A carta testamento de Dilma d’Arc

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DILMA D'ARC 2016

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

cap-p-de-f.

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ara o Saci, talvez a presidente Dilma Rousseff seja um ponto fora da curva em relação aos políticos que já se envolveram com pedaladas fiscais ou maracutaias outras. Isso por acreditar que ela tem uma história que quer preservar – como é sabido, na sua juventude, envolveu-se com a militância revolucionária que tinha por propósito lutar contra o modo de produção capitalista. Assim, o Saci entende que o passado não a condena, embora o presente a tenha feito refém das más companhias…

Mas a Terra girou, girou, e eis que a presidente afastada se tornou a primeira mandatária do país pelas mãos do seu criador, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

E, novamente, no alvorecer do seu segundo mandato, o Planeta girou, girou e a ex-guerrilheira está prestes a ser imolada na fogueira do histriônico Senado Federal, conforme tem demonstrado as transmissões da TV, para dar uma sobrevida ao seu atual partido. Há quem diga que, mesmo com uma ponta de má vontade, muitos dos desacreditados parlamentares petistas – e o que sobrou dos coligados fiéis- agradecem à corajosa imolação da presidente afastada, que lhes poderá garantir  a fatura de mais alguns mandatos…

Não tive como não evocar Michel Zevaco (1860-1918), escritor francês, que na minha adolescência me impressionara ao descrever um cenário de patíbulos e fogueiras, muito comum no século XVI, usado a serviço da fé e da política… Corri para pegar o romance amarelado com cheiro de loja de sebo.

Ainda que as indumentárias e hábitos tenham sofrido inevitáveis alterações ao longo dos tempos, muitos ingredientes da política de alguns séculos atrás continuam presentes nas engrenagens do poder como a traição, a sordidez, a mesquinharia, o egoísmo, a hipocrisia… De qualquer modo, as fogueiras e os patíbulos da atualidade foram radicalmente configurados, não lembrando nada, ou quase nada, os monstrengos do passado, ainda que tenham letalidade similar. Também é bom ressaltar que a mídia eletrônica global nem sonhava nascer naquela época em que as fogueiras convencionais eram largamente utilizadas…

Zevaco com a palavra:

A Feiticeira […]

Clara e tépida manhã de outono, em 1536. Sob um céu de delicado azul diáfano, a velha Paris de Francisco I resplandece. Pela Praça de Gréve circulam os mercadores de aves e frutas, as graciosas pasteleiras, os vendedores de vinhos conduzindo burricos carregados com um odre peludo, gentis floristas com as saias arregaçadas, gritando e palrando: é toda a alegria cintilante de um belo domingo, com vibrações de sinos – pelo ar; é Paris que se espreguiça ao sol, e ri… e todavia, aí, nessa a praça, com toda essa claridade, entre dois patíbulos, ergue-se esta coisa hedionda: uma fogueira.

Para quem esta fogueira? Para quem estes patíbulos? A multidão , indiferente vai talvez sabê-lo; e eis que um clangor de trompas perturba os rumores matinais; eis sobre o seu bucéfalo, acompanhado de dois criados fardados, o arauto real que desenrola um pergaminho e, com voz forte, proclama:

“Em nome do Rei!… Nós, Jerome Gerlaine, arauto real juramentado, emissário do Senhor de Croixmart, juiz inapelável, fazemos saber a todos os presentes:

– “Em nome do Rei, o Barão Gerbaut, Senhor de Croixmart, deverá prender e executar sumariamente, sem forma alguma de processo, todos os feiticeiros, adivinhos e agentes de Satanás, que audaciosamente infestam a capital do reino.

 “Todo o fiel e leal habitante desta boa cidade fica obrigado, sob pena de ser condenado a remar nas galeras do Rei, a denunciar os partidários de ideias infernais, e para que a vontade do Rei seja prontamente cumprida, o Senhor de Croixmart fez levantar as fogueiras necessárias, principalmente na Praga do Marché-aux-Pourceaux, no adro de Notre-Dame e na Praça de Gréve.

“Tal é o desejo de Sua Majestade.”

A multidão reunida se dispersa.

