– II ELEGE em Bricolagem

 

Mary Arapiraca
Profa. da FACED/UFBA

 

“Meu desespero ninguém vê”. Com essa música na cabeça, amanheci. Foi pra mim que Batatinha fez essa composição, tenho certeza. Oh noite, tu és a senhora absoluta dos insones. Pior que uma noite de insônia é o riso despreocupado das colegas do GELING. Tão rindo assim porque tão livre de bricolagem que dona Licinha inventa e ninguém desinventa. Só Regigramacho notou que eu não gargalhava como era de costume. Fui de imediato me acomodar no auditório, e lá, Ortega y Gasset me lembrou que “minha dor de dente é minha dor de dente”. Disse a ele que não era dor de dente, mas de peba quente preparada por Seu Malaquias para o povo de Campinas e pra Lu cantar: “ai, ai seu Malaquias, ai, ai você disse que…”. Nisso o amigo do Saci liga dizendo do assucedido no seu AP antes do amanhecer. Em meio a isso, chega um sussurrador, com cara pintada de sol e sopra no meu ouvido direito: “Quer ver a foca feliz? É pôr uma bola no seu nariz.” Pouco depois, uma sussurradora de cara pintada de estrela sopra: “A bela bola rola:/ a bela bola do Raul. Bola amarela a da Arabela,/ a do Raul, azul/ Rola a amarela e pula a azul”. Com isso, acabou-se dor de gente, peba quente e mais que de repente eu e toda gente queria era ser feliz. Lembrei-me dos trocadilhos de Itamar, marido de Raquel, que me apelida de Mary Caruaru e o GELING de Gergelim, e comecei a viajar na maionese ou na amnésia e passei a sussurrar pra mim mesma, é claro: A bala bela pela. A gala rala rola. Bola amarela rala na tela, bola azul Rio Grande do Sul. Meu Deus, quanta alegria nos trouxe essas criança da Escola Municipal do Pau Miúdo. Daí pra frente foi só jogo com a recursividade da língua que se abria em janelas da alma, do corpo, da garganta, da santa imaginação, indignação, excitação, fruição que só a canção é capaz de alcançar. E a bola amarela de Arabela e a azul do Raul rolaram da janela pra panela, do coração pro furgão e flagraram Albertino na contramão da Capes, dizendo pra quem quisesse ouvir:

Pelas janelas olhamos, sem olhos, a alma do mundo.
Pelas janelas dizemos – do trabalho e do amor, do amor pelo trabalho
e do trabalho que não tem amor.

Pelas janelas dizemos da solidão do encontro, do encontro com o doce e com a amarga solidão. Da solidão da coordenação. Da solidão dos internautas, sozinhos juntos e juntos sozinhos

(…)

Pelas janelas velejamos nos acordes e nos versos do coração.

Aproveitando as afinações dos acordes, agora nos tons dados por Asa Branca, Obdália nos
brindou com a música “Este teu olhar” de Tom Jobim e com um poema
de sua verve “Esse seu olhar leitor…”
“O olhar e o corpo do leitor
pela sedução das palavras, pelos labirintos das ideias
encenam o texto, constroem a sua casa de letras”

A bola amarela da Arabela corou de alegria quando Dinéa iniciou e finalizou a homenagem à Professora Maíta com a primeira estrofe dos meus girassóis: O fazer pedagógico/ em novos contornos/ haverá de florescer,/ é a voz das flores. E finaliza belamente, como tudo o que faz: “Juntamente com este texto trazemos flores para oferecer à homenageada. Flores e a contagiante esperança formulada pela voz poética. A esperança que nos faz crer que: O fazer pedagógico/ em novos contornos/ haverá de florescer,/  acreditamos que sim/ é a voz das flores. Essa é também a nossa voz. A mesma dos girassóis do poema, e de mais outros girassóis que entregamos à nossa querida Maíta em nome do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação e Linguagem – o GELING que está oferecendo a ela e a todos os interessados o II ELEGE.

Ainda corada de alegria, me vi verde e o verde quis a todas nós, com o gosto apurado de Aline Oliva e Regigramacho nos vestindo camisas que diziam, perguntando, o que dizem teus olhos?

Já a bola azul do Raul deu-se de encantamento pela habilidade linguística e conceitual do amigo do saci, professor Menandro Ramos, que afirma não fazer uma palestra, mas sessão lamúrias e aperitivo para assistir ao filme todo. Dinéa diz que é banquete, eu prefiro o tira gosto do botequim, tão ao gosto do Professor José Arapiraca, meu marido. Petiscar dá mais conversa, rende mais.

São comentários do mestre:

Vemos em parte com os olhos, mas não exclusivamente.
                A realidade é múltipla, não há um sentido absoluto e nossa visão é sempre lacunar. Vemos em parte com a sensibilidade, mas ela sozinha não da conta
da amplitude do conhecimento humano. A imaginação transfigura o mundo.
o ato de olhar é também o de enxergar o invisível que  comporta
emoção e razão

A sensibilidade define nosso lado animal, mas o entendimento
caracteriza o ser humano para o bem e para o mal.

A força branda da voz de Menandro transformava nas três ou quatro cores primárias a bola azul do Raul que, com o chute do carapinha de uma perna só espalhou palavra pra todo lado. Como palavra na cabeça de gente vira história, Licinha e Regina Campana cuidaram muito bem dessa parte na Biblioteca Anísio Teixeira, lugar que será zelado, com prazer,  por Neuza Pires, em encontros com as colegas  bibliotecárias.

