– A responsa das FACOMs

Aqui pra nós, leitores, o Saci, temendo um atentado por parte dos verdadeiros piratas, se disfarçou de um deles… Clique na arte para visualizá-la melhor.

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A mídia hegemônica informa ou deforma?

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

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vitei sair de casa no Dia de Finados. Sempre impliquei com a ideia de todos prantearem seus mortos num único dia, ao sabor da mídia. Tenho horror de ver a multidão levando montanhas de flores para os entes queridos por força de uma única data. Via de regra, durante 364 dias as sepulturas passam esquecidas, abandonadas. Como num passe de mágica, os “Campos Santos” se transformam num verdadeiro jardim florido no dia 2 de novembro. Algumas homenagens sinceras e doídas, penso eu, na maioria das vezes, acontecem no silêncio dos nossos pensamentos, entre as lágrimas fugidias provocadas pela saudade, pelas lembranças e pela dor sem cura lá no fundo do peito…

Mas o presente post não é para falar dos mortos, e sim dos vivos, muito vivos, aliás. Enquanto eu aproveitava o feriado para arrumar algumas coisas domésticas, o Saci me apareceu. Parecia um tanto soturno, talvez temendo que a sua simples presença pudesse romper com a sisudez da data. Como eu coloquei no aparelho de som um rock um tanto quanto agitado, meu gesto foi a senha para ele despir-se daquela atitude quase respeitosa diante de mim, como se eu também já estivesse morrido, bem diferente do seu ar eternamente debochado.

Restabelecida a sua postura “normal”, começou a estalar os dedos e remexer a cintura, meio Elvis Presley, meio Sidney Magal. Durante um bom tempo exercitou animadíssimo os quadris. Lá para as tantas, resolveu recuperar-se do esforço que fizera na sua cadeira preferida de três pernas. O coitado estava suando por conta da maratona da dança.

Enquanto eu rasgava papel, ele resolveu puxar um papo-cabeça.

– Chefia, o que as Faculdades de Comunicação do mundo ensinam a seus alunos? É muita responsa das FACOMs, não?

Achei estranha a pergunta, assim de repente, mas comportei-me com naturalidade.

– Ah! O currículo é muito rico. Creio que abordam desde as diversas teorias da Informação e da Comunicação até as Teorias Críticas, com os frankfurteanos Adorno, Horkheimer, Marcuse, Walter Benjamin, Habermas, além de outros de diferentes matrizes teóricas. E isso sem falar nas práticas próprias do jornalismo, e das…

Rapá! Isso tudo? Então, como é que esse pessoal se deixar levar pela lábia dos donos das empresas de Comunicação?

– Ah! Saci! Isso é um troço complexo. Para além da cinzenta teoria, como dizia Goethe, há sempre o verde da vida que exige, às vezes, uma certa flexibilidade, uma atitude menos pueril…

– Como assim? Então, o que se vê na academia é tudo de mentirinha, pra inglês ver?…

– Não é bem assim… É que algumas abordagens…

bom, bom! Esqueci que você é da academia…

– Se você, ao menos, me ouvir…

– Precisa não, chefia! Poupe sua saliva, seu latim… Mudando de pau pra graveto, você chegou a assistir ao vídeo sobre a verdadeira pirataria praticada na Somália, que o Prof. Francisco Santana lhe enviou?

– Ainda não tive tempo, Saci! Alguém tem que fazer alguma coisa nesta casa… Mas já fiz o download do vídeo e está na área de trabalho do meu computador. Assim que puder, o verei.

– Então, fim de papo. Não temos mais diálogo até que você possa vê-lo…

– UÉ! Que coisa tão hermética ele tem que não posso opinar sem assistir ao treco antes?

– É que suas referências, chefia, como as dos seus colegas da UFBA, são da Grobo e de outras mídias empresariais hegemônicas. E, sendo assim, não vão poder opinar sem puxar a brasa para a sardinha, ou melhor, para o tubarão do capital, para os interesses do G7 ou G8, para os guardiões de Wall Street, do dólar, do Mercado Europeu, do euro e do escambau responsável pelo vale de lágrimas em que estão mergulhados os povos oprimidos do mundo.

