como fundante e a partir daí construir uma educação pautada não na verticalidade da igualdade na igualdade, mas na horizontalidade da igualdade na diferença. Aprendi ainda o quanto é importante lutar pela autonomia da universidade, da abertura da universidade para a sociedade como um todo, pela democratização efetiva do conhecimento, pautada na convivência dos diversos conhecimentos dos diversos tempos-espaços lugares. “É preciso abrir as portas da universidade para as diversas ontologias”, assim dizia Felippe. O rio universidade deveria seguir o curso da comuniversidade, a criação dos entre-lugares, dos novos territórios, da fala de um homem de comunidade que diz: “quando faço, faço fazê-lo” ao ser perguntado se a escada por ele construída aguentaria o peso de pessoas que iriam querer conhecer sua neta campeã de judô. Todas aquelas vivências e convivências reafirmaram o meu compromisso com a educação, com a UNIVERSIDADE, com a Faculdade de Educação, com a VIDA!

Em 2006 é quando passo a compor o quadro efetivo da Faculdade de Educação e a reafirmar o compromisso com a universidade pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada. Em 2011, mais precisamente no final do mês de setembro e início de outubro, estimulados por funcionários, professores e estudantes, resolvemos, eu e Profa. Dinéa inscrever a chapa “Vamos precisar de todo mundo” para concorrer a Direção e Vice-Direção da FACED/UFBA. Concorremos e aqui estamos tomando posse, para o quatriênio de 2012 a 2016. Todo o nosso percurso, meu, da Profa. Dinéa e daqueles que estiveram junto conosco compondo a proposta de trabalho é marcado pela vigor da universidade pública gratuita, construída no coletivo. É por isso que em nossa proposta temos como eixo: Autonomia, democracia e dialogia.

Nossa trajetória dentro e fora da Faculdade de Educação tornou-nos convictos da importância da EDUCAÇÃO, das possibilidades da FACED/UFBA no sentido de colaborar com necessárias mudanças no quadro da educação baiana promover. A FACED, juntamente com os demais cursos de licenciaturas da UFBA, promove a formação de profissionais na área de educação. São 22 licenciaturas das quais todo semestre recebemos cerca de 600 estudantes para dialogar sobre educação. Esta casa, por certo, tem um papel de peso na Universidade Federal da Bahia, pois o que está por trás da formação de professores é um projeto de nação, de NAÇÃO BRASILEIRA, que precisa do nosso concurso para que se encaminhe na direção do berço esplêndido e ágora para todos.

Foi com essa clareza que montamos nossa proposta sobre o eixo autonomia, democracia e dialogia. Uma NAÇÃO AUTÔNOMA é DEMOCRÁTICA e DIALOGICA, porque tem como ponto de partida o Toré da diversidade brasileira, dos nossos povos. É com esta compreensão, que reiteramos o nosso compromisso de campanha alinhavado em três macros dimensões: ACADÊMICA, CULTURAL e COMUNIVERSIDADE. Na Dimensão ACADÊMICA trabalharemos para propiciar a continuidade, consolidação e expansão das atividades de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas pela FACED. Buscaremos fortalecer ainda mais nossos cursos de Pedagogia, Ciências Naturais, Educação Física e as 22 licenciaturas que compõem nosso fazer cotidiano.

Nesse sentido, publicamente nos comprometemos a:

Colaborar com a criação do FORUM das Licenciaturas; trabalhar conjuntamente com a Reitoria para resolver o problema da falta de professores e pessoal técnico-administrativo e melhorar a infraestrutura da FACED dos Institutos e Faculdades que abrigam as licenciaturas; buscar mecanismos para ampliar a pesquisa na área de educação e articular a produção do conhecimento com a Educação Básica; aproximar ainda mais das escolas públicas do nosso Estado e do Município de Salvador. Para isso, sem dúvida, estaremos lado a lado com os Programas de Pós-Graduação em Educação e Programa de Pós-Graduação em Difusão do Conhecimento e com os demais Programas de Pós-Graduação das diversas licenciaturas. Na dimensão CULTURAL buscaremos ampliar o Educanal, a Rádio FACED e quiçá criar a nossa TV FACED Digital com programação local desenvolvida pelo coletivo da FACED e da UFBA; inventariar os grupos artísticos e culturais existentes na Faculdade e fortalecer nossos laços artísticos e acadêmicos com os cursos de artes da nossa Universidade; promover o FEST-FACED, o Festival de artes da Faculdade de Educação; criar espaços de diálogos com personalidades artísticas da Bahia e do Brasil e com os grupos afro-descentes e indígenas da nossa terra. Na Dimensão da COMUNIVERSIDADE criar grupos de trabalho para construir conjuntamente com os movimentos sociais e comunidades o planejamento das ações do Fórum Político-Social da FACED; promover ações que proporcionem a interface entre a FACED e comunidades pluriculturais; criar momentos de participação das comunidades da cidade do Salvador e do interior da Bahia para a convivência dos múltiplos saberes-conhecimentos e conhecimentos saberes dos diversos tempo-espaços que circundam a Universidade. Continua viva e atual a proposta levantada na gestão Nelson/Mary de “uma escola sem rumo, ou seja, sem o rumo dogmático do autoritarismo, porque com muitos rumos”. Proposta acrescida da perspectiva antropofágica, pois como afirma Osvald de Andrade “a vida é devoração pura”.

Com esses compromissos anunciados, apresentamos uma breve síntese da nossa proposta, que a partir de hoje retorna à comunidade facediana para ser complementada, e colocada em prática. Sem dúvida, é o concurso do coletivo que transformará intenções em fatos. Quanto a isso não temos dúvidas, nem eu e nem a Professora Dinéa. Sabemos que a colaboração será a atitude de nossa comunidade, a qual, durante toda a campanha, demonstrou que independente de qual chapa fosse a eleita, estaria pronta para “arregaçar as mangas”, pois as pessoas, os grupos humanos pertencentes à FACED têm o sentimento de pertença a este lugar, lugar daqueles que tomam para si tempo-instante histórico e que querem o melhor do viver.

A comunidade da FACED que sonha, vive, e põe em prática esperanças nos ensinou a importância de trabalhar com ela e para ela encontrar os caminhos para cumprir seu papel na história da educação baiana e brasileira. E é por isso que nos colocamos a seu serviço, para dar sequência, reconstruir, construir coletivamente dias de plenitude. A comunidade da Faculdade de Educação é potência em acontecimento o tempo todo e assim continuará a ser, pois foi assim que nos ensinou a ser.

Para finalizar, quero aproveitar o momento para registrar os agradecimentos ao corpo técnico-administrativo pela expressiva votação, reafirmar o reconhecimento da valiosa contribuição que vêm dando a nossa casa, aos professores pelo apoio, aos estudantes fonte de força plena e sempre renovada das escolas e universidades mundo afora. Muito obrigado a minha avó pela força de sempre, a minha esposa pelo companheirismo e amor, a equipe do PROINFANTIL, pela convivência solidária, criativa e criadora de exemplo de excelência profissional. Mais uma vez os agradecimentos aos amigos, parentes e autoridades que se fizeram presentes neste ato de significado pessoal, profissional e institucional.

Concluindo, expressamos, mais uma vez, com mentes e corações abertos: “VAMOS PRECISAR DE TODO MUNDO”.

Muito obrigado!

Arquivo em PDF:
Discurso de Posse – Cleverson Suzart

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[Discurso de Dinéa]

Posse da nova diretoria da Faced – quadriênio 2012 -2016  – em 16.01.2012


1. Penso que não há necessidade do uso, preliminar, dos pronomes de tratamento de praxe. Perdoe- me a Magnífica Reitora Dora Leal Rosa por este meu modo de pensar. Perdoem-me os Senhores Conselheiros presentes, nossa Diretora profa. Celi Taffarel, nosso Vice-Diretor, professor Prudente de Almeida Neto e demais Senhores e as Senhoras.  Caros Colegas, caros estudantes, caros  integrantes do corpo técnico-administrativo da UFBA e, em particular, da Faced.  Meus familiares. Amigos e amigas.  Considero uma prova de amizade vocês estarem aqui!

2. A propósito deste momento, alguém me perguntou se eu ia dizer um poema. Respondi brincando: só se o poema baixar. E o poema “baixou”. Quando pensei em falar nesta sessão, veio espontaneamente, em minha cabeça. O título é Romance LIII ou Das palavras aéreas.  E é de Cecília Meireles. Preparei alguns exemplares impressos para todos acompanharem a leitura.

