Mensagem das urnas aos partidos de esquerda

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cap-para o Saci, o resultado das eleições municipais é uma importante mensagem sobretudo aos partidos de esquerda, ou que se dizem como tal, uma vez que não basta ser vitorioso nas urnas ou “chegar lá”, como se diz por aí. Quem conquista o poder e não consegue regá-lo convenientemente, está condenado a perdê-lo para sempre. Promessas não cumpridas, inoperância política ou administrativa, envolvimento com corrupção e enriquecimento ilícito constituem os ingredientes fundamentais para a perda de crédito perante o eleitor mediano, que sempre irá buscar o que julga o “menos pior”… Afinal, quem é que gosta de apanhar?

Ocorre que, se sucumbem os partidos de esquerda que um dia trouxeram esperança de melhoria para a população trabalhadora, a direita assume o mando com todo o gás. Não há vácuo na política.

Parece que perdeu vigor o Partido dos Trabalhadores (PT), criado em 1980  comandando greves por melhores salários e enfrentando a ditadura empresarial-militar. Os eleitores do ABC paulista, seu berço histórico, viraram-lhe as costas. Em Santo André, obteve 20% dos votos, contra 36% do candidato Paulo Serra (PSDB).  Em São Bernardo do Campo, o PT ficou em 3º lugar, com 23%, e está fora do segundo turno. Os candidatos Orlando Morando (PSDB) e Alex Manente (PPS) disputarão o segundo turno. Em Diadema, o PT está fora do segundo turno. Por outra lado, o PSDB faturou em primeiro turno as prefeituras de São Caetano do Sul e Rio Grande da Serra. Isso só para citar alguns colégios eleitorais de municípios paulistas que sempre apoiaram o partido de Lula. No município de Mauá, o prefeito Donisete Braga (PT) ficou com míseros 23% dos votos, contra 47% de Atila Jacomussi (PSB). Em escala nacional a perda de votos ainda foi mais devastadora.

– Tudo indica que o partido de número 13 tenha sido talhado pelas estrelas para reinar por 13 anos apenas, chefia! – segredou-me com voz embargada o meu amigo de gorro vermelho e pito, aparentemente comovido.

Talvez ele tenha razão, independente ou não do futuro dos partidos e da humanidade estar previamente escrito nos astros, pensei comigo mesmo.

***

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Preferi não me manifestar quando o Saci mencionou que o carlismo alçava voo nas asas de um Kannário… Brincadeira à parte, o crescimento de Neto, politicamente, se deu por um conjunto de variáveis. A questionada administração do prefeito João Henrique, antigo coligado do PT, pode explicar alguma coisa. A vitória do primeiro mandato de Neto se deubox-1 num momento em que a cidade, a olhos vistos, demonstrava estar abandonada pelo poder municipal. “Foi aí que o prefeito do Dem pegou a prancha e surfou na margarina”, conforme as palavras piedosas da Vaca Tatá.

Não sei se o prefeito reeleito de Salvador se reuniu com os seus auxiliares diante de um gigantesco mapa da cidade como o cinema costuma mostrar famosos políticos em ascensão, mas o fato é que algumas obras talvez tenham sido pensadas para provocar impacto marqueteiro. À guisa de ilustração, algumas delas podem ser citadas, a começar pelo calçadão da Barra, juntamente com as obras do Rio Vermelho, de Itapuã e da Ribeira. Independente da qualidade do projeto, que pode agradar ou até desagradar alguns especialistas em Arquitetura e Urbanismo, a pergunta que se faz é: como os turistas e a população eventualmente beneficiada recebeu tais obras patrocinadas pela atual administração municipal? Excetuando os turistas que não votam, como os eventuais eleitores desses bairos reagiram diante das mencionadas realizações?

