– Eu não sou miserável…


Clique na imagem para iniciar o vídeo.

.

——————————————

Greve na UFBA: a cisão dos trabalhadores da Educação

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

.

reve é algo incômodo. Muito incômodo. Com frequência gera acaloradas discussões prós e contras, além de ressentimentos – até entre os membros de uma mesma categoria! Quem participa de um movimento de greve sabe disso.

 Há os que usufruem dos frutos da greve, mas que nunca delas participaram, a não ser por inércia; há também os que nunca participaram de uma assembleia, durante toda a carreira docente, mas sabem manifestar o seu tédio por ela; há os, nos últimos tempos, que sugerem a internet para substituir a discussão presencial das plenárias. De fato, é muito cômodo. De casa, ou de um gabinete de trabalho, é bem mais confortável e mais seguro. Até porque viver está ficando cada vez mais perigoso!

Em períodos de greve, quando as mesmas são feitas de biquíni ou de pijama, o tempo do docente rende enormemente. É possível passear à vontade, fazer compras nos shoppings, pode-se até viajar. É uma beleza para os mais sabidinhos.

Para “os bobões que querem salvar o mundo”, como dizem por aí, é só trabalheira. Para os que a levam a sério, a greve é uma dura labuta de preparar material, participar de intermináveis reuniões, de repetir as mesmas coisas para pessoas diferente, a fim de inteirá-las do que está acontecendo – AH! É um deus nos acuda!  – E o fato de ter que enfrentar incompreensões, provocações grosseiras de colegas absenteístas das greves? E os riscos de ser atropelado durante as panfletagens? Detesto greve. Só quando não há outra solução.

Recentemente, ouvi de uma pessoa amiga que greve é própria da juventude, da idade do sonho, da utopia; ouvi ainda que o intelectual atua em outras frentes… Acabei tendo que sair das minhas atividades para tentar achar uma foto de Jean Paul Sartre e sua companheira Simone de Beauvoir, já falecidos, dois grandes intelectuais franceses, ambos já com uma certa idade quando a foto foi feita, vendendo exemplares do jornal maoísta La Cause du Peuple, lado a lado com estudantes. Em vão, pois os dois foram taxados por essa pessoa de excêntricos e exibicionistas…

Há os que não fazem greve pelo temor da perda do emprego. Quem tem estômago, tem medo!… O exército de desempregados está aí para intimidar; há os que associam greve à baderna; há os que acreditam que “manda quem pode e obedece quem tem juízo” (estaria neste rol a diretoria da APUB?); há os que não fazem greve porque não abrem mão das férias; há os que são megaimportantes, comprometidos e que não podem parar – só por morte e olhe lá! Há os que se envolveram até a alma com o universo da pesquisa, que têm sérios compromissos com as agências financiadoras e que não podem suspender o que estão fazendo, nem por um segundo sequer, pois o tempo – que é dinheiro! –  já foi regiamente vendido. Em alguns casos, até com pagamento adiantado; há ainda os “pós-modernos” que compreendem a greve como um instrumento superado do século XX.

Algum tempo atrás, um jovem doutor, na época recém-chegado de uma dessas universidades famosas do primeiro mundo, compenetrou-se de suas armas e brasões adquiridos lá fora, e resolveu deitar falação numa assembleia da APUB, realizada no PAF. Dirigindo-se à frente do auditório ensinou soberanamente aos colegas mais velhos que a greve era um instrumento superado e coisa e tal. Como um deus do Olimpo, sentenciou que a categoria tinha que buscar recursos mais criativos, compatíveis com a contemporaneidade.

De um canto, muito atento, um professor de cabelo arrepiado – qual um pica-pau – sorria indulgente. Tão logo pôde, inscreveu-se e, risonho, indagou ao jovem doutor se ele poderia, da mesma forma que deu aqueles sábios e amadurecidos conselhos – também sugerir um sucedâneo para o já ultrapassado instrumento da greve.

A expressão atônita do jovem doutor, pegado de surpresa, acabou suscitando o riso da plateia. Meio atordoado, coitado, ele foi saindo de fininho e nunca mais pisou numa assembleia. Dizem que o dito cujo, atualmente, é um dos maiores “produtores” de papers em inglês da UFBA, e um dos maiores abastecedores diários da Platafoma Lattes. Dizem.

Não entrando no mérito do leitmotiv que cada um alega ou pode alegar para não encampar a greve, dirijo-me apenas aos que entendem as reivindicações dos docentes como justas – uma vez que o governo não cumpriu o acordo celebrados com os representantes das categorias envolvidas –, mas que temem eventualmente as sanções legais, por desconhecerem a Lei Maior – a Constituição Nacional de 1988 –  à qual brasileiras e brasileiros precisam prestar contas:

Art. 9º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.
§ 1º – A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.
§ 2º – Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei.

Sem desconhecer o Estado Burguês do qual fazemos parte, mas obedecidos os preceitos constitucionais que membros da diretoria da APUB fazem pouco caso, ao que tudo indica, creio que não há porque temer cara feia dos fura-greves e tampouco os seus insultos.

Resta apenas lamentar o fato de não compreenderem a importância da solidariedade entre trabalhadores. Alguns até que se dizem de esquerda, certamente, inda não enderam o verdadeiro sentido da exortação do Manifesto Comunista, radicalmente atual:

Trabalhadores do mundo: uni-vos!

Anúncios

2 Respostas to “– Eu não sou miserável…”

  1. osaciperere Says:

    Circulou na “debates-l”:
    ————————————

    Mas a professora cuide para não passar para os seus alunos e demais interessados uma imagem falsa do grande teatrólogo alemão. Digo isto sem nenhum parti pris, porque sei dos
    dotes revolucionarios da professora, ultimamente bastante acentuados com uma “greve’ na UFBA, que ninguem vê, mas que dizem seus corifeus, está por todo lado. Mas voltando ao
    grande Bertolt Brecht, a professora não esqueça de explicar porque Brecht, a vida inteira um grande revolucionario, optou por viver justamente na Alemanha Oriental e como se isto fosse pouco, ainda recebendo o premio Stalin da Paz em 1955, um ano antes de morrer.

    Parece que o grande teatrólogo via a revolução, à qual devotou toda a sua vida, dentro ou a partir das instituições políticas em vigor. Não era certamente nenhum sectário. Não andava por aí fazendo suas pequenas revoluções em nome da salvação de todos… E olhem que estamos falando aqui do stalinismo, não é de nenhuma democracia liberal, mesmo a dos trópicos!!!

    Mas boa sorte com a sua incumbência, professora. Vindo de onde vem, é temerária, mas pode ser proveitosa. Afinal de contas nunca devemos descrer da capacidade regeneradora do ser humano. Prof. Israel, um admirador completo da vida e obra deste grande alemão.

    [Israel Oliveira Pinheiro]
    ——————————–
    —– Forwarded message from isolpi@ufba.br —–
    Date: Mon, 21 May 2012 11:06:44 -0300
    From: isolpi@ufba.br
    Reply-To: isolpi@ufba.br
    Subject: Re: [Debates-l] A UFBA e a APUB-LUTA OPOSIÇÃO SINDICAL – Vídeo
    To: menandro@ufba.br

    • osaciperere Says:

      Car@s Colegas,

      Que bom o resultado desse vídeo simplizinho!

      Quem sabe a diretoria da APUB não reflita que o bom mesmo é estarmos juntos lutando
      contra um inimigo deveras perigoso!

      Não me canso de ser otimista!

      Fraternalmente,

      Menandro Ramos,
      FACED/UFBA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: