 O Triunfo da Vontade

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Prezada Prof. Marília (em especial), mas dialogando também com os Prezados Professores José Roque e Francisco Santana.

 

Tive muita simpatia pelos seus textos, pois pareceram-me honestos e preocupados em não desqualificar quem quer que seja. Não tenho nenhuma dificuldade em reconhecer neles muita sinceridade, bem como nos do Prof. Roque. O mesmo vale para os do Prof. Francisco Santana, embora este em posição antagônica a de ambos os colegas. Assim, como a prezada professora, também vejo o mesmo ânimo nos locais que a senhora citou: nas “ruas, nas praças, nas Ceasas, na Lapa, nas feiras: de São Joaquim, de sete portas, do japão, do rolo”. O presidente tem sido aclamado, nesses locais, como um grande administrador. De um modo geral, é assim mesmo que vem sendo considerado.

Também na época em que o carlismo era hegemônico na Bahia, vi, e não foram poucas as vezes, as manifestações sinceras de pessoas simples, de gente de poucas posses, enfim, de trabalhadores baianos, que davam crédito ao slogan/jingle habilmente composto: “A Bahia vai bem/Como vai meu bem-querer/A Bahia vai bem/Obrigado a você”. Se não me falha a memória, a letra é mais ou menos assim.

E isso não faz tanto tempo, ou melhor, parece que foi ontem. Essas e outras reminiscências fazem, agora, parte da nossa memória. Lembro-me ainda, por exemplo, da manifestação de gratidão do velho político baiano, pouco tempo antes de falecer, ao receber, no hospital, a visita atenciosa do presidente Lula…

O que era dito, alguns anos antes, no meio universitário (pelo menos por alguns identificados, na época, como sendo “de esquerda”), sobre as pessoas que eram receptivas ao político ACM? A senhora, certamente, ainda se lembra… Os xingamentos, rótulos e alcunhas não eram pouco malvados. Sendo ele merecedor ou não. Pessoalmente, acho que fez jus a todos eles. Inclusive ao de “Toninho Ternura”. Dizem que seus netos o veneravam… Tão carinhoso quanto aquele “Lulinha Paz e Amor”!…

Com todas as mazelas que atraiu para si, o carlismo contou com o apoio e o reconhecimento não só de pessoas ditas “do povo”, mas de artistas, escritores, intelectuais etc.

Quando da morte do líder (ou chefe) político, o Jornal A Tarde ouviu algumas dessas vozes. Trago aqui a fala de duas delas bastante conhecidas:

“Vovô do Ilê, fundador do bloco Ilê Aiyê, lembrou de obras de ACM. ‘Como militante negro e artista, eu lamento a morte de um homem como ACM, que sempre foi um grande incentivador da arte, com a reinauguração do Teatro Castro Alves, a recuperação do Pelourinho e a construção do Centro de Convenções, que também foi no seu governo’. E rogou aos herdeiros políticos do senador que não esqueçam o ‘amor’ de ACM pela Bahia. ‘Estamos de luto, porque ele era um incentivador da cultura e da música. É uma perda, e fica uma lacuna muito difícil de ser preenchida. Espero que seus seguidores tenham a mesma sensibilidade e carinho que ele teve com a Bahia’, disse.”

“Das amizades que tinha, uma em especial Antonio Carlos Magalhães fez questão de cultivar. Todos os anos, gostava de posar ao lado de Dona Canô Veloso no dia do aniversário dela. ‘Nossa amizade não tinha interesse político. Peço a Nossa Senhora que o acompanhe aonde quer que ele vá. Era um homem bom, que só pensava nos outros. Tudo o que ele queria era fazer algo por minha terra. Estou muito sentida’, disse dona Canô. Ela e ACM se encontraram pessoalmente pela última vez em setembro do ano passado, em Santo Amaro da Purificação.”

As duas citações, e outras, podem ser lidas no endereço:

 http://www.atarde.com.br/politica/noticia.jsf?id=771248

Embora fazendo oposição ao carlismo, professora, em nenhum momento pensamos em levar seus simpatizantes ao patíbulo ou à fogueira, ainda que tecendo duras críticas a esses simpatizantes. Como pode observar, quem ocupa cargos públicos, ou se torna pessoa pública, é sempre alvo de críticas e pode ser vítima até de exageros por parte de alguns. Numa democracia, burguesa ou não, isso é perfeitamente previsto. O perigo é quando essas vozes dissonantes passam a ser patrulhadas. O meio universitário, felizmente, sempre se insurgiu contra essas práticas. Oxalá continue assim.

