 O que a vitória tem de ruim? – Cláudio Lira

Cláudio Lira (*)
Prof. da FACED/UFBA

As posições apresentadas pela professora Beth demonstram que o debate que se tenta em-preender na UFBA não vai avançar um único milímetro enquanto a disposição real, de fato for de atacar e não de discutir. A professora questiona a crítica ácida do professor Menandro valendo-se da mesma lógica, como se a dizer eu (nós), que fui eleita por 69,6% dos votos posso fazer crítica ácida (com direito a ataques pessoais abaixo da linha da cintura), todos os demais devem resignar-se a aceitar isso. Estranha, lógica que empobrece o debate, desqualifica posições, e tenta estabelecer-se como único discurso competente.

Primeiro, parece desconhecer ou desconsiderar que a tradição política impõe aos sujeitos concepções distintas de mundo e que isto servirá de base para o delineamento de diferentes estratégia e tática (para render homenagem a tradição de lutas dos trabalhadores) em todos os terrenos, mormente o sindical.

Uma certa “esquerda-experiente” quer impor seu modus-operandi quase sem conseguir disfar-çar o viés totalitário encoberto de verniz democrático. A tirania as vezes, e só as vezes, se veste com roupagens democráticas. Não pense professora que estou a lhe chamar de totalitária. A crítica é a lógica do debate e não aos sujeitos da contenda, pelo menos por enquanto.

O que afirmei acima tem se expressado no debate político depois de uma suposta chegada ao poder da esquerda. Suposta, não que desconsidere a importância de termos na presidência um (ex)metalúrgico, sindicalista, nordestino, retirante e etc. e tal. Suposta porque trata-se de composição de ampla aliança em nome da governabilidade – que integra na base do governo setores que nunca foram democráticos. O que dizer de um governo onde 50% ou mais do orçamento está nas mãos do PMDB? – mais ainda, o governo que se reivindica democrático se materializa num estado burguês e isso por si só gera problemas e contradições que necessitam continuar a ser enfrentados. Por isso tenho acordo com Menandro quando diz que sindicato é para lutar.

Na UFBA isto se expressa em diversos momentos. Pegarei dois para o diálogo. O debate sobre o Reuni e a questão sindical/APUB.

Sobre o Reuni uma coisa é dizer que algumas pessoas tem acordo e outro é querer impor que quem não concorda está equivocado e tentar desqualificá-lo. Aqui professora Beth a senhora, que cobra do professor Menandro respeito pela diretoria eleita da APUB, perdeu a chance de dar o exemplo demonstrando mais respeito a posição soberana da FACED. A senhora de-monstra profundo desconhecimento dos projetos em curso nesta unidade para dizer que fica-remos vendo a banda passar. A FACED tem projeto de expansão e vem apresentando em todos os espaços institucionais. Novos cursos, cursos noturnos, formação de professores em serviço, licenciatura do campo (uma das 04 IFES a implementar até agora), proposta de nova unidade para EF, especializações, mestrado em EF apenas para citar alguns. Queremos sim a reestruturação da Universidade, sua democratização e sua expansão mas não por decreto presidencial (isso a ditadura militar também fez), não sem a participação dos sujeitos que darão materialidade ao processo, não sem levar em consideração reivindicações históricas. Aliá esta falsa dicotomia Reuni X universidade da Ditadura apenas empobrece o debate. Entre uma e outra existe ainda a proposto do ANDES construída ao longo de duas décadas de luta (e aqui não vamos confundir nossos desacordos com a Diretoria do ANDES com o patrimônio da categoria construído a ferro e fogo ao longo dos anos) O Reuni desconsidera de uma só pancada o acúmulo histórico do Movimento docente e o acúmulo histórico dos debates sobre formação para absorver um modelo europeu de flexibilização da formação. E, por favor, sem essa de que foi amplamente discutido. Não vão me convencer a trocar 20 anos por aligeirados 2 anos (se tem tudo isso), nem debates em congressos por acordos de gabinete. Respeito a posição dos “reunistas” sem com eles concordar e por isso, luto por um outro modelo de universidade onde, por exemplo, reitor não chame a polícia para retirar estudantes que ocupam a reitoria.

Sobre a APUB e a questão sindical verificamos a mesma lógica. Um sindicato não moderno pelas aproximações com o poder constituído – e no caso da UFBA se confundindo com ele. Consensos manufaturados e entreguismo, professora, não é sinal de modernidade sindical, mas antes a expressão de sua crise. Parece que certos setores confundem ser direção com ser a categoria. A categoria sou eu(será?). E de tanto que frequentam os salões de poder (mais que as assembléias) passam a utilizar o metro do patrão. São necessários para amorte-cer a luta e não para organizá-la. Nisso aliás tenho desacordo com Menandro, não tem nada de novo (neo) neste peleguismo. E posso lhe assegurar professora que já aprendi que a bur-guesia cobra sempre em dobro com uma mão o que tiver dado com a outra. A questão do meu salário aumentou sim (pelo menos em número absoluto), mas a que custo? O mesmo governo (que vocês nunca quiseram enfrentar) passou anos dizendo que não tinha dinheiro para a educação, saúde e etc., que não dava para aumentar o salários dos trabalhadores (inclusive o nosso repondo as perdas histórica), e agora entrega bilhões para socorrer banqueiros? Para salvar especulador bandido tem dinheiro para o povo não? E a diretoria da APUB (eleita e atual) fica em silêncio diante disto? Nenhuma palavra? Professora tenho muitos desacordos com o professor Menandro e sigo dialogando com ele para ver se um dia convenceremos um ao outro, mas decepcionado professora eu estou com todos aqueles que se diziam de luta e agora gastam “saliva” para criticar trabalhador e ficam em silêncio com as inescrupulosas artimanhas dos que estão no poder.

Sobre a eleição… bem sobre a eleição ainda teremos muito tempo para debater. Por hora me reservo ao prazer de lembrar Saramago nos pondo a pensar: O que as vitórias tem de ruim? É que elas não duram para sempre. O que as derrotas tem de bom? É que elas não duram para sempre.

(Publicado em: Apubdebates-l, em 10/12/2008 01:55)

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Nota do Editor:

(*) – O Prof. Cláudio Lira é, atualmente, membro da Congregação da FACED/UFBA

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