– Professores das Ifes ganham menos do que no Governo FHC

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O site Acerto de Contas publicou um artigo de Pierre Lucena, que é Doutor em Administração/Finanças pela PUC-Rio e Professor Adjunto de Finanças do Departamento de Ciências Administrativas da Universidade Federal de Pernambuco.

Vale a pena conferi-lo:

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professor-calma-calma

No ano passado, em meio à discussão sobre aumento salarial, fiz um estudo para apresentar a real situação do salário dos professores da Universidades Federais, e comparei ao que ganhava em 1998, durante o Governo FHC. O ano de 1998 foi escolhido porque é onde o caderno sobre salário dos servidores federais começou a ser divulgado.

Comparei também com outras carreiras semelhantes, como a de pesquisador do IPEA e do Ministério de Ciência e Tecnologia.

A conclusão é que hoje ganhamos menos que durante o Governo FHC.

Veja que o salário que falamos aqui é o de um professor que já possui doutorado, que é o máximo que se consegue em titulação acadêmica. Nem comparei aqui com os bacharéis que são da área de auditoria e fiscalização, porque aí seria até covardia.

Sei que muitos estudantes são leitores do Acerto de Contas, e a inevitável pergunta sobre greve irá aparecer. Por enquanto não tem nada decidido, muito menos resolvido. O sindicato nacional fez apenas um indicativo para o dia 17 de maio, mas pela experiência anterior, a chance de uma greve acontecer de uma hora para outra é zero. Ainda seria discutido em cada universidade, e na UFPE (onde leciono), as decisões são ainda mais demoradas em função da desmobilização da universidade.

Então por enquanto não adianta pânico, pois não há definição alguma.

Atualizei o trabalho para o ano de 2012, já colocando a inflação do período, corrigindo todos os dados. O trabalho segue abaixo.

Salários dos Professores das Universidades Federais já estão piores do que no Governo FHC (atualizado)

Por Pierre Lucena

1 – Introdução

Durante o ano de 2011, as representações docentes se reuniram com o Governo Dilma com o objetivo de reorganizar a carreira, conforme foi pactuado no segundo Governo Lula. A ideia geral era de equilibrar a carreira docente com outras semelhantes no Governo Federal, a exemplo da carreira de pesquisador do Ministério da Ciência e Tecnologia e da carreira de pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Dentro do acordo, ficou estabelecido que até março de 2012 a nova carreira seria decidida e emergencialmente ficou acordado um aumento de 4%, a ser pago em março. Nos dois pontos o Governo não honrou o compromisso. Nem a carreira foi discutida e decidida, muito menos o aumento emergencial de 4% foi implantado.

Este texto se propõe a comparar os salários destas carreiras, desde o ano de 1998 até 2012, dentro de sua principal referência, que é o salário inicial de um pesquisador/professor com doutorado.

2 – Metodologia

Para este texto foram utilizados dados obtidos junto ao Relatório intitulado “Tabela de Remuneração dos Servidores Públicos Federais”, disponibilizado pelo Governo Federal em sua página do servidor[2].

Foram comparados dados de três carreiras distintas:

· Professor Adjunto 1 com Doutorado em Dedicação Exclusiva, das Universidades Federais, estando este na ativa e recebendo a Gratificação de Estímulo a Docência (GED);

· Pesquisador do IPEA;

· Pesquisador do Ministério de Ciência e Tecnologia, com doutorado.

Todas as carreiras tiveram como base o salário inicial com as gratificações a que os servidores possuem direito, como a GED, durante o Governo Fernando Henrique. Esta gratificação foi incorporada posteriormente.

Para o cálculo da inflação foi utilizado o Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA), do IBGE, obtido junto ao banco de dados do IPEA[3].

O ano de 1998 foi escolhido como base pelo fato de ser o primeiro ano com o lançamento do caderno com os salários do Governo Federal.

3 – Resultados

O que se vê no gráfico 1, com o salário nominal das três carreiras, é certa equivalência, estando inicialmente o pesquisador da carreira de Ciência e Tecnologia com salário abaixo das demais. O professor adjunto era o que percebia a maior remuneração em 1998 (R$ 3.388,31), quando calculado com a GED cheia (140 pontos).

Gráfico 1 – Salário nominal das carreiras, desde 1998.clip_image002 Fonte: organizado pelo autor, com dados do Governo Federal

Quando observada a evolução salarial das carreiras, verifica-se que os docentes das universidades federais tiveram seus salários reajustados bem abaixo das demais. O pesquisador do IPEA recebe em 2012, de salário inicial, aproximadamente R$ 13 mil, enquanto os docentes com doutorado pouco mais de R$ 7,3 mil. Os pesquisadores do MCT recebem pouco mais de R$ 10,3 mil. Quando calculado o percentual de distorção, verifica-se que para equiparar-se aos salários do MCT, seria preciso um reajuste no salário dos docentes por volta de 41,1%, e para equiparar-se aos do IPEA, seria necessário um reajuste de 76,7%.

