1366 – Os filósofos no poder

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Vaca Tatá - bovina baiana

Vaca Tatá – bovina baiana

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P.

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ara dizer a verdade, já havia decidido ignorar o mundo dos homens, mas os cortes de Levy aos recursos da Educação (mais de 9 bilhões de reais) e da Saúde (mais de 11 bilhões), sem falar nas gulosas  garfadas na área social, me instigaram a escrevinhar essas mal traçadas considerações carregadas de filosifices de almanaque, porém sinceras…

Talvez até alguém possa me esclarecer o que para meus pobres neurônios bovinos constituem impenetrável mistério. Refiro-me ao fato de o governo da presidente Dilma Rousseff, supostamente de esquerda, entregar-se a uma orientação econômica supostamente inclinada para a lógica do capital, tendo o timoneiro-mor, ninguém menos do que o ministro e engenheiro naval Joaquim Levy, que há pouco tempo ocupava o cobiçado cargo – segundo a ótica capitalista! -, de diretor-superintendente do Bradesco Asset Management. Eu, que não entendo patavina de economia ou de finanças, na minha santa bovinice, era capaz de jurar que um governo que se diz do Partido dos Trabalhadores, alardeado como de “esquerda”, estaria muito mais propenso a entregar os assuntos da Fazendo, por exemplo, a um João Pedro Stédile da vida. Pensando friamente, se Levy tem formação em Economia,  Stédile também tem, e com a larga vantagem de ser um marxista. Na minha cabeça, a operação é muito simples, sem mais-mais: um governo de esquerda deve valer-se de pensadores de esquerda para dar rumos também de esquerda à economia, – por definição, antagônica aos interesses do capital. Por que será que o governo do PT não pensa assim de forma coerente? Por que tem que correr atrás de soluções dos compêndios neoliberais? Será que esse comportamento é próprio das chamadas “esquerdinhas”, despossuídas de qualquer coerência em termos de vislumbrar o que interessa e é vital ao trabalhador?  Ou será que estou escrevendo bobagem?

Mas essa conversa toda não passou de um mero e contingente desvio de foco, pois o que eu quero falar mesmo é sobre o ideário platônico dos reis-filósofos. Explico: nunca na história deste país e das IFES, tivemos tão próximos de criar uma sintonia fina entre o MEC e a UFBA. O (a) leitor (a) boiou? Minutinho que eu esclareço.

Vamos lá, então!

Quem é chegado à Filosofia, sabe muito bem que a utopia do filósofo grego Platão era ter a sociedade governada por filósofos. Dessa forma, todo governante (arconte) seria um rei-filósofo. Ele acreditava que somente o homem sábio possui a ideia do bem, do belo e da justiça. Tais predicados assegurariam, segundo pensava, um governo orientado a praticar apenas atos justos, sem dar motes a insurgências contra a ordem social. Assim, além da justiça, a pólis caracterizava-se pela convivência cotidiana com a beleza e a bondade… Fabuloso, não?

Ainda que não me situando como um bovina idealista, confesso que ao saber da nomeação do Prof. Renato Janine para titular do MEC, pus-me a saltitar como uma adolescente da classe média ao receber o bilhete áereo para Disneylândia… Imagine aquele passo de balé, geralmente dado por bailarino marmanjo, chamado de tour en l’air, em que o dito cujo dá um salto para cima com as pernas coladinhas,  ao mesmo tempo que gira uma ou mais voltas no ar com o corpo!…Conseguiu imaginar? Pois eu executei esse audacioso movimento sem sentir os meus bem-distribuídos 500 quilos. Juro! A alegria era tamanha que não tive como não me lembrar de Platão.

“Pronto, pensei! O Prof. Renato Janine à frente do MEC e o Prof. João Salles, reitorando a UFBA, não tem mais pra ninguém. É só alegria! É questão de meses para que a Universidade Federal da Bahia entre nos eixos e galgue os píncaros da glória. Adeus dificuldades, adeus dureza!

Semanas atrás, ao fuçar a vida do Prof. Renato Janine nas redes sociais, descobri que ele, além de ser titular da cadeira de Ética e  Filosofia Política na USP, se especializou em Thomas Hobbes, aquele mesmo que escreveu O Leviatã, para quem o Estado precisava ser dotado de uma força descomunal, qual o monstro bíblico do Livro de Jó. Pensei com os meus botões: “Taí alguém que não deve ser nem de longe um liberal. Ou neo”.

Quanto ao perfil do Prof. João Salles, para não gastar muito o teclado, bastei lembrar-me de um grande evento da pós-graduação da FFCH da UFBA que ele box-mezaros-2015coordenou. Raciocinei: “Se o Prof. Salles fosse inclinado ao pensamento da direita, ele teria convidado Olavo de Carvalho ao invés de  István Mészáros…”.

Combinando o preparo dos dois ilustres filósofos e mais o slogan “Brasil, Pátria Educadora”, disse para mim mesma: “É tudo que precisamos para a construção de um país decente e de uma universidade pujante”.

Mas qual! Ao ouvir, ontem,  os números apresentados pelo ministro Nelson Barbosa, do MPOG, já que o seu colega da Fazendo Antonio Levy não quisera dar as caras, com ou sem gripe, me senti como a cantora Maysa: o meu mundo caiu. Puf!

Da mesma forma que também caiu a ficha para o que tanto martelava o Prof. Francisco Santana, nos mais variados púlpitos: “Sem a auditoria da dívida brasileira, não há salvação para o Brasil”.

Como não sou de entregar os pontos, e estou sempre acreditando que dois é mais do que um, pensei na possibilidade de fazer chegar até o magnífico reitor da UFBA, os clamores do Prof. Francisco Santana. Não que eu não ache importante que o Prof. Salles reúna a comunidade universitária e a sociedade baiana em defesa da UFBA. Achei massa a sua iniciativa, mas sugiro que vá além:

Que tal o magnifico reitor unir o movimento “Em Defesa da UFBA”, que é algo meio abstrato, meio vago, com os veementes apelos dos aposentados Prof. Francisco Santana, engenheiro eletricista, e Maria Lúcia Fatorelli, auditora fiscal, para que se efetive a “Auditoria Cidadã da Dívida Brasileira”? Quem sabe, assim, se o Palácio da Reitoria da UFBA não estaria dando um primeiro passo para “contaminar” outros magníficos que, por sua vez, em uníssono, convenceriam a presidente Dilma a corrigir o rumo da Pátria Educadora desviado pelos ventos do pensamento neoliberal?

FILOSOFOS-2015

Quem estaria mais credenciado a dialogar, de igual para igual, com o titular do MEC do que o Prof. João Salles? Talvez nem o próprio Marx…

É preciso que alguém abra os olhos do titular do MEC em relação a esse modelo levyano de “Pátria Educadora”. Não tenho dúvida do poder de convencimento da Andifes e, sobretudo, do Prof. João Salles, que sabe esgrimir tão bem a linguagem que o ministro-filósofo entende.

Em resumo, alguém precisa convencer o titular do MEC a não se curvar diante do remédio amargo que o capital quer porque quer enfiar na goela do trabalhador brasileiro.

Caso o ministro da Educação queira usar dos seus dotes de filósofo-retórico para defender a caricatura da “Patria Educadora” que restou, sem dúvida alguma, vai precisar inventar uma Nova Ética…

 

 

 


Assim clamou o Prof. Santana no tórrido e indiferente deserto produtivista acadêmico :

D.

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esde pelo menos 01/12/2014 que eu envio e-mail avisando que os professores deveriam imediatamente fazer um movimento pela AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA para prevenir ou se credenciar para lutar contra cortes na educação, na saúde etc.

No e-mail de 06/12/2014 eu fiz uma previsão aritmética de quanto seriam os cortes na educação.

Na primeira hipótese, mais pessimista seria de 13 bilhões.

Na segunda hipótese mais otimista, seria de 5,4 bilhões.

Fazendo uma média (13 + 5,4 )/2 = 9,2 bilhões quase o valor de Dilma = 9 bilhões

Para a saúde era só fazer uma regra de três (98/83)* 9,2 = 10,86 bilhões quase o valor de Dilma = 11 bilhões

Como dizia Marx: “O que diferencia o homem do ser irracional é a capacidade de prever”

Segundo Marx portanto não é a capacidade de adquirir habilidades repetitivas ou de rotina que diferencia o homem do macaco, mas a capacidade de prever.

E parece que o ser humano está perdendo essa capacidade, está involuindo.

Essa previsão eu fiz há 6 meses e meio e se os professores me ouvissem e fizessem um forte movimento pela auditoria cidadã da dívida e, consequentemente, a suspensão do superavit primário até o resultado da auditoria, com certeza, Levy e Dilma teriam muita dificuldade de fazer estes cortes, ou no mínimo estaríamos lutando num patamar muito mais elevado e numa situação estratégica mais vantajosa. Agora, é enxugar o leite derramado.

Obs. 1: O Armínio Fraga na campanha de Aécio defendeu um superávit primário de 4% contra o de Dilma que era 1,1%. Portanto se Aécio fosse eleito o corte na Educação seria de 32 bilhões.

Obs. 2: Pela primeira vez, a GLOBO falou, explicitamente, que os cortes eram para fazer o superávit primário de 1,1% para pagar os juros da Dívida. Desde de 2014, que Dívida Pública era uma expressão proibida de se falar. Mas, finalmente, não foi mais possível não falar. Portanto, não adianta os professores da UFBA fugirem da Auditoria da Dívida; ela vai cair sobre suas cabeças.

Francisco Santana
Prof. Aposentado da UFBA

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Uma resposta to “1366 – Os filósofos no poder”

  1. osaciperere Says:

    Circulou nas listas de discussão da UFBA:
    —————————————————————

    Caro prof. Francisco

    Acompanho sus postagens sempre com atenção. De fato não há salvação ou ação com propriedade, sem ter a auditoria da divida.
    Parabéns por sua se, prs corajosa postura.
    Att
    Tomasoni . Igeo

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