As palavras e as coisas

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golpe presidenta 2016.

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

cap o va 15.

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Saci sempre está me lembrando que em cada época, suas aflições. seus problemas, suas soluções. E parece que ele está certo. Embora, ressalta,  algumas características fixas permaneçam como uma espécie de aramado sob o enchimento no fluir dialético do existir e em suas relações. O certo é que o movimento do real impulsiona os viventes para soluções boas ou ruins, quaisquer que sejam as razões pelas quais se vive ou morre. Há sempre os que querem resolver os conflitos pelos bíceps, ou pela bala, ou pela bíblia, ou pela bula, por pela burla, ou pelo bico, ou pela rima, ou pela… Complete aí, folgado! Vida é movimento!… Sendo que os últimos – os das rimas que citei -, por vezes, se apresentam como mais criativos, mais gaiatos e mais lembrados pela posteridade. Mesmo que o autor permaneça desconhecido, e encoberto por sete véus nas brumas da memória, suas obras tornam-se imortais, eternas para a fruição das almas sensíveis.

No tempo em que Epitácio Pessoa governou o Brasil (1919-1922), quando ainda não existiam as ferramentas virtuais, os blogs e os memes, mentes delicadas e sutis resistiram o quanto puderam com verve poética, espírito de galhofa e bom humor o dirigente autoritário e preconceituoso que as páginas da História registraram com tinta indelével – basta dizer que ele barrou a participação de negros na seleção brasileira de futebol que iria disputar o Campeonato Sul-Americano de Futebol (1921)…

Assim, no seu governo, foram muitos os esforços de mentes sensíveis para transformar a pena em espada de poetas-espadachins anônimos, como a deliciosa e genial quadrinha, abaixo, formatada pelo Saci. Mas não fiquemos apenas nessa pessoa. Falemos também de outras, que talvez nos interessem muito mais.

Eis a quadrinha:

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Psoa 2016.

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arabesco

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cap d va.jpg.

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esde que o primeiro “iluminado” descobriu que o governo poderia usar a palavra “golpe” para referir-se às astúcia do cardeais do PMDB et caterva, e chamar para seu favor a indignação das massas, muitas “teses” juridíco-políticas foram produzidas sem resultados concretos para barrar o avanço da oposição de direita rumo ao Planalto.

Claro que as palavras são polissêmicas, e podem o tempo todo abrigar inúmeros sentidos, e ainda ser alteradas do significado original. De acordo com o meu amigo de gorro vermelho e pito, se todo mundo passar a chamar de “liquidificador” o aparelho celular, logo, o engenho centrifugador estará sendo dicionarizado como tendo mais um nome… De toda forma, conforme elucubra o pestinha, o que seria um clássico “golpe de Estado” tão em voga em boca de Matildes , por mais boa vontade que se tenha, dificilmente se aplicaria ao caso Temer-Dilma. O próprios petistas mais chegados ao diálogo e à reflexão admitem não ser um golpe com armas, mas um “golpe branco”. Ainda que bradem a plenos pulmões que “É GOLPE, SIM!”. Isso porque Deus desceu do céu e confirmou que é golpe.

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Ninguém pode impedir que as analogias sejam buscadas através de metáforas, de comparações, de figuras de linguagem. Isso tem sido feito sobejamente. Constitui parte do jogo pretensamente democrático. Já se escutam falas doutas como as que mencionam “o 18 de brumário de Temer”  – numa tentativas de estabelecer um paralelo entre Michel Temer, Napoleão Bonaparte I, Carlos Luís Napoleão Bonaparte III e os golpes de Estado ocorridos na França em 1799 e 1851, denominados de “18 de brumário”, do qual Marx fez uma extraordinária análise de conjuntura em forma de artigo jornalístico – posteriormente transformado em livro, – e ensinou (além de ironizar  o segundo golpe), aos que estavam dispostos a aprender que “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”. Ou seja, os atores da história não podem ultrapassar os limites que a realidade impõe…

Segundo o Saci, considerando que para a movimentação do  “18 de brumário de Napoleão I” (versão tragédia) as armas estavam presentes dando cobertura ao golpe de Estado, assim como ocorreu com  no “18 de Brumário de Napoleão III” (versão farsa), o que se ouviu na autocoroação de Temer foi, no máximo o “pum” dos partidos de direita, através dos seus representantes mais influentes.

18 de brumário de Temer 2016.jpg

NO 18 DE BRUMÁRIO DE TEMER NÃO HOUVE BAIONETAS OU CANHÕES – NO MÁXIMO, OUVIU-SE O “PUM” DOS PARTIDOS DA DIREITA. Já no 18 de Brumário de Napoleão I (a tragédia) e no de Luís Napoleão III (a farsa), as armas estavam presentes para calar as disposições em contrário…

cap d va.jpg.