O mesmo raciocínio pode ser empregado em relação à Estação da Lapa. Quem a conheceu na administração do ex-prefeito João Henrique, escura, mal cheirosa, suja e repleta de enormes ratazanas, certamente vai reconhecer em Neto um melhor administrador do que o seu anterior imediato. O que poderia ser grave para os críticos da política neolibral que é a privatização tão a gosto do prefeito, de labirintos concorrenciais nebulosos, escapa totalmente das preocupações da maioria dos usuários. Maquiagem ou não, na atualidade, o aspecto visual da importante estação de transbordo é capaz de provocar no público um juízo de valor favorável ao executivo municipal. Os eventuais deslizes técnicos projetuais, como as “goteiras” durante uma chuva mais forte, não maculam o conjunto da obra para os que fizeram uso diuturno da mencionada estação em outros carnavais…

Para encerrar, busca-se mais uma importante realização da atual administração municipal que é a repavimentação e iluminação da avenida Suburbana, importante traço de união entre o centro e bairros populares mais distantes, além da construção, no mesmo local, da mais extensa ciclovia da cidade em linha reta. Não estaria Neto pegando carona também do discurso ecológico politicamente correto dos grandes centros urbanos?

Pergunta-se: como os eleitores residentes no entorno e nas proximidades da Suburbana receberam essas benfeitorias?

Talvez a principal mensagem das urnas aos partido de esquerda, e não apenas ao PT e PCdo B, incluindo-se os emergentes que tiveram ou acenam êxito nessas eleições municipais, seja para que estejam – todos eles! -, mais atentos ao bem-estar que o povão merece e deseja. Inclusive uma mobilidade urbana ágil e climatizada convenientemente, que ninguém é cuscuz…

Não bastam as legítimas lucubrações teóricas acerca da nocividade do capitalismo para o trabalhador ou para a humanidade como um todo, da exploração que se pratica no capitalismo, da mais-valia que se obtém à custa do suor alheio – é preciso que os discursos tenham uma correspondências com as ações práticas traduzidas em benefícios concretos para as massas. O carnavalesco Joãozinho Trinta já ensinara que “quem gosta de miséria é intelectual”. E a Vaca Tatá completa: “Porque com ela pode faturar horrores”.

Que os intelectuais orgânicos dos partidos de esquerda refaçam suas teses. Ou os partidos de direita vão continuar levando o trabalhador a beijar suas próprias correntes que os agrilhoam, e acariciar o chicote, por vezes sutil, de seus algozes…

Tenho dito!

Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

 

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3 Respostas to “Mensagem das urnas aos partidos de esquerda”

  1. Roberto Cortizo Says:

    Nao sou intelectual, muito menos orgânico, mas sou capaz de pensar: em primeiro lugar a gestao de ACM Neto nao interveio de modo satisfatório nas áreas de pobreza, pois isso implicaria em urbanizar as nossas favelas – nao eh opinião de arquitetos ou urbanistas, mas um consenso universal nesse segmento, juntamente com engenheiros, sociólogos, economistas, mas investiu em coisas mais baratas e menos complicadas do reino encantado do social: escolas, postos de saúde, creches…..
    Em segundo lugar, concordo na necessidade de se repensar criticamente o que aconteceu. Tal como ocorreu quando a URSS desmoronou, devemos reler os clássicos, nao só os de fundo marxistas-leninistas…..
    Um livre atirador, Roberto Cortizo.
    Prof aposentado da FAUFBa e arquiteto

    • osaciperere Says:

      Prezado Prof. Cortizo,

      O senhor, como arquiteto, sabe muito bem que as soluções da administração ACM Neto não foram as melhores, mas sabe também do poder de uma demão de cal enquanto elemento da maquiagem.

      Para quem não aprendeu, enquanto ser de direitos sociais, a exigir além das migalhas, o pouco obrado encheu os olhos…

  2. osaciperere Says:

    Recebido por e-mail:
    ———————

    Excelente.
    Pena q a velocidade das mudanças seja geológica …..
    Parabéns
    Abs

    RCardoso

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