O que é preocupante, agora, é o “ruidoso” silêncio dos intelectuais aqui e alhures. Como sempre, há as honrosas exceções, claro! Parece que exercer a crítica, de repente, ficou démodé. O que está acontecendo? Será que a Universidade entrou na Era do Produtivismo, e não tem mais tempo de refletir sobre o comportamento cego das massas (diferente de povo) e quejandos?

A prezada colega acredita na admiração espontânea do povo, em relação ao presidente Lula? Não admite, nem um pouquinho, a interferência de um marketing astuto e vigoroso, capaz, até, de deixar confusos, os que, por dever de ofício, deveriam exercitar o pensamento divergente com maior frequência? O que dizer, então, de quem tem como fonte de informação apenas os telejornais carimbados? Ou a senhora acredita que algumas emissoras são isentas, e não fazem um jogo duplo?

Recentemente, a mídia noticiou o espalhafatoso lançamento do filme “Lula, o filho do Brasil”, dirigido por mais um Barreto. O professor Francisco Santana, certamente, – e com muita razão – vai mencionar que algo similar, mudando o que tem de ser mudado, já ocorreu na primeira metade da década de 1930, na Alemanha. Ou seja, vai referir-se ao célebre filme “Triunfo da Vontade”, dirigido e montado por Leni Riefenstahl, sobre a lealdade do povo alemão ao Füher. Como se vê, o povo também pode se enganar…

Anos depois dos horrores praticados pelos nazistas, a cineasta se desculpou dizendo que não curtia a política. Que a praia dela era a arte. Daqui a alguns anos, talvez, o diretor Fábio Barreto também se desculpe, dizendo que o negócio dele era grana, muita grana. Aliás, como foi amplamente divulgado, essa não foi pouca. Algo em torno de 16 milhões, recorde de captação de recursos de um filme nacional.

Alguns apoiadores do governo Lula se vangloriam de ser um filme bancado exclusivamente por empresas privadas; sem uma moeda sequer dos recursos estatais. Só não dizem, porém, que a maioria dessas empresas que bancaram a película têm vultosos negócios com o governo. Só para citar algumas delas: AmBev, Camargo Corrêa, EBX, Embraer, GDF Suez, Nestlé, OAS, Odebrecht, Oi, Hyundai e Volkswagen.  A pergunta que pessoas mais críticas fazem, ao saber das contribuições desses times pesos pesados, é: alguém teria coragem de não colaborar? Que implicações futuras poderia ter uma recusa de contribuição?

Já se afirma que o referido filme terá o maior lançamento da história do cinema brasileiro, pois a ideia dos responsáveis pelo empreendimento é abastecer o circuito comercial com 500 cópias. Logo depois, no dia 1º de maio, Dia do Trabalho, data emblemática, será lançado o DVD do filme. Para completar o esquema, a Rede Globo também o exibirá para todo o país, em formato de minissérie.

Como a senhora pode ver, professora, o projeto de manutenção de poder em favor do atual presidente e do seu partido, além dos seus coligados, é ambicioso (talvez dure uns mil anos! como queriam para o III Reich) e tem a sustentação do alto empresariado, assim como das massas devidamente “enformadas” pelas mídias (agora) empresariais, que, em troca, se locupletam vorazmente. Há sessenta anos, na pátria de Goethe, tal iniciativa foi do Estado Totalitário. Portanto, se a História se repetir, mais uma vez, dirá o Prof. Santana, ela se repetirá na configuração de farsa.

Para completar, professora, como se não bastasse, até as universidades (ou parte delas) e seus intelectuais estão juntando suas vozes em unissonante louvação. Já faz algum tempo que tento identificar, nessa movimentação toda, quem mais se aparenta com o filósofo Heidegger, ou melhor, mais exatamente com o reitor da Universidade de Freiburg,  da década de 1930, para fugir dele às léguas, já que o cenário, por coincidência ou delírio da minha parte, vem se tornado cada vez mais similar a um outro tristemente conhecido.

Por precaução, alguns amigos já elaboraram uma lista de países que poderiam acolhê-los, numa situação de emergência. Pessoalmente, acho isso um exagero, pois o contexto em que vivemos é outro. Felizmente. Além do mais, os diamantes, que são diamantes, não são eternos, quanto mais…

Para finalizar, só uma perguntinha, que às vezes faço a mim mesmo: sinceramente, professora, não lhe ocorre a sensação de já ter visto ou ouvido falar nesse filme, ou, como dizem os franceses, não lhe passa na mente uma espécie de déjà vu? Mesmo que seja por um átimo de segundo?

Diante do seu entusiasmo, perante o desempenho do presidente Lula, confesso-lhe que também esperei que ele um dia pudesse mudar o Brasil, até perceber que seu “DNA” era igualzinho ao do FHC. Sem tirar nem por. Em Carrara esculpido (para não ser acusado de desrespeitoso com o Presidente da República)!

Apesar de ter abusado de sua atenção, prezada professora, com este longo texto, caso tenha ainda um pouquinho de paciência, pediria à colega que lesse mais outro texto que escrevi, há mais de cinco anos, intitulado “Nenhum voto deve ser incondicional”, no endereço:

http://www.rascunhodigital.faced.ufba.br/ver.php?idtexto=208

Nele, a colega ficará sabendo que, de boa-fé, como a da senhora no presente momento, também quebrei lanças para o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, o qual nunca considerei ignorante. Ao contrário. Eu via nos seus deslizes contra as normas da língua (dita) culta, as marcas perversas de uma sociedade hipócrita e injusta, pois cobrava dele, e de muitos outros, o que não era capaz de prover, pela via da educação de qualidade (para todos!). De lá para cá, as decepções se avolumaram e muitos outros textos foram escritos. Não de forma mercenária, com o propósito de auferir qualquer vantagem, mas antes correndo o risco de um isolamento social. Talvez, sem querer fazer a cabeça de quem que quem seja, mas antes como um mero desabafo.

Também sou interiorano, e tenho fortes vínculos com os falares da minha região, ainda hoje, décadas após de lá ter-me apartado…

Muito atenciosamente,

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

___________________

De: marilia Fontoura [mailto:marilia.fontoura@gmail.com]
Enviada em: sábado, 21 de novembro de 2009 09:27
Para: joromota@ufba.br
Cc: Francisco José Duarte de Santana; debates-l@listas.ufba.br; menandro@ufba.br; colarquivo-l@listas.ufba.br; apub.debates; Rubens@campinhos.ufba.br
Assunto: Re: [Debates-l] [Apubdebates-l] RES: Por que Luiz Inácio desagrada Caetano Veloso?, por Marta Peres

Prezados Colegas da Ufba,

Tenho lido, apesar de não ter ou estar me colocando nesse dialogo computadorizado mas, gostei e concordo com grande parte do que o prof. Roque escreveu, a vida lá fora, para além do mundo academico, é bem diferente, e se os opositores do governo Lula priorizam ou insistem nessa política computadorizada e não levam essa discussão para fora dos muros da universidade pondo a política anti-governo Lula nas ruas, nas praças, nas Ceasas, na Lapa, nas feiras: de São Joaquim, de sete portas, do japão, do rolo etc. em minha opinião é talvez porque nao encontrariam apoio ou interlocutores, porque o povo aprova este governo, ama Lula porque se identificam com ele com sua linguagem, com seu jeitão de nordestino-paulista, com suas metaforas, Lula nao é groseiro, Lula é o que sua trajetória de vida o permitiu, se discordamos de sua politica, dos caminhos ou alianças que adotou é outra história. Lula não poderia ter em seus dircursos e falas a “profundidade” teorica ou o rebuscamento gramatical dos intelectuais letrados da academia ou de alguns pretensos intelectuais do meio artitisco, porque sua vida sua trajetória e constituiçao como sujeito social e politico foi outra. Independente de qualquer aspecto nao podemos negar que a frente de seu governo, tem conseguido mudar e avançar em muitos aspectos, e a grande maioria da populaçao ve, sente e reconhece, ainda que parte da academia discorde ou pense diferente, a grande parcela da populaçao democraticamente, (e apesar das criticas ao governo), reelegeu Lula, aprova seu governo e vai esperar 2014 pra reconduzir Lula a Presidencia desse país. Gostemos ou não esta é uma grande possibilidade. E será muito natural vermos o povo eleger Dilma, porque parecem entender que é uma passagem para a volta de Lula quatro anos depois. Isto foi o que eu ouvi num ponto de onibus de um casal que argumentavam que não conheciam Dilma mas votariam pra garantir Lula de volta depois dela. Falemos do Governo apontemos suas falhas, saiamos da politica computadorizada e nos aproximemos da vida real, dos excluidos da era do computador mas vamos respeitar o cidadão e presidente Lula. Caetano foi cruel e preconceituoso sim …

att

Marilia

2009/11/19 <joromota@ufba.br>

Mais uma vez vou chamá-lo e Prezado Prof. Francisco:

Agora, o Sr. tem dois desafetos. O Sr. Lula e o Sr. José Roque.

Eu não destilo ódio e nem crítica contra o Sr. Caetano e nem contra o
Sr. Francisco Santana.

Continuo achando que o Sr. Caetano foi deselegante e preconceituoso.
Lula não tem o poder literário, gramatical e seja mais o que, que
detém o Sr. Caetano. Mas, o satamarense poderia, usar a educação que
lhe é peculiar e dizer: votarei em Marina, pois acho Lula um péssimo
presidente, traiu os trabalhadores, é demagogo, usa a máquina (bolsa
disso, bolsa daquilo, etc). Pelo contrário, ele foi mentiroso:
analfabeto (NÃO É), grosseiro (NÃO É) ou será que Caetano tem um
grosseirômetro para avaliar o grau de grosseria de cada cidadão;
cafona (NÃO É), gosto não se discute. Provavelmente, Patrícia Pilar
tenha causado mal-estar entre os globais, ao comandar o último ato em
vida do baiano Eurípedes Waldick Soriano, realizando a gravação de um
DVD, que eu comprei e não aceito, por isto, ser chamado de CAFONA.
QUANDO FALEI QUE SAIREI DA DISCUSSÃO é por entender que as teses já
estão esgotadas. O Sr. estará de um lado e, eu, estarei do outro. Para
mim é perder tempo, ficar atacando qualquer presidente através da
internet: não fede e nem cheira, perde-se tempo.
Quanto ao não recebimento, via apub, justifica-se, pois naquela lista
não estou escrito. Peço respeito, não nasci para ser herói, o Sr.não
tem direito de cobra-me nada: fui militante contra todas as formas de
injustiça desde o ginásio em Araci, passando pelo Central e Faculdade
de Farmácia: Sou da mesma geração de Javier Alfaia, Alice Portugal,
Lídice da Mata; Luis Caetano e tantos outros. Lembra do antigo bavi:
VIRAÇÃO e SANGUE NOVO. Não fiz opção pela carreira política
partidária. Estive em todos os momentos da APUB e dela afastei-me na
atual década. Estou na “clandestinidade” e apartidário. Mas sempre
serei contra as injustiça e o SR. CAETANO FOI INJUSTO, CRUEL, mesmo
que o Sr. queira convencer-me que ele foi angelical.
Menandro, um abraço, estou participando do seminário BAHIATEC (UMA
PROMOÇÃO DO GOVERNO DO PT, DE WAGNER – não tenho culpa ou não deveria ter comparecido — INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS PARA O SEMI-ÁRIDO) e compromissos agendados não permitem a minha presença, obrigado pelo convite.
Sr. Francisco chega dessa linguagem pesada, esquece esses rótulos de
nazistas, fascistas, comunistas, são termos arcáicos, medievais ou o
Sr. quer assemelhar-se ao Prof. João Augusto Lima Rocha, no episódio
dos estudantes, que teve a infelicidade de atribuir o adjetivo
fascista aos estudante que foram protestar na reunião do CONSUNI. Eu
não tenho que provar nada, sou um cidadão no sentido mais amplo da
palavra. Sempre aconselho aos opositores que deixem a política
computadorizada (invenção da atual apub) e ponha a política
anti-governo Lula nas ruas, nas praças, nas Ceasas, na Lapa, nas
feiras: de São Joaquim, de sete portas, do japão, do rolo. Sr.
Francisco Santana estou retirando-me da discussão por decisão própria,
não obrigue-me a continuar. Repito: já estou fora. Não estou fugindo.
A vida é dinâmica, esse episódio pertence ao passado. Chega de
Caetano. Por o Sr. e Caetano não defenderam a aluna da UNIBAN?
Atenciosamente,
Prof. Dr. José Roque Mota Carvalho

—————————————————————-
Universidade Federal da Bahia – http://www.portal.ufba.br

_______________________________________________
Debates-l mailing list
Debates-l@listas.ufba.br
http://www.listas.ufba.br/mailman/listinfo/debates-l


Marília Fontoura

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Uma resposta to “ O Triunfo da Vontade”

  1. Francisco Santana Says:

    O jingle, A BAHIA VAI BEM…., foi composto por Domingos Leonelli

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