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etalhando mais suas conjuminâncias, o Saci pondera que, da mesma forma que Luís Bonaparte, o sobrinho de Napoleão Bonaparte – responsável pelo que ficou conhecido como a farsa do “18 de Brumário”, na sua segunda edição de 1851 -,  chegou à presidência da Segunda República francesa (1848-1852) pelo voto. Do mesmo modo, Michel Temer também chegou à vice-presidente da República de cá, igualmente pelo voto, ao participar da chapa com a titular Dilma Rousseff. Dessa forma, Temer tornou-se  o imediato para suceder a presidente Dilma, em caso de afastamento da presidente, pela vontade do eleitor expressa nas urnas.

Posteriormente, ainda de acordo com o Saci, pela força das armas, ou do golpe de Estado, como alguns preferem dizer, Luís Napoleão, querendo repetir o gesto do tio, Napoleão Bonaparte,  sagrou-se imperador da França. Já Michel Temer não fez uso da força clássica, mas da astúcia e da traição para vestir a faixa presidencial verde-amarela de primeiro mandatário, e ocupar as dependências do Palácio do Planalto. Pode-se até argumentar que o aparato jurídico que conduziu  a sua investidura como executivo federal, no fundo, é assegurado pelas armas, as quais não são vistas, – e que permanecem invisíveis até o presente momento -, mas que podem ser acionadas quando a tal ordem jurídica for contrariada etc, etc.

– Quem quiser admitir isso – prossegue no seu raciocínio sacizesco o abusado Saci -,  claro que pode, porém, convenhamos, trata-se de uma analogia imperfeita, uma forçação de barra. Talvez fosse melhor mencionar o presidente interino como “traíra”, “jacaré”, “víbora”, “naja”, “cascavel” (com perdão dos peixes  e répteis), “velhaco”, “pérfido”, “jesuíta”, “sonso”, “dissimulado”, “rufião”, “hipócrita” e tantos outros termos que estão contidos no rico léxico escatológico da língua de Bocage – não o do arcadismo lusitano, mas o mítico “boca-porca” das piadas brasileiras, e ainda nos repertórios picantes de Gregório Matos e, quem sabe,  de Dercy Gonçalves, uma vez que “golpista” o próprio governo conduzido por Lula/Dilma poderia ser assim rotulado, quando privatizou, tirou direitos dos trabalhadores, empenhou-se em flexibilizar as relações de trabalho e golpear a CLT, bem como de negligenciar a educação, a saúde, e de favorecer enormemente o grande capital, seus outrora amigos e financiadores das milionárias campanha eleitorais nas quais se envolveram…

No frigir dos ovos, o que o Saci pretende, não é outra coisa senão dizer que as palavras sozinhas nunca levarão às coisas sem as mediações dos repertórios culturais dos sujeitos.

Foucault, Althusser, Peirce, Eco e tantos outros escreveram abundantemente sobre ideologia, signo e ato sêmico. E o Saci, apreciador de todos eles,  se vale de suas obras  para se apropriar de algumas de suas ideias nelas presentes, e contextualizá-las no feijão com arroz que diariamente saboreia e descome:

– Pelo repertório com que cada um esgrime algumas palavras, chefia, posso – com grande margem de acerto! -, identificar o petista, ou simpatizante, por exemplo, pela simples menção da palavra “presidenta”. Da mesma forma que terei grande chance de saber de que “lado” o professor da UFBA se situa “sindicalmente” ao escutá-lo dizer “a Andes” ou “o Andes”. Excluindo-se, claro, a possibilidade do dito cujo ser um calouro na docência, recém chegado na Instituição, ou alheio ao movimento sindical. E por aí vai. Mas o certo é que, enquanto vocês acadêmicos discutem se é alho ou é bugalho, o presidente em exercício, assessorado pelo mesmo Meirelles que assessorou Lula tempos atrás, se é verdade o que falam pelas esquinas, prepara um golpe contra a Previdência de tamanha magnitude, que o golpe traiçoeiro contra o trabalhador, aplicado durante o governo Lula, parecerá amostra grátis de perfume… Sabe Deus, também, se no futuro não dirão que Meirelles, o atual coronel da “Fazenda Brazil”,  não favoreceu mais a Temer perante o Império,  aplicando um golpe da mesma forma traiçoeiro em  Lula, seu padrinho primeiro em blindagem, por apresentar ao presidente Vivaldino em exercício um modelo muito mais feroz de neoliberalismo verde-amarelo, iniciado com o Plano Real de FHC…

Quem viver, verá. Se não perder a visão antes…

CORONEL SARUÊ 2016

Para o Saci, a vida imita a novela: a “Fazenda Brazil” também tem o seu coronel Saruê…

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Ela na coroação 2016.jpg

Há quem diga que apenas uma mulher compareceu à auto coroação de Temer. Assim mesmo com muita discrição… Tente encontrá-la. Para o Saci, “tá facim, facim”…

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AS PALAVRAS E AS COISAS 2016 B

Há quem prefira dizer “As Palavras e a Representação Sígnica Icônica das coisas”.

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