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Assim falou o Saci: “Pobre Univelha!”

março 4, 2009

  

As fotos do Saci

As fotos do Saci

Menandro Ramos
Professor da FACED/UFBA

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Tudo cansa. Já não aguentava mais ser passado para trás. Dessa vez lavei minha alma! Se não dei a resposta que o Saci vinha merecendo, pelo menos – acho que pela primeira vez – não paguei mico para ele. Sinto-me um vencedor como aquele sugerido, tempos atrás, pelos outdoors da cidade… Eufórico, ouso subverter o ditado, afirmando que o silêncio vale mil palavras… Ou mais!

– Às favas com as imagens! Foi o que pensei quando vi aquelas fotos sobre a minha mesa de trabalho. Ninguém mais as veria. Daria fim de todas elas. Ao lado delas, havia um bilhetinho com letras garranchadas, com a assinatura do tinhoso moleque, sugerindo uma legenda:

“Pobre Universidade Velha! As preocupações com a performance da Aula Magna da Uninova fizeram com que eles se esquecessem de capinar os caminhos da Univelha! (Fotos feitas pelo Saci, em 01/02/2009”).

Todas elas seriam rasgadas e incineradas. Dirigi-me à cesta de lixo com o isqueiro em riste. O velhaco queria que eu me indispusesse com os amigos do rei. Não ia cair mais nessa. Nunca tive vocação para mártir. Sou seguidor do meu amigo cordelista e fotógrafo, já falecido, Renato Almeida: “É preferível um covarde vivo do que um herói morto”.

Hesitei por um momento. Pensei se eu não estaria sendo radical em destruir aquelas fotos. Talvez, se as guardasse como recordação, dentro de um livro qualquer, estaria sendo mais sensato. Elas custaram dinheiro para serem reveladas ou copiadas. Ainda mais com essa crise mundial! Não, não seria politicamente correto destruí-las…  Decidi preservá-las, então.

Aquilo podia parecer uma coisa boba, mas só o fato de não cair na gaiva do velhaco, para mim já era uma vitória retumbante. Ainda mais comigo, que o pilantra deitava e rolava. Por mais precavido que me tornasse, ele sempre me pegava no contrapé, de uma forma ou de outra.

A maturidade, entretanto, se encarrega de nos fazer mais ponderados e baixar o facho, como dizem por aí. Antes de qualquer julgamento precipitado, prefiro acreditar que há muitos caminhos para limpar e que a vez dos usuários da trilha que dá acesso à Faculdade de Educação, vai chegar. Para dizer a verdade, até acho charmoso o matagal invadindo a pista. Dá um aspecto bucólico. Quando chove, então, é uma delícia aquele cheiro de terra molhada, misturado com o olor que exala do capim, fustigado acidentalmente pelos transeuntes. E depois, qual o assaltante que se arriscaria em esconder naquela verdadeira selva? Qual?

Nunca acreditei que a Faculdade de Educação seria preterida pelo fato de não ser uma das signatárias do Reuni. E depois, concordando ou não com essa tal reestruturação, a FACED pertence à UFBA. Tolerância com o dissentâneo é o que não falta na universidade, penso eu. Se assim não fosse, seus dirigentes não seriam magníficos… Além do mais, outras unidades são beneficiadas pelo, às vezes, ínvio caminho, como a Escola de Administração, A Faculdade de Direito, entre outras. Sem falar no PAC que abriga uma sala de cinema… Se bem que muitos que vão pegar uma tela, chegam de carro próprio… Mas isso é uma outra conversa…

Por mim, tudo bem, tudo sobre controle. Não me deixa mentir a manchete do Jornal A Tarde. São 477 câmeras que serão instaladas para a segurança dos usuários dos campi da UFBA. Tanto no espaço da Uninova como no da Univelha. Sem discriminação, como pede o espírito universitário. Minha única preocupação é que o Tribunal de Contas da União venha barrar essa aquisição como o fez com os notebooks do BI, deixando para os maliciosos a pálida sombra de insinuação de uma propaganda enganosa. Que não queiram processar A UFBA por isso!

Assim, mais uma vez, me regozijo de ter dado de um a zero no pilantra do Saci. Começo o semestre radiante por essa inusitada façanha. Dessa vez, foi ele quem se ferrou! Iahhh! Receba!!!

***

A única coisa que torna minha felicidade incompleta é o fato de não ter comparecido à aula magna do ilustre sociólogo e filósofo francês. Tive raiva de mim mesmo quando vi, no meu dedo, um cordão amarrado para me lembrar que, naquela mesma data da falação de abertura, eu tinha que resolver uma pendência com a conta de luz.  Entre o lume de Maffesoli e a energia da Coelba, lamentavelmente, não tive outra opção. “Primum vivere, deinde philosophare” (Primeiro viver, depois filosofar), já havia registrado Thomas Hobbes no seu livro o Leviatã, de 1651, em consonância com outros dos seus colegas pensadores mais antigos. Mas soube que tudo foi muito bonito. Pelo que me contaram, se não fosse a magnificência da solenidade, diria que foi um verdadeiro comício de números recitados, logo após a fala do teórico francês pós-moderno. “U’a manhã de enlevo e glória para o Palácio da Reitoria!” Diria, sem dúvida, qualquer poeta. De pé-quebrado ou não.

Ah! Por falar em comício e também no Palácio da Reitoria, estive sabendo que, brevemente, estará lá, no mesmo e charmoso recinto de tapete vermelho, a digníssima Ministra da Casa Civil. Certamente será outra manhã de glória para os amigos do rei e dos sustentadores da Unimercado. Certamente, ainda, dirão as cassandras, uma troca de gentileza entre palacianos com propósito de escambos futuros.

***

De repente, me sinto assaltado por pensamentos enevoados. Estaria o pilantra do Saci com a razão? O meu propósito de não divulgar as fotos que o tinhoso me deixara, fora seriamente enfraquecido. Peguei-as de volta no livro. Automaticamente, já fui abrindo a tampa do scanner. E se eu apenas publicasse as imagens sem a legenda?

Dito e feito. Quanto à interpretação das fotos, correria pela subjetividade e semioticidade de cada um. PT sem saudações.

No fundo, no fundo, eu choro por dentro. Para que ninguém ouça, eu sussurro bem baixinho para os meus botões, que permanecem irritantemente impassíveis:

– Pobre Universidade Velha!

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A TÍTULO DE REGISTRO

Verdade seja dita: no terceiro mês após o comentário sobre a precariedade do aludido caminho, eis que senão quando o mato é cortado. Três meses depois!

Velocidade das trevas! – diria o Magnífico Elegance