O mistério dos 112 da UFBA

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Altino Bomfim – FFCH

O FATO

Na primeira semana de setembro de 2015, 112 professores assinaram manifesto exigindo final da greve ao tempo que buscavam desqualificar as formas de organização e expressão como o CLG e as Assembleias.

Todavia, como está-se em uma instituição pública de ensino superior, não se deve minimizar o fato e buscar aprofundar o olhar sobre esse tipo de manifestação buscando entender aspectos que estão subjacentes, o que não está visível e suas implicações não só para greve mas para sociedade.

O abaixo-assinado que conta com a assinatura de membros destacados das ciências humanas e sociais, contraditoriamente, abre espaço para questionar essa área do conhecimento colocando-a na berlinda, destacando prioridades e posturas desta que é uma área de relevante importância para formação de sujeitos sociais na UFBA.

No plano mais geral, a greve de 2012 levantou indicativos e essa de 2015 escancarou a necessidade de se repensar, com urgência, o que se faz e como se faz na UFBA. Mais que nunca chegada a hora da organização de um CONGRESSO UNIVERSITÁRIO, com a participação dos três segmentos sociais que compõem a UFBA, organizando-se espaço não só e genericamente sobre como funciona o tripé básico extensão/pesquisa/ensino mas que se problematize universidade para que, universidade para quem, com que referencial social e se proceda a minuciosa análise da teoria e prática docente.

1. GREVE

 

Greve é um instrumento e recurso de luta previsto constitucionalmente, visto como a ação mais radical que pode assumir uma categoria social quando todos os esforços de negociação com os patrões foram esgotados a exemplo do que ocorreu em 2012 e ocorre agora. Então, greve é conflito, movimento, articulação, coordenação, preocupação, tensão, cansaço, doença (colegas tiveram de ser medicados devido a somatização) entre outros aspectos.

Mas, também, a greve pode ser vista como processo fantástico, uma aula prática de profunda riqueza no campo das ciências humanas e sociais haja visto a complexidade e dinâmica decorrentes das constantes alterações de cenário que exige especial esforço analítico de toda categoria e, especialmente, dos que estão na direção. Exige o esforço de entender o macro para verificar as repercussões e os passos a dar no micro. Analogicamente pode-se compará-la com um jogo de xadrez onde há detida análise dos adversários para identificar possibilidades, a famosa “correlação de forças” e posicionar-se para impedir jogadas que levem ao xeque-mate.

  1. COMANDOS LOCAL E NACIONAL (comando? Coisa militar!)

Uma greve demanda mobilização, organização e constante e sistemática atualização de informações. Daí a necessidade de se formar um grupo de professores que se disponham a assumir atribuições como analisar a conjuntura indicando estratégias e táticas de luta; promover articulações com outros segmentos sociais buscando constituir alianças; comunicar-se com a categoria e a sociedade explicando as razões e os passos tomados, solicitando apoios; organizar o suporte financeiro para custear as inúmeras despesas; mobilizar sistematicamente a categoria para participar das atividades através de visitas e participação de reuniões nas unidades; criação e manutenção de instrumentos de comunicação sistemática com a categoria; implementar as decisões das assembléias; organizar, mobilizar e participar de atos políticos e ações culturais; criar peças publicitárias para divulgação do movimento; participar do Comando Nacional entre outras atribuições.

Ademais, no caso da UFBA, o Comando Local de Greve foi e está sendo exigido a conviver e administrar permanente boicotes e conflitos com a direção da APUB que se orienta por diretrizes de um sindicato pelego, o Proifes, que são diametralmente opostas no que diz respeito a luta sindical por direitos dos professores universitários.
Constituído democraticamente através de aprovação em Assembleia dos nomes indicados, o chamado Comando Local de Greve\CLG, na sua qualidade de mediador, tem apenas função consultiva.

Considerando a dificílima conjuntura, cientes da responsabilidade e visando fundamentar suas análises para subsidiar as decisões dos professores em Assembleia, o CLG promoveu por diversas vezes reuniões ampliadas sobre a complexa conjuntura atual convidando para fazerem exposições os poucos pesquisadores das CISO que preocupam-se e estão sintonizados com a real-concreto presente. Em síntese, o papel que vem cumprindo o CLG é o de implementar as decisões das assembleias e atualizar, analisar e sistematizar as análises sobre a conjuntura nacional e local com vistas a socializar e subsidiar as decisões do expressivo grupo social que se faz presentes nos debates e assembleias.

  1. OS MISTÉRIOS

 MISTERIO 1.

O primeiro mistério é a composição dos 112. Na lista, destaca-se o amplo quantitativo de professores das ciências humanas e sociais, do Instituto de Humanidades, campo do conhecimento que tem por objeto o ser humano e objetiva entender e explicar o pensamento, a produção do conhecimento e as complexidades da sociedade humana o que os qualifica não para desqualificar mas, sim, coordenar as greves conforme descreve-se em itens seguintes.

O mistério está em entender a ausência quase total dos professores das ciências humanas e sociais nos processos de análise\reflexão sobre a conjuntura socioeconômica e política e de mais uma crise do modo de produção capitalista, na medida em que tal fato coloca um sinal amarelo (senão vermelho) sobre o que fazer dessa área do conhecimento.

Portanto, um profundo mistério ronda as ciências e humanas e sociais na UFBA. Ao longo de mais de 100 dias de greve publicou-se quatro ou cinco textos e estudos (alguns encomendados pelo CLG) considerando um universo de centenas de pesquisadores que compõem a área III da universidade.

A crise socioeconômica e política, mundial e nacional, o ajuste fiscal e suas consequências desastrosas na sociedade, que envolve milhões de trabalhadores de todo país (entre os quais professores e técnico-administrativos das universidades mas também de outras categorias e os estudantes que decretaram greve), parece não constituir um fato de relevante interesse para os cientistas sociais.

 

MISTÉRIO 2.

 

Não parece perturbar/preocupar o fato de a greve dos trabalhadores do serviço público federal acontecer em contexto em que se interpenetram crises socioeconômica, política, cultural, ética e moral em que há profundo desgaste das instituições e dos três poderes da chamada república. Desgaste profundo do governo e do ultra-conservador congresso que, todavia, em parceria estão a propor e votar medidas que intensificam a privatização dos serviços públicos a exemplo do já ocorrido com os hospitais universitários.

A imposição do ajuste fiscal neoliberal para direcionar recursos para pagar dívidas (urge fazer a auditoria cidadã!) que corta verbas essenciais para o custeio, investimento e para pós-graduação, aprofunda a degradação das universidades facilitando a introdução de medidas privatizantes como a cobrança de cursos, a redução de pessoal e a contratação não mais através de concursos mas via as Organizações Sociais/OS, livres para contratarem sem licitação e pelo menor preço do mercado!

Agrava isso a recente decisão do STF e o projeto já aprovado na Câmara para generalizar a terceirização, o que vai atingir diretamente os futuros professores e técnicos, degradando ainda mais o mister educativo, tornando as universidades escolões do terceiro grau (o que implica em refletir sobre o futuro próximo).

Na parece preocupar a desestruturação da carreira promovida pelo governo com apoio do Profies em 2012,, ponto da agenda atual.

Outra ameaça séria é a proposta do Proifes de regulamentar a autonomia das universidades, ação essa que pode abrir espaço para que o governo ampute ainda mais o limitado campo de ação das IFES.

MISTÉRIO 3.

 

Não parece pertubar/preocupar o fato de que, mesmo desacreditado e desmoralizado pela sociedade que lhe atribui as piores avaliações, o parlamento atual é representativo de segmentos poderosos organizado nas bancadas da bala, da bola, ruralista, dos bancos, evangélica, das empreiteiras entre outras, decidindo de forma conservadora sobre questões candentes para a sociedade como a institucionalização e generalização da terceirização mas também a regulamentação do terrorismo (qual, onde, que ameaça ao país???) que legisla, exatamente, sobre o amordaçamento e criminalização dos movimentos sociais.