– Vamos parar! Desse jeito você me ofende e ofende à UFBA. Exijo o direito de me defender! Nem estou sabendo de que zorra você está falando…

– Viu aí? Não sabe porque só assiste ao Jornal Nacional e quejandos!… já parou pra pensar sobre as agências noticiosas que abastecem os noticiários das emissoras de rádio e TV? Já parou? Todas elas, sem exceção, vão comprar o peixe nos super-mega-hipermercados da Big Apple e afiliados europeus, templos de adoração ao deus Capital… E o que fazem, todos os dias, os simpáticos casais de apresentadores globais senão cantar o hino do mundo financeiro e dos papéis podres, o “New York, New York”? Hem, grande maçã tentadora?

– Vá pro inferno, Saci! Você fumou todos os cogumelos venenosos nesse pito fedorento!…

vendo? É sempre assim… Estou pirado, bebi, fumei e cheirei todas!… É sempre o mesmo argumento! Típico de quem não quer pensar, de quem não pode agora, pois não está com tempo, de quem não deseja examinar radicalmente a realidade, de quem apenas quer comer com os olhos a fantasia da Disney World…

Esbocei passar-lhe umas boas descomposturas, mas ele me atravessou como um raio.

– Entendeu agora o porquê de ninguém da UFBA ter esboçado a mais leve crítica à parceria feita entre uma das suas Faculdades e a empresa dos herdeiros de ACM? Entendeu a extensão do efeito da foto dos dirigentes estampada, com destaque, numa das suas páginas nobres do Correio da Boa Terra? Sacou o sentido tão corriqueiros, em voga, dos termos “flexibilização”, “globalização”, “racionalização”, “interpenetração política”, “pós-modernidade midiática”? Sacou?

O destrambelhado era uma metralhadora parlatória. Mais uma vez, tentei me defender e defender a UFBA. E mais outra, e mais outra. Em vão, porém!…

E o pestinha falou, falou, falou e, por fim, assegurou que os cérebros de Harvard, de Colúmbia, de Berkley, de Stanford, do MIT e de tantas outras célebres instituições de ensino superior do país de Tio San, juntando com as daqui e as de alhures também, não tinham o menor interesse em alterar um único milímetro da realidade do mundo, de modo a beneficiar o trabalhador. E, como corolário, as escolas e faculdades de Comunicação também não podiam mover uma palha nesse cenário hegemônico, uma vez que constituíam parte daquele universo estabilizado e bem alimentado.

Por fim, antes que eu pudesse piscar um olho, ele escafedeu-se num rodopio monumental.

No meio de uma gargalhada estridente, ainda o ouvi perguntar debochado:

– Chefia, a seu juízo, a mídia hegemônica informa ou deforma?

Confesso que nem de longe pensei em responder ao abusado de gorro vermelho e pito. O que eu queria mesmo era ver o tal vídeo que tanta confusão causara por não tê-lo visto antes.

—————

Agora que os ânimos serenaram pela ausência do moleque arreliento, Leitor (a), que tal vê-lo comigo?

Ei-lo:

Piratas na Somália

Atenção
Para assistir ao vídeo com legenda em Português, clique AQUI.

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3 Respostas to “– A responsa das FACOMs”

  1. Dionisio Freitas Says:

    Cara, parabéns pelo satírico, criativo, inteligente, perpicaz texto!

  2. osaciperere Says:

    Entre os comentários de estímulo recebidos por e-mail, destacamos um do Prof. Décio Torres [deciotc@ufba.br], do Instituto de Letras/UFBA, através da lista “debates-l:

    “Excelente texto!”

    Agradecemos a todos os Leitores e Leitoras que nos honram com suas visitas e gentilezas.

    Isso significa dizer que não estamos sózinhos na nossa luta!

    Abraços a todos.

    —————————————-

    —–Mensagem Original—–
    From: menandro@ufba.br
    Sent: Thursday, November 03, 2011 6:35 AM
    To: debates-l@listas.ufba.br ; Apub-l@listas.ufba.br
    Subject: [Debates-l] A responsa das FACOMs

  3. Anibal Teixeira Says:

    Muito bom o texto. Parece que o saci já sentia cheiro de “esperteza” no ar, para usar de eufemismo…

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