No final do dia, Tacira Coelho, Alex Barreto,Amauri Oliveira, Raphaela de Paula e FFF  (Fernanda Fera Fedra)
 Explodiram, literalmente,  o coração de um auditório, ao vê-los e ouvi-los
em linguagem de ribalta.

            Os brindes cuidados por Emilia Rodrigues se estenderam em gestos de gostosuras, mas sem quase nenhuma bobice.

Dia seguinte, Os Dizedores de Versos com Drummond, Manoel de Barros, Cora Coralina, Elisa Lucinda fazem com que significantes e significados caminhem em cada um de nós, do coração para a cabeça, da cabeça para as mãos, das mãos para a cabeça, da cabeça para o coração e passem    

A bola da Arabela e a do Raul para o Professor Eduardo Calil com “A escuta do invisível”

A escrita envolve uma semiótica múltipla, atravessada pelo
imprevisível acaso.
Rasura – marca de autoria – ninguém rasura
antes de escrever.

Pela impossibilidade de seguir contando recorro a (Merleau-Ponty,1999) para dizer que o II ELEGE é o próprio e mais sofisticado existir humano que nos faz perceber o sentido das coisas da educação e da linguagem. Como o existir é fluido, é mutante, infindáveis são as possibilidades das pedagogias com as múltiplas linguagens que enredam as criaturas. Dinéa, Bonilla, Simone Bueno, Anderson Alexandre, Ana Kátia, Izaura, Raquel, Lícia sabem bem disso. O seguir da vida e das experiências, por certo, indicará o que é importante para o vir a ser do leitor/escritor “imersivo das janelas textuais”.

 E o seguir da vida desse dia, logo à tarde, se expressou, sob forma de Oficinas tecidas pela mão, pelo coração e pela razão sensível de Gisellyem Livro Ilustrado: para ler e ver; de Dora Wanderley e Regigramacho, em O trem dos escritores; de Joilda e Riso Almeida, em De livro em livro, de Patrícia Silvaem Pela Luzdos Olhos Teus: a leitura de imagens quando falta a visão; de Rosylapa e Paulinha Albuquerqueem Arte Postal; de Keu Ribeiro e Lu Santos em Arte de contar história, de Emilia Helena e Noemi Santana em A gramática do texto, estratégias de leitura; de Luciana Oliveira em Um olhar sobre as tecnologias de Raquel Nery em Escrever sem dor: o olhar no significante; Simone Assumpçãoem Letramento Literário; Lica Araújo em Literatura e alfabetização: jogos e materiais para alfabetização e letramento. Das mãos habilidosas de Lina e das mãos generosas das Editoras – FTD, Moderna e Ática livros à mão cheia chegaram às oficinas para celebrar a leitura “a mais civilizada das paixões.”  

Agora, antecipo a manhã de amanhã que já será o ontem dos hoje. A homenagem ao Bruxo do Cosme Velho – Machado de Assis -, o patrono do GELING, nos contando, na leitura dramática de Raphaela e FFF sobre “Um homem dado a estudos de ornitologia…”. Na sequencia, as palavras potentes e desafiadoras que nos serão oferecidas pelo escritor-jornalista Hélio Pólvora, com quem dialogo nos sábados e domingos, dias de descanso e criação, sobre o ler e escrever na escola e sobre o quando a ilusão se desfaz. Por fim, que rima com por mim, as melodias do Coral Melodias, encerrando o II Encontro de Leitura e Escrita do Geling, abrindo, mais uma vez, janelas para expressões da alma e, entre os sussurros e acordes dos mais vibrantes, com a certeza de que Neuzinha que bem cuidou de todos os escritos do ELEGE, arquive o que digo a essas Criaturas narradoras gelinguianas e a esses meninos e meninas que a nós se juntaram, concretizando nosso ideal de universidade, da nossa universidade.

Não sei bem se por necessidade ou determinismo histórico, o fato é que vivemos acochados, embrulhados, entalhados, entranhados em narrativas recortadas, escutadas, formuladas, inscritas, prescritas,

cadentes, candentes, decadentes, evanescentes, resplandecentes, escaldantes, degradantes, variantes, pudicas, safadas, esculhambadas, conformadas, malcriadas, arrebatadas, arrebentadas, precárias, primárias, lerdas, velozes, carnais, imateriais, imorais, efêmeras, etéreas, eternas,

graves, agudas, leves, sôfregas, dolorosas, amorosas, temporais, atemporais, sonoras ou mudas, para que a vida, ávida vida,

nossa vida humana, fragilizada, sem saída, muitas vezes pouse, adultere a contemporaneidade e retorne.

Retorne com estatuto, brio, delicadeza, e, quem sabe, fortalecida, afetada de afeto amanheça de rir, sofrer, gozar e porvir desfiar

em fragmentos estéticos.

 Feliz porvir, queridas e adoráveis criaturas gelinguianas

que caprichosamente fizeram o II ELEGE

Por fim

 Parafraseando Drummond, em seu poema “Signos”, feito para Manoel Bandeira, afirmamos

 Ontem, hoje, amanhã: a vida inteira

teu nome é para nós, GELING, Bandeira.

 Salvador, 01/10/2011

  

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Leia também As janelas da Alma, escrito para o II ELEGE.

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