– Vozes da base – a docência em risco

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Denise Lemos

“Acabo de declinar um convite de um colega,  que precisa  de um parecerista para examinar seu processo de progressão acadêmica. Algo extremamente importante!  Entretanto tive que dizer: não tenho agenda para os próximos 60 dias,  inclusive, porque todas as quintas pela manhã tenho que ir ao  psiquiatra e todas as sextas ao terapeuta!” . Algo bastante  sugestivo. Primeiro, fica-se louco, depois, somatiza-se um câncer.  Desculpem-me pelo teor amargo” ( Depoimento de um docente da UFBA, 2012)

Como chegamos até aqui? Nem sempre foi assim! Três  processos importantes foram implementados dentro das Universidades, principalmente a partir da década de 90, envolvendo a maioria dos docentes de forma quase que inconsciente, automática ou mesmo quando consciente,  negada e justificada!

O primeiro deles refere-se ao processo de submissão a bancas examinadoras sucessivas: mestrado, doutorado, pós-doutorado (vários), CNPq,PIBIC,PIBIEX,PROEXT e outros editais. Trata-se de uma interminável caminhada, permeada por inúmeros formulários ( uma “ tortura” na visão de um professor), que vai aos poucos transformando o docente num burocrata, e a atividade docente num “ escritório de despachantes” (BOTOMÉ,2004).

O que é surpreendente é constatar que o professor, após submeter-se a essas verdadeiras olimpíadas acadêmicas, não recebe o verdadeiro troféu, o de ser agraciado com o status de pesquisador, com  autonomia para gerir um orçamento compatível com suas necessidades. Não, ele nunca está pronto, tem sempre que concorrer! Inclusive por recursos cada vez menores disponibilizados pelo MEC.

O outro processo  conjugado a esse é o da perda da autonomia, que atinge a instituição universitária   tanto quanto os professores que cada vez mais ficam a mercê da avaliação dos organismos financiadores( Capes,CNPq e fundações diversas), das bolsas de estudo, projetos de pesquisa e extensão, participação em eventos etc. Trata-se de um processo de   competição administrada, onde  ”…a competição como o motor do desempenho coletivo, convém, de certo modo, que todos sejam mal aquinhoados, para sentirem, na devida medida, a importância da disputa(MANCEBO e FRANCO, 2003, p.194).

Porque? Tudo indica que existe uma suposição de que nós professores vivemos uma realidade que talvez pudesse ser nominada como “ ociosa” , ou de “ baixa produtividade” ou mesmo de “negligência”, baseada em fatos como atrasos e faltas cometidas por alguns e generalizada para o conjunto dos docentes. É possível que essa visão esteja atravessada pelo pressuposto de que os docentes  das Universidades Federais estão sujeitos a um excesso de liberdade e que precisam, em função disso, ser  hierarquizados, controlados e monitorados.

A dificuldade que existe em questionar tal percepção é que ela é compartilhada por uma parcela dos professores que possuem o status ou auto-imagem de “ produtivos” no afã de serem reconhecidos internamente aos seus departamentos como tal e separados, destacados daqueles considerados “ improdutivos”.

Com todo esse aparato competitivo e controlador arquitetado para deixar o professor num ritmo acelerado, a atividade docente vai se tornando uma atividade marginal,nos termos de Zabalza (2004). Por outro lado, na pesquisa realizada na Universidade Federal da Bahia, intitulada “ Alienação no trabalho docente: o professor no centro da contradição” a maioria dos professores relatou ter satisfação na atividade docente, mas reconheceu que era mais lucrativo dedicar o tempo a pesquisa e a publicação (LEMOS,2007). A consequência dessa estratégia é que o aluno, principalmente o de graduação que se vê menosprezado, em segundo plano, tem reagido pressionando de maneira direta ou indireta a instituição universitária, através de denúncias individuais, abaixo assinados e notas na internet.

E assim vai sendo construído o cotidiano do trabalho do professor, caracterizado por uma sobrecarga de tarefas, que o colocam muitas vezes em contradição com o seu papel, pois, por um lado, tem que atender as múltiplas demandas dos seus financiadores, e, por outro, as demandas crescentes dos seus alunos. Não há tempo, até o final de semana já está mapeado com as tarefas acadêmicas.

 Esse processo vai deixando os docentes  Isolados em suas casas, mas na companhia do seu notebook, ou então, abrigados em pequenos grupos (aprovados pelo CNPq)  que proporcionam mais chances no processo competitivo, mas também,  podem ser mais restritivos em termos dos temas de pesquisa.

A precarização da organização do trabalho docente tem gerado em última instância um processo de  adoecimento físico e psíquico. Assim, o lugar que deveria ser da emancipação e da cidadania, passa a ser dominado por políticas e práticas que vão distanciando a Universidade, professores e alunos dos seus propósitos essenciais.

 Escreveu um professor da Universidade Federal de Sergipe:

“preciso dormir mas tenho que trabalhar! Preciso trabalhar e produzir mais papeis(textos, livros, artigos, relatórios).  Fico triste no final. A maior parte de toda a minha produção permanece intocável e, na maioria das vezes, enfeitando estantes e gavetas. Poucos realmente leem aquilo que é fruto de uma vida inteira de total entrega ao sistema.  Ganhamos mais trabalho e temos menos vida” .

Como dissemos no início, nem sempre foi assim, os orçamentos das Universidades Federais já contemplaram no passado a pós-graduação. A Capes e o CNPq eram organismos originalmente de apoio a atividade acadêmica e não de controle e financiamento. Projetos institucionais internos às Universidades já foram, no passado, construídos democraticamente, com a participação de todos, de baixo para cima, preservando a função crítica, criativa e emancipatória.  

É provável que estejamos vivendo um momento histórico onde as condições de trabalho do docente, definidas extra e intra institucionalmente entraram em contradição com o seu aparato bio-psico-social, que parece disparar o alarme do limite do corpo humano – o adoecimento. Esta situação indica que é preciso lutar pela inversão da equação: “Mais vida e menos trabalho”, para que, por sua vez, os docentes possam engendrar uma ambiência viva de aprendizagem dentro da Universidade.

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Este texto  foi escrito a pedido de alguns participantes do XLIII Encontro da Regional Nordeste III,  ANDES-SN, realizado na FACED/UFBA, nos dias 30 e 31 de março de 2012, a partir da exposição da Profa. Denise Lemos (UFBA) numa das mesas do evento, cujo tema abordado foi “O Trabalho Docente e a organização dos trabalhadores em tempos de neoliberalismo“. Veja mais sobre sobre o XLIII Encontro (AQUI).

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Veja a apresentação eletrônica da Profa. Denise Lemos sobre O Trabalho Docente e a Organização dos Trabalhadores em Tempo de Neoliberalismo

Trabalho Docente e Org

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Uma resposta to “– Vozes da base – a docência em risco”

  1. ANTONIO DE S. BATISTA Says:

    Srs. Professores
    Conceituar ideologia é ainda necessário, quando se quer analisar e compreender o sentido real do que se encontra por trás do que a ideologia dominante quer perpassar.
    O que temos é que o professor está aprisionado na relação, a ponto de muitas vezes, não perceber que foi transformado na própria mercadoria.

    Profº Batista
    IBIOUFBA

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