– Assembleia ou Referendo?

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Instituído X Instituinte

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

Acolher a vontade da diretoria da APUB ou ouvir o clamor da categoria que se manifestou na Assembleia e reverberou pelos campi da Universidade Federal da Bahia?

São duas forças antagônicos que se precipitam pelo movimento do real:  o instituído e o instituinte. Essas forças são os elementos propulsores de todas as transformações. A síntese dialética de ambas fará renascer uma outra UFBA e uma outra entidade sindical.

Segundo o meu amigo de gorro vermelho e pito – temerariamente se apropriando de conteúdos que são exclusivos de alguns filósofos, historiadores, sociólogos e cientistas políticos do Monte São Lázaro –, a primeira dessas duas forças é estática, conservadora, que prima pela manutenção do status quo, da situação. A segunda é dinâmica, insurgente, progressista, rebelde, que busca o novo, o inusitado. Uma delas tem a sustentação no ideário parmenidiano que proclama apenas a sensação do movimente de uma realidade estática; a outra força assume o devir heraclitiano, a permanente reconfiguração do real para a qual “nenhum homem ou nenhuma mulher toma a mesma cerveja na mesma adega”.

Ainda que ninguém queira assumir os vínculos desse embate com a política partidária, eles existem firmes e fortes. Ao longo de uma década, a UFBA foi criando uma densa capilaridade com as hostes dos executivos federal e estadual de plantão e tudo hoje gira em torno dela (que em princípio não tem que ser necessariamente perversos). Para alguns, romper com esse pacto que foi costurado com fios invisíveis para o grande público é desconforto e perda. Inclusive perda pecuniária.

Temos, atualmente, três professores licenciados da UFBA – sem falar em outros envolvimentos do segundo ou terceiro escalão -,  que servem a importantes pastas do executivo estadual: Educação, Cultura e Planejamento. Um deles, inclusive, no tempo oportuno, se credenciará a ocupar o Palácio de Ondina. Se terá êxito, são outros seiscentos, para não ser repetitivo…

Será razoável, então, a um ser dotado de córtex cerebral constituído pelo menos de 20 bilhões de neurônios – a dar crédito ao que a Ciência diz – desprezar que o embate entre “Referendistas” e “Assembleistas” não é senão a pugna por manter ou destituir o que aí está?

Ora, os que advogam o referendo, ou o instituído, não fazem senão protelar o embate que, mais cedo ou mais tarde, acontecerá. Talvez queiram ganhar tempo para dar tempo de se pensar em uma estratégia de arrefecer os ânimos da base, que se organizou como um furacão. Cresce o descontentamento dos docentes com o que aí está posto. A entidade sindical tornou-se impotente, inoperante ou indiferente para com algumas questões ligadas aos interesses dos professores. O circo e as festanças não são mais suficientes para distrair ativos e aposentados. Tudo indica que a corda rompeu ou está por um fio.

O risível aumento de 4% descolado pelo governo, abaixo mesmo do índice da inflação, aguça a necessidade de uma urgente reestruturação da carreira docente. O saldo da precarização do trabalho do professor, patrocinado pelo Reuni, é flagrante; as denúncias das mazelas deixadas pelo infausto projeto de expansão universitária, como marketing político do governo de plantão, já não podem mais ser silenciadas.

Restou, então, como opção dialética do movimento do real, a Assembleia, a força de um coletivo que foi se ampliando e contaminando positivamente o segmento que jazia imobilizado pelo contexto em que fora mergulhado.

Não perguntarei – como o fez o Poeta dos Escravos – , “qual dos gigantes morto rolará”, pois os “gigantes” continuarão existindo após a greve e a UFBA continuará seguindo sua marcha. Ora avançando, ora retrocedendo. Brevemente, a atual diretoria da APUB só será lembrança, e a História dará o seu veredicto sobre ela. Daqui a algum tempo, também, sentir-se-á a necessidade de novos regramentos, novos marcos regulatórios, tanto para a instância universitária, quanto para a entidade sindical. Tudo será reconfigurado, ou quase tudo.

O fogo arrebatador e propulsor de mudanças daqueles que se insurgem contra o silêncio dos que se locupletam das benesses do poder, entretanto, nunca será consumido enquanto o sol brilhar. E, certamente, a ágora, a Assembleia sempre serão o locus propício para alimentá-lo.

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3 Respostas to “– Assembleia ou Referendo?”

  1. osaciperere Says:

    Recebi, por e-mail, a nota abaixo:
    —————————————————

    Nota Pública

    O DAMED – Diretório Acadêmico de Medicina – vem por meio desta nota, comunicar o apoio dos estudantes de medicina à luta dos professores da UFBA –

    Universidade Federal da Bahia – e especialmente, dos professores da Faculdade de Medicina da Bahia diante da greve para denunciar, reivindicar e lutar por melhorias para categoria.

    As Universidades Federais atualmente estão em uma conjuntura de
    mobilizações de professores, servidores e estudantes por todo país buscando melhorias de condições de trabalho, salários, planos de carreira, estrutura universitária e ensino de qualidade que são reivindicadas há tempo e ainda não foram cumpridas.

    A UFBA não foge desse processo, na última semana, no dia 29 de maio de 2012, os professores em Assembleia declararam greve da categoria dando início a uma série de discussões sobre a situação da nossa Universidade. No dia 04 de junho, os professores da Faculdade de Medicina da Bahia se reuniram em Assembleia e decidiram pela adesão à greve, embora ainda será feita uma nova
    reunião para analisar peculiaridades do nosso curso, como o internato e atividades de assistência à população.

    Diante disso, foi realizada, no dia 04 de junho, às 14 horas, uma Assembleia Geral dos Estudantes de Medicina da UFBA, tendo como uma das pautas a Greve dos Professores. Esta é considerada espaço máximo e democrático de discussão e deliberação estudantil, legitimada pelo Estatuto do DAMED. Após discutidos e
    esclarecidos os pontos que culminaram na atitude dos docentes, os estudantes aprovaram por aclamação o apoio à greve e além disso aprovaram o boicote às aulas de professores que não aderirem à greve como atitude de apoio ao movimento que se instala na nossa Universidade e tem repercussões nacionais.

    Há Braços de Luta!!!!

    Estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia
    DAMED – Gestão “Pés do Tempo” – 2012

  2. Menandro Ramos Says:

    Recebido por e-mail:
    ——————————–

    Prezado Professor Menandro,

    Vindo à Escola Politécnica, por obséquio, passe no terceiro andar, no Departamento de Ciência e Tecnologia dos Materias, e me propicie o prazer de lhe conhecer e cumprimentar pessoalmente. Farei o mesmo, caso vá à FACED ou lhe encontre em algum evento. Estimo muito conhecer pessoas educadas. Formei esse conceito, à seu respeito, após ler várias mensagens oriundas do colega, algumas como respostas firmes e agudas, mas, sobretudo,
    educadas.

    Em momentos como o atual, as pessoas que abrigam pontos de vista cristalizados por interesses, conveniências e oportunismos, alheios a princípios e valores, sempre cometem algum ato falho.

    Apreciei muito o fato do colega ter me passado a impressão de ser um professor, com foco em educação, inclusive em política universitária e acadêmica. Fiquei feliz em observar
    que não se trata de um militante pelego que instrumentaliza partidariamente a UFBA, ou ainda de não ser um desses empresários frustrados que usam o nome e as instalações da
    UFBA em proveito próprio, por não terem coragem de assumir os desafios comuns a todo empresário privado. Aproveitadores como esses têm tão pouco dos que vivem lutando para tocar seus negócios que me parece injusto denominá-los por empresário.

    Cumprimentos,

    Luiz Anibal – DCTM / EP – UFBA (ramal 9843)

    • osaciperere Says:

      Muito grato, Prof. Aníbal!

      Creio que a UFBA e o Sindicato deve nos unir, e não o contrário.

      Grande abraço,
      Menandro

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