Salvador, meu amor!

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CIDADE ALTA 2016

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As últimas inaugurações de benfeitorias em logradouros públicos pelo atual prefeito da capital mereceram aplausos e críticas de alguns munícipes do meu entorno. Os que aplaudiram, invocaram as melhorias que a cidade precisava. Os que fizeram críticas, entre outros pontos levantados, salientaram a escolha dos tradicionais cartões de visita da cidade, e o favorecimento dos mesmos de sempre… De uma lista de “zap” da FACED, resgatei algumas reflexões.

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

cap-g3.

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ueremos e merecemos lugares belos, confortáveis e seguros, pois somos seres estéticos e humanos. E nada disso nos deve soar estranho. O problema é ser justo quando se elege o que tem prioridade e o que não tem. Antes dos romanos investirem na pesada e suntuosa arquitetura, na Mesopotâmia já se erguiam jardins suspensos… Num primeiro momento, assumidamente, para o bem-estar dos que detinham o poder; milênios depois, para colírio dos olhos dos que não tinham poder, mas podiam fruir… E eram obrigados a pagar impostos.

A história está marcada por edificações grandiloquentes que deram grande status a seus construtores. As sete maravilhas do mundo antigo são belos exemplos. Boa parte do traçado da Paris contemporânea tem o dedo dos arquitetos que serviram a Napoleão. O Arco do Triunfo, de Chalgrin, para ilustrar, queria muito mais do que comemorar as vitórias dos exércitos. Alberto Speer, arquiteto do Terceiro Reich, aprendeu a lição, e a exercitou muito bem até quando teve fôlego…

José Murilo de Carvalho, historiador brasileiro, no seu livro A Formação das Almas, fala das piruetas que a então jovem República brasileira teve que fazer para se consolidar. Sem o apoio das oligarquias, do povo e do próprio estamento militar como um todo, recorreu aos monumentos, pinturas, hinos e o escambau para vender seu peixe republicano.

Poderia escrever por horas e horas sobre os expedientes usados pelo poder, ao longo da história, para dar validade aos seus atos e feitos. Sobretudo o expediente dos cosméticos utilizados ao longo dos séculos pelos poderosos do mundo.

Não passa pela minha cabeça, nem de longe, que o colega apoie o partido do prefeito de Salvador. Minha ponderação aqui é que os códigos assimilados por Neto, dificilmente o fariam dar saltos que não fossem para favorecer a ordem capitalista. Claro que o povo acaba tendo acesso a pequenas migalhas. Sei que o ilustre dirigente municipal não acorda perguntado para si mesmo qual a pior maldade que fará durante o dia… Da mesma sorte que sei que Rui e Pelegrino não têm projetos muito distantes dos de Neto.  A lógica petista é a mesma do Dem, do PSDB, do PMDB e PCdoB entre outros partidos da atualidade. No máximo, tem por horizonte as ações reformistas. Todos os citados partidos – inclusive os que se intitulam “de esquerda”, comungam do ideário de “humanizar” o capitalismo. ONGs, Fundações, Institutos de Cidadania são o máximo que suas vistas alcançam. Alguns mais arrojados até podem imaginar que por meio do direito burguês é possível aperfeiçoar o Estado, através do chamado socialismo jurídico. Ainda que alguns assumam ser seguidores do barbudo alemão, não há para eles conveniências em propor uma nova ordem social sem a presença do Estado e muito menos sem o aparato jurídico do estado de direito burguês.

Quantos ousam divergir? E por que não ousam? Na melhor das hipóteses porque, simplesmente, respiraram algumas “verdades sacralizadas” durante a vida inteira através da família, da escola, da mídia. Ademais, quem arriscaria abrir mão dos privilégios conquistados?

O povo quer – queremos! – beleza, conforto, segurança! Só um néscio diria o contrário. Mas distribuídos com equidade por toda a pólis. Temo, entretanto, que o prefeito Neto incline o prato da balança para  os já contemplados por melhores condições econômicas. O mesmo digo para o governador Rui Costa.

Recentemente, tive a impressão de estar no Central Park de NY, conforme a TV costuma mostrar, quando caminhava pela praça Ana Maria Magalhães, na Pituba. Casais, crianças e idosos se esbaldavam pelo gramado lendo, brincando, rindo, curtindo o sol pródigo das terras de cá. Até  toalhas estendidas e cestas de piquenique eu vi… O detalhe é que havia um carro da polícia nas proximidades, que de longe me pareceu dotado de aparelhagens especiais para prestar primeiros socorros. E tudo com muita discrição…

A pergunta que me ocorreu, naquele momento, foi sobre se os cuidados com os cidadãos de bairros ditos “populares” também estavam ocorrendo em todo o município. Se faziam parte do rol dos cuidados que os executivos do Município e do Estado destinavam a todos os baianos, sem distinção de cor e renda…

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Somos seres estéticos, ainda que as nossas referências estéticas distintas não