Há muitos anos atrás, me impressionei com a força da palavra sobre a palavra tratada neste poema.  Em situações de ensino-aprendizagem, trabalhei algumas vezes com ele. Ficou, ou melhor, fica guardado na memória à espera de ser trazido de novo à tona quando a hora chega.  A hora chegou.  A hora é agora, que estamos diante de um momento grave.  E o poema se presta a analogias com situações de gravidade. Para adiantar um pouco dos sentidos possíveis, quero chamar a atenção para o fato de que, como vocês podem ver, a voz poética se dirige às palavras. Fala com elas sobre o seu poder. E faz isso resumindo o seu papel no episódio do enforcamento do mártir da Inconfidência Mineira. Faço uma analogia entre o martírio do herói da inconfidência e o martírio de que está sendo vítima o sujeito que aspira à educação. O mesmo sujeito que, também, aspira à liberdade, à autonomia e à vida de melhor qualidade. O herói da inconfidência Mineira foi condenado e palavras foram as primeiras armas usadas para a sua condenação. Se a lição da história narrada no poema tivesse sido aprendida, o sujeito que a prática da educação toma como de sua competência constituir e defender não mais seria condenado ao martírio, mas ao contrário seria objeto e causa de atenção e cuidados através de palavras e ações que ressaltariam sua importância do ponto de vista social.  Se a lição tivesse sido aprendida, a lição que a história nos quer ensinar e que o poema retoma, a unidade universitária que defende os direitos desse sujeito seria, igualmente, objeto de atenção e de cuidados.  Sobre a gravidade da situação, me bastam, por ora, as palavras da Professora Celi Taffarel que, hoje, transmite o cargo de Diretor ao professor Cleverson Suzart, querido  companheiro a quem  me associo no encargo de dirigir, com vice-diretora, a Faculdade de Educação da UFBA.   Encargo que eu pretendi, inicialmente, recusar, mas que me “procurou” nas palavras de, entre outros colegas, César Leiro, Mary Arapiraca, o próprio Cleverson e, finalmente, e, sobretudo, Menandro Ramos. Nomeio esses  como representantes dos demais colegas que usaram das palavras com o propósito de me convocar para o encargo de ajudar a dirigir a nossa Faculdade.   Neste momento, parabenizo Cleverson pela disposição e pela competência que já demonstra que desenvolverá à frente da FACED.

3. Sobre a gravidade da situação, assim se expressou, no dia 31 de dezembro último, a professora Celi, falando, ainda, na condição de Diretora da FACED-UFBA, de um lugar que, em suas próprias palavras, chamou de “Centro da Tempestade na luta contra o capital.”

O entendimento da professora Celi em relação à gravidade da situação a fez enviar uma mensagem aos docentes, estudantes da graduação, pós-graduação, extensão, técnico-administrativos, trabalhadores terceirizados da limpeza, portaria, segurança, informática, manutenção e à “Comunidade em geral”. Em sua mensagem, a profa. Celi advertiu “tempos difíceis se avizinham”. E mais, para a professora, tal como no seu texto, estamos em “em tempos de barbárie”. E por isso, “tempos em que precisamos romper com as relações humanas de dominação”. “Romper com o que instala em nós uma subjetividade assaltada, fraca, mutilada, indisposta, covarde, egoísta e individualista”. Para a professora, “não teremos saídas, nem para os problemas mais imediatos que cercam a FACED, a UFBA e a Educação Pública brasileira, e muito menos para os problemas que nos alcançarão mais a frente, logo, logo.” Mas, se parecer que essa situação foi motivo de abatimento, devo ressaltar que, ao contrário, a nossa colega Celi Taffarel, disse isso para almejar, com esperança, que todos, entrássemos em 2012 “com os ânimos revolucionários redobrados”.

4. Podemos,  neste momento, perguntar: Que vamos poder fazer diante da grave situação que se avizinha?  Essa é uma questão básica.

Em respeito ao trabalho intensivamente desenvolvido, mas com frutos  insuficientes para seu ânimo e seu desejo, quero acolher a   exortação da professora Celi, para lhe dizer e dizer a todos que, mais do que nunca, precisamos das palavras. Das palavras que animam, que acolhem, que combatem o bom combate.  Não que não precisemos das ações. Precisamos das ações, mas elas são regidas por palavras que falam,  pelas que calam,  pelas que escutam outras palavras, por palavras ditas, oralmente e por escrito, com a competência dos bons políticos e com a precisão certeira e bela dos bons poetas. Precisamos da palavra que inaugura, que instaura novos sentidos e rende bons frutos. Concordamos que as condições de precariedade são grandes e que a situação é grave. Queremos uma universidade forte e uma  educação de qualidade porque acreditamos nesse binômio como condição de libertação de todas as formas de opressão. Acreditamos na educação como condição de autonomia e de   fazer valer a nossa autenticidade quanto à capacidade de dizer o que nos aflige, nos maltrata, nos oprime e  não nos respeita quanto ao direito augusto de viver, como diria Drummond, no poema em que nos deu a sua Receita de Ano Novo.