Esta distorção se mostra ainda mais evidente quando descontada a inflação pelo IPCA, com base em 1998.

Gráfico 2 – Salário real das carreiras, descontada a inflação, desde 1998. clip_image004 Fonte: organizado pelo autor, com dados do Governo Federal e do IPEA.

Verifica-se que houve perda salarial dos professores quando descontada a inflação do período. O salário real do professor em 2012 é 8,7% inferior ao primeiro ano da série (1998). As outras duas carreiras tiveram ganhos reais dentro deste período.

Quando colocado em Base 100, descontada a inflação do período, a distorção fica ainda mais evidente, como pode ser verificado no Gráfico 3.

Gráfico 3 – Salário real das carreiras com Base 100, descontada a inflação desde 1998. clip_image006 Fonte: organizado pelo autor, com dados do Governo Federal e do IPEA.

Dada a proposta do Governo de reajuste de 4% em 2012, a perda em relação à 1998 é significativa. O Professor Adjunto 1 recebe hoje aproximadamente 91% do que recebia em 1998, já descontada a inflação pelo IPCA, conforme pode ser visto no Gráfico 4.

É possível verificar certa estabilidade nos vencimentos dos professores, desde o ano de 1998. Não há ganho significativo do salário em nenhum momento, apenas a reposição da inflação, seja no Governo FHC, seja no Governo Lula.

Gráfico 4 –Salário real do Professor Adjunto 1, com Base 100, descontada a inflação desde 1998. clip_image008 Fonte: organizado pelo autor, com dados do Governo Federal e do IPEA.

4 – Conclusão

Os resultados mostraram que a realidade hoje é ainda pior do que em 1998, quando foi concedida a GED, para aqueles que a recebiam em sua totalidade, quando alcançado os 140 pontos.

Com um salário 8,7% inferior ao recebido em 1998, durante o Governo FHC, apenas a inclusão da classe de Professor Associado representa algum ganho.

O certo é que o salário inicial de um Professor Doutor hoje é menor do que em 1998.

5 – Referências

IPEADATA – www.ipeadata.gov.br

Dados do Servidor – www.servidor.gov.br


Pierre Lucena é Doutor em Administração/Finanças pela PUC-Rio e Professor Adjunto de Finanças do Departamento de Ciências Administrativas da Universidade Federal de Pernambuco.

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Uma resposta to “– Professores das Ifes ganham menos do que no Governo FHC”

  1. osaciperere Says:

    Circulou na “debates-l” da UFBA:

    ———————————–

    Car@s,

    São duas ou quase três horas da madruga. Já estou caindo de sono, mas vou reunir meu último gás para redigir-lhes esta mensagem.

    Não vou exagerar, não! Tenho uma grande alegria e, (por que não dizer?) orgulho de pertencer a essa família brigona que se transformou a Universidade Federal da Bahia.

    Segundo o Saci, a UFBA está lembrando essas casas que a gente vê em filmes com irmãos mais velhos à mesa disputando pela coxa suculenta da galinha ao molho pardo…

    Bobagens do meu amigo arreliento à parte, eu sempre me surpreendo com a UFBA.

    Nós pensamos que a conhecemos, mas ela é sempre maior do que conseguimos imaginá-la. Nela se encontra de tudo. Não nego que seja um celeiro de competências, o desafio maior, entretanto, é canalizar essa energia boa em favor do bem comum.

    Como todo lugar em que habita um vivente com a face humana, tem suas virtudes e suas misérias. Creio que estas últimas sejam bem menores do que suas virtudes. Muito menores! Mas não estou interessado nelas, não!

    O que quero é falar sobres os ingênuos nela encontrados a torto e a direito (ou direita disfarçada de esquerda!). O que pretendo é mencionar sobre aqueles que, embora sejam excelentes no que fazem, não enxergam um palmo sequer além dos seus narizes.

    É para esses que me dirijo neste momento, mesmo temendo que as suas posturas dogmáticas sejam irreversíveis. É para esses que recomendo a leitura de um texto que constata, através de dados do próprio Governo Federal, que nos oito anos de FHC os professores das Ifes ganhavam mais do que agora, no governo do dito Partido dos Trabalhadores e “pôneis benditos coligados”, segundo se expressa piedosamente o meu amigo de gorro vermelho e pito.

    Assim, bravos colegas cândios e de muito boa bontade para com o governo bonzinho das propagandas, quando sentirem que não há mais ninguém por perto, quando sentirem que os filhos pequenos e netos já pegaram no sono, cliquem no endereço abaixo [na verdade, refiro-me ao texto acima] e se esforcem para concluir a leitura do mesmo.

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