O arauto vai mais adiante repetir a proclamação. E de boca em boca, entre murmúrios de terror, pragas surdas e ameaças de ódio, corre o nome de Croixmart, cujas sentenças não tem apelação.

—————
ZEVACO, Michel. Nostradamus. RJ: Ed. Minerva. s.d. p.5-6.

ENQUANTO-ISSO

 

marolinha 2016

Seguirá, o criador, as pegadas da criatura? – indaga o Saci curioso…

 

cap-hhhh.

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á quem diga que a questão das “pedaladas” da presidente afastada Dilma Rousseff é um mero pretexto para – mais do que destituí-la -, afastar o Partido dos Trabalhadores do poder. Se não fosse ela, nas palavras piedosas do Saci, mas a Irmã Dulce, nesse mesmo contexto, igualmente a santa baiana seria afastada… Para o pestinha, isso foi habilmente montado pelos partidos de direita, contando com a indiferença de segmento dos trabalhadores oprimidos, e de fração da chamada “esquerda”, por ver o PT curvar-se diante do capital e seguir o seu catecismo na versão neoliberal/imperialista. O lucro dos bancos, a precarização das condições de trabalho, os ataques aos direitos dos trabalhadores, de viúvas, de pensionistas e a lei antiterrorista ilustram bem o caminho do “endireitamento” trilhado pelo partido.

Em suma, as esperanças depositadas no PT, como partido progressista, foram duramente fraudadas. E, simplesmente, a presidente afastada pagou o pato, enquanto esquentava a cadeira de alto espaldar do Palácio do Planalto, para o retorno tranquilo daquele que a fez sair do anonimato, e ao qual ela é eternamente agradecida. Talvez, na sua cabeça esteja cristalizada a ideia de que não foi o povo que lhe fez vestir a faixa verde-amarela de maior mandatária da República…

– E os parlamentares, chefia, vivos como um corno, sacaram – e há muito! -, que o povo não acorrerá em favor da presidente…

– Presidente essa – interrompe-o a Vaca Tata -, que teve astuciosamente seu mandato abreviado por títeres integrantes da outra face de uma mesma moeda: a moeda de sujeição ao templo do capital, onde o trabalhador só entra para limpar ou para votar…

♣♣♣

Fiquei ainda trocando umas ideias com o Saci e a Vaca Tatá, enquanto assistíamos o faz-de-conta do julgamento da presidente afastada, transmitido pela TV Senado. O pestinha não perdia a oportunidade para elogiar debochadamente as qualidades dos políticos como excelentes “atores sem o canudo da escola de teatro”.

– Quem não diz que eles se estapeiam de verdade no plenário? – arreliou ferinamente o pestinha.

No cafezinho 2016

Para o Saci, por felicidade, quando supõem estar longe das câmeras, os políticos são muito menos aguerridos… Destaque na foto para os doutos Cardozo e Anastasia do lado esquerdo.

Com um ar circunspecto a bovina considerou que, muito provavelmente, as favas estariam contadíssimas e as moiras do Olimpo já haviam batido o martelo. Finalizando suas reflexões, arrematou conformada:

– Falta só o presidente Temer, ao deixar o Jaburu, concluir a missa no seu melhor latim: “Consummatum est! (Tudo está consumado!).

Prontamente, o Saci foi com fome na jogada.

– Mas que não espantem se o céu trovejar: “Carpe noctem!” (Aproveite a noite!).

Eu já não tinha mais ânimo sequer para abrir a boca. Calado estava, calado continuei até ser derrotado pelo sono.

 

 

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Uma resposta to “A carta testamento de Dilma d’Arc”

  1. cleildes santana Says:

    Saciiiiiiiiiiii
    Como é que divulga isto ai embaixo?

    Senhores Dirigentes,
    De ordem da Reitoria desta Universidade, encaminho em anexo o ofício nº 32/2016/GAU/PGF/PF-UFOB que trata sobre a presença da Polícia Militar nas IFES, para conhecimento.

    HELP, HELP,HELP
    Cleildes Santana – Docente – UFOB – Campus Barreiras – Oeste da Bahia.

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