As disputas pelo poder envolvendo os maiores partidos e as siglas de de aluguel que penalizam a população; o “descolamento” político-econômico dos poderes” legislativo e judiciário que legislam em causa própria (vide exemplos dos salários e verbas extras) parece que tampouco são questões que sensibilizem os pesquisadores, no seu conjunto.

Nesse quadro de menosprezo pelo real-concreto que acontece no país, não é objeto de interesse desse campo do conhecimento o crescente autoritarismo governamental que não dialoga com os trabalhadores ao tempo que sofistica o aparato repressivo para reprimir as demandas sociais com a generalização do uso de pistolas Taser, recipientes tamanho litro com gases e o uso de outros instrumentos terríveis contra os que se insubordinam e buscam lutar por direitos. Os que participaram das ações no MPOG e no MEC dias 27 e 28 de agosto sentiram o peso desse arsenal.

Mas, muito mais que isso, será que não é de interesse de estudantes, professores, técnico-administrativos, dos trabalhadores em geral entenderem essas ações e o autoritarismo do governo que coloca em xeque a própria ideia de democracia?

MISTÉRIO 4.

A constatação verbalizada por empresário de “alto coturno” de que a corrupção é algo generalizado nas esferas econômica e política bem como a publicização de investigações e de casos escabrosos de corrupção que desviaram e desviam recursos fundamentais para a sociedade, tampouco sensibiliza, generalizadamente, os cientistas sociais.

A escandalosa dívida do país que consome 47% do PIB (que ninguém sabe como e de que forma foi constituída), também não é assunto de interesse dessa área, apesar dos participantes de Assembléia haverem votaram pela constituição de um Comitê da Dívida Cidadã na UFBA.

MISTÉRIO 5.

 A crise política atual foi mais um momento de escancaramento da ação político-ideológica dos meios de comunicação, explicitando com quem se aliam e o que defendem. Colocada no lixo a ideia de neutralidade informativa, da existência de veículos com função de informar a sociedade. Na mídia a luta dos trabalhadores pela educação pública e por seus direitos quando não inviabilizada é objeto de críticas em editorais sem que se busque analisar os elementos que conformam a questão.

A mídia está pintada de marrom?

Verdade que se tornou partido e que representa o quarto poder da república (vide livro Quarto Poder de Paulo Henrique Amorim lançado essa semana)?

Qual o significado da articulação de dirigentes partidários e donos de jornais no “sangramento” da presidente e quais os impactos dessas ações para a sociedade e para os trabalhadores?

São, por acaso, coisas fúteis, passageiras, de menor valor? Qual a importância disso para a democracia, para a educação?

MISTÉRIO 5.

A que se deve atribuir e a quem interessa a ampla e generalizada despolitização que grassa na UFBA identificada em várias situações e realçada pelo absenteísmo de estudantes e técnico-administrativos mas, fundamentalmente, daquele segmento tido como fundamental nas universidades dado que são os produzem e organizam a socialização do conhecimento, os professores?

Exagero? Para os que gostam de números, a UFBA tem 2.233   docentes conforme pode ser consultado no endereço (AQUI) enquanto a APUB registra 2.960 filiados na ativa.

O que explica o absenteísmo e a despreocupação de parte da categoria com o complexo cenário socioeconômico e político atual e as pressões governamentais?

MISTÉRIO 6

 Que mistério envolve a Ciência Política? Alguns dos seus membros negam a greve como excepcional espaço de exercício político, do debate, do contraditório, subordinando a dimensão educativa à ideológica, burocrática e disciplinar.

Será que se dão conta que com isso concorrem para privar os estudantes e seus pares da compreensão da realidade conforme assinala Hannah Arendt (A Condição Humana, 1958) ao observar que o ser privado da liberdade de expressão e de meios de discussão significa “ser privado da realidade”?

Em síntese, está posto o ser ou não ser: se não participam da greve, sequer para analisarem esse fenômeno social de ampla dimensão – no caso desta, nacional – os membros das humanas e sociais colocam em questão a razão de ser dessa área e das disciplinas, da função social da mesma na formação humana dos estudantes da UFBA, dado que ofertadas para a maioria dos cursos, colegiados. Mais amplo ainda, qual o papel delas na formação de cidadãos e/ou sujeitos sociais? És, pois um grande mistério a ser desvelado na UFBA!

DECIFRA-ME OU TE DEVORO!

  1. A RIQUEZA SOCIO-CULTURAL DAS GREVES

Destaca-se que o viés político-ideológico na UFBA é tão forte que obnubila as mentes para surpreenderem-se e perceberem a riqueza sócio-cultural que explode nas greves e permite revelar mis nuances através de variados tipos de participação e manifestação. Está presente na explosão de sentimentos reprimidos pela burocracia e hierarquia como a irritação e a inconformidade que se expressam em vaias, gritos e apupos em contraponto com momentos de alegria manifestada em risadas largas, na tirada espirituosa, no papo descontraído com o colega ao lado, ao chamar atenção para os fatos e situações que se multiplicam nas assembléias (que em alguns momentos parecem uma feira) onde todos estão atentos para tudo!

Na medida em que as greves permitem que se saia do isolamento do mister acadêmico, dos famosos güetos dos departamentos, núcleos e\ou grupos, propicia momentos para o intercambio de “causos”, de projetos, de histórias de vida alegres\tristes, de angustias, decepções mas sobretudo de superação, abrindo espaços para construção de novas amizades e para brotar o companheirismo e o sentimento que deveria amalgamar os trabalhadores mas que é cada vez mais escasso, a solidariedade.

Assim, a greve e mais especialmente os espaços coletivos como a Assembléia, atos políticos e mesmo as reuniões do Comando (em que pese a tensão) são locais onde os racionais intelectuais que passam anos e anos isolados nas diferentes áreas e unidades possam se comunicar e interagir para além do produtivismo, mostrando-se como gente, humanizados!

Os problemas profissionais/pessoais e de grupos que emergem nas assembléias situam-se como questões para análise política, pois integram a “política da vida”, como observa Carlos Eduardo Sell na Introdução à Sociologia Política (2006, 188).

 

CONCLUSÃO

 O absenteísmo e desconexão total com o real-concreto, o dinamismo da sociedade, com a dinâmica de luta de um movimento social (será assunto das humanas e sociais?) explica o afã de propor-se a decretação do fim da greve de qualquer forma.

Os pontos elencados acima e a despreocupação em exercitar o conhecimento acadêmico e debruçar-se para entender a conjuntura que tanto permitiu avanços quanto pode indicar o momento de saída que explica abaixo-assinados descontextualizados.

A deflagração e condução de uma greve, para além dos aspectos político-idelógicos é um grande desafio que muitos não querem assumir.

O diversificado grupo de docentes participantes do CLG, CNG e das Assembléias estão todo tempo sendo exigidos para analisarem complexas questões macro e micro, formularem sobre estratégias e táticas, sobre alianças e parcerias entre outros assuntos do domínio não só das ciências humanas e sociais. Daí, nada mais simplista e despolitizado que propor-se encerrar-se abruptamente processo de luta que tem implicações locais e nacional, dado que construído solidariamente pelos milhares de professores organizados em dezenas/centenas de sindicatos que compõem o ANDES-SN.

Por fim, que futuro, que cenários pode-se projetar para a formação cidadã, de sujeitos sociais na UFBA se representantes de áreas expressivas da universidade, especialmente das Ciências Humanas e Sociais, colocadas como as que contribuem para o conhecimento da estrutura e funcionamento da sociedade, eximem-se desse papel?

Esse é um mistério que o manifesto dos 112 colocaram para ser investigado na UFBA.

SSA, 14/09/2015.

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