5. E o que tem o poema de Cecília Meireles a nos dizer em relação ao que nos cabe?

O poema nos diz  da potência das palavras. O texto é uma exortação às palavras e uma advertência em segunda pessoa do plural. Essa forma de tratar de pouco uso entre nós.  Essa pessoa verbal usada pela voz poética para se dirigir às palavras indica um alto grau de respeito que só usamos quando nos dirigimos a quem reconhecemos um tal poder que nos obriga, senão  a proclamar,  bem dizer e exaltar, a pedir ou a rogar.  E, nessa exortação, com  muita reverência, a voz assim diz:

Romance LIII ou Das palavras aéreas

Ai, palavras, ai, palavras,

que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,

sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,

e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,

e quedais, com sorte nova!

Ai, palavras, ai palavras

que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida

principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza

seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,

calúnia, fúria, derrota…

A liberdade das almas,

ai! com letras se elabora…
E dos venenos humanos

sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro

e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,

pelo vosso impulso rodam…


Detrás de grossas paredes,

de leve, quem vos desfolha?
Pareceis de tênue seda,

sem peso de ação nem de hora…
– e estais no bico das penas,
– e estais na tinta que as molha,
– e estais nas mãos dos juízes,
– e sois o ferro que arrocha,
– e sois barco para o exílio,
– e sois Moçambique e Angola!

Ai, palavras, ai, palavras,

íeis pela estrada afora,
erguendo asas muito incertas,

entre verdade e galhofa,
desejos do tempo inquieto,

promessas que o mundo sopra…
Ai, palavras, ai, palavras,

mirai-vos: que sois, agora?

– Acusações, sentinelas,

bacamarte, algema, escolta;
– o olho ardente da perfídia,

a velar, na noite morta;
– a umidade dos presídios,
– a solidão pavorosa;
– duro ferro de perguntas,

com sangue em cada resposta;
– e a sentença que caminha,
– e a esperança que não volta,
– e o coração que vacila,
– e o castigo que galopa…

Ai, palavras, ai palavras

que estranha potência, a vossa!
Perdão podíeis ter sido!
– sois madeira que se corta,

– sois vinte degraus de escada,
– sois um pedaço de corda…
– sois povo pelas janelas,

cortejo, bandeiras, tropa…

Ai, palavras, ai palavras

que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro na aragem…
– sois um homem que se enforca!

Cecília Meireles

Quem atenta para a força que têm as palavras entende porque em nossa campanha dissemos que vamos precisar de todo mundo e porque continuamos a  repetir isso. É porque vamos precisar das palavras. Das que presidem as ações. Estranha potência têm as palavras diz o poema. Estranha porque servem para o bem e para o mal. E  uma vez que não podemos escapar das palavras quanto ao seu mel ou seu veneno, perguntamos: O que fazer? Já sabemos da história narrada no Romanceiro da Inconfidência. História que fica como advertência para a nova Direção da FACED. Desejo que a advertência desses versos sirva para nos salvar dos vinte degraus de escada,  dos tempos difíceis e da barbárie anunciada. Essa é minha oração. Uma oração que dirijo às palavras que estarão nos bicos das penas e nas mãos dos juízes.  Vamos precisar das palavras que são expressão do que vai ao coração de cada um. Vamos precisar de todo mundo! Esse é o nosso melhor refrão! Obrigada a quem puder contribuir. A FACED ganhará muito com isso. A UFBA, certamente, ganhará. É o que desejamos.

Obrigada.

Dinéa Maria Sobral Muniz

Vice-Diretora eleita para o quadriênio

Texto da Posse em PDF – Dinéa Muniz

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2 Respostas to “– Empossada nova diretoria da FACED/UFBA”

  1. Menandro Ramos Says:

    Foi empossada nova diretoria da FACED/UFBA em concorrida solenidade na Sala dos Conselhos, no Palácio da Reitoria da Universidade Federal da Bahia.

    Após o ato oficial, colegas e amigos da nova diretoria participaram da confraternização de boas-vindas no hall do primeiro andar da Faculdade de Educação. Acarajé, abará e outras guloseimas no ponto; vozes, instrumentos afinados e um animado clima de congraçamento.

    Cumprimentamos a direção que deixa e a nova direção que assume.

    Boa sorte, FACED!

  2. Fernanda Says:

    Mena,

    Está comprovada, mais uma vez, sua competência para o jornalismo compromissado.

    Você oferece a recomposição do clima vivido, ontem; o belo discurso de Cleverson, o belo poema de Dinéa, cuja cópia prendi na minha geladeira, para, continuadamente, guardar o que já sabia sobre a força da palavra, mas que é tão lindamente apresentada por Cecília Meireles.

    Fiquei feliz em revê-lo.

    Beijos,

    Fernanda

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