Foi-se o poeta Álvaro Cardoso

Em PDF:

Um ninho de beija-flores

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Car@os,

Foi-se o poeta. Discreta e timidamente como viveu. Álvaro não mais tocará a lira das Musas.

Eu o comparava com Drummond. Ele corava de pejo, e pedia-me para não blasfemar. Eu insistia que estava sendo sincero, e ele mudava de assunto. Agora que não me ouve, confirmo mais uma vez: Álvaro tinha a verve drummondiana. Um era de Itabira, Minas; o outro, de Abaíra, Bahia; um era burocrata, o outro, também; um, poeta consagrado no universo dos falantes da última flor do Lácio; o outro, quase ânonimo, mas admirado e querido pelos seus amigos.

Álvaro era um escultor de palavras. Usava-as delicada e laboriosamente como as mãos das bordadeiras prendadas de sua terra natal – aquelas chamadas, com justiça, de “mãos de fada” -,  se valiam de bastidores, tesouras e agulhas para dar graça ao linho branco através do richelieu.

 O já saudoso poeta não teve o gosto de ver seus versos abrigados sequer em um opúsculo; não teve também a alegria de ser, oficialmente, mestre em Letras ou Língua Portuguesa. Precisar, não precisava. Ele era um Mestre. Ainda assim, ele queria tanto! Talvez, como álibi para fazer o que tanto amava: ler, ler, ler sem culpa…

A sensibilidade da Prof. Mary Arapiraca impediu que seu último poema, feito no leito derradeiro do Hospital Português (tinha que ser nele!), onde se encontrava, fosse prematuramente – como a vida  do autor – arrancado do convívio humano. (Veja-o abaixo em PDF).

O adeus a Álvaro será hoje, dia 18 de novembro, às 16h, no Cemitério Jardim da Saudade.

Vá em Paz, POETA! Vida longa na memória dos amigos!

Saudades,

Menandro Ramos
FACED/UFBA

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3 Respostas to “Foi-se o poeta Álvaro Cardoso”

  1. osaciperere Says:

    Saiu na “faced-l”:

    É de fato um pesar. Lembrarei sempre das inúmeras vezes em que trocamos a poesia, a prosa e a delicadeza de Bethania, de quem ele era fã confesso assim como eu. De Clarice Lispector, de quem citava frases inteiras, com uma memória de fazer inveja aqueles um pouco mais jovens, como eu. Álvaro era uma pessoa dulcíssima e que contrariava todo o imaginário acerca do servidor público: era atencioso prestativo, discreto e elegante até para nos contradizer. Vai certamente fazer falta a alegria, a poesia e a inteireza dele.

    Que descanse entre os poetas.

    Saudações,

    Jamile Borges

    —————————

    É realmente uma grande perda. Álvaro realmente se distinguia pela presteza, cordialidade e principalmente pelo cuidado e responsabilidade com que desempenhava seu trabalho, assim como pela gentileza com que tratava à tod@s. Me solidarizo com a família e desejo que a mesma possa encontrar o conforto necessário. A nós, colegas de trabalho, vai restar com certeza a lembrança dos bons momentos que compartilhamos.

    Abraços,

    Izaura

    —————————

    Uma notícia já esperada, mas que dói da mesma forma.

    Álvaro sempre será lembrado pela sua elegância, sabedoria e total propriedade da língua portuguesa.

    Quantas vezes trocamos recordações do Colégio 2 de Julho, dos lançamentos de Gal, Bethânia, Chico… com seu peculiar gosto musical entremeava poesia e música com uma maestria única.

    E as bonitas camisas de Vergê a temas florais. Discreto generoso, ele não era uma pessoa, um colega simples para mim e vai continuar a ser especial.

    Nos últimos meses nos falávamos pelo telefone, vou guardar a imagem do pequeno grande amigo bem alegre e a cantarolar uma das muitas cantigas que amava.

    Estou triste e pensei escrever um trecho de Bethânea, Cartola, são tantas letras:

    A Noite Do Meu Bem

    Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
    Quero a primeira estrela que vier
    Para enfeitar a noite do meu bem
    Hoje eu quero a paz de criança dormindo
    Quero o abandono de flores se abrindo
    Para enfeitar a noite do meu bem
    Quero a alegria de um barco voltando
    Quero a ternura de mãos se encontrando
    Para enfeitar a noite do meu bem
    Hoje eu quero o amor, o amor mais profundo
    Eu quero toda beleza do mundo
    Para enfeitar a noite do meu bem.
    […]

    Disalda Leite

    —————————

    Em uma solenidade digna e poética e contando com a presença de familiares, amigos e muitos técnicos e professores da FACED nos despedimos do poeta e qualificado servidor público federal ÁLVARO CARDOSO.

    Registro do labor com as palavras e lembranças antigas e recentes… lágrimas, saudades e poesia… o canto da música Cajuína cantada por Álvaro, Dinéia, Mary dentre outros essa semana no hospital, deram o tom belo e emocionante do sepultamento.

    Álvaro, um exemplo de ser humano!

    Cesar Leiro

    —————————

    Álvaro!
    vai o homem
    fica a poesia
    a candura de um homem
    que traçou pegadas ternas
    em paisagem árida.
    que tenha acolhida certa entre os seus.
    Eduardo. [Oliveira}

  2. Jonei Cerqueira Barbosa Says:

    Uma sensível e justa homenagem para quem descobriu como viver sensivelmente!

  3. osaciperere Says:

    A viagem de Álvaro deixa-nos saudosos….

    O companheiro Álvaro fez a viagem derradeira. Não mais o veremos permanecer e andar por aqui. Deixa uma marca simples, o mais elevado que se alcança sendo humano. Marca de precisão, simpatia, disposição, competência de poeta conhecedor da língua mãe como poucos, solícito, elegante em seu falar pensado. Um companheiro que deixa saudade em todos os que tiveram o privilégio de conviver com ele. Não tive oportunidade de conhecê-lo mais demoradamente, mas pude apreciar sua estilística e competência na revisão de um texto para publicação. Tinha um conhecimento da língua portuguesa além da técnica, era um poeta na alma, cultor da forma vívida da invenção poética, capaz de se emocionar pelo esplendor do gênio da língua pela própria sonoridade das palavras e suas cargas de sentido. Um homem refinado espiritualmente e despojado materialmente. Um poeta-escritor obscuro, discreto, que nos deixa a marca da autenticidade e uma grande saudade de sua presença livre, respeitosa, silenciosa, sempre disponível ao apelo do outro. Um ser humano admirável!!

    Grande abraço companheiro Álvaro Cardoso, um abraço que não mais pode alcançá-lo dada a distância em que se encontra de nós sua alma livre de poeta….tendo alcançado o plano quântico de não mais ser-sendo, mais simplesmente ter-sido, o que o devolve de novo ao ser absoluto, espero alcançá-lo um dia em seu salto quântico e celebrar conjuntamente a plenitude vivente em sua pura simplicidade despercebida…. Nada mais preciso e belo do que o desabrochar de uma flor….

    Dante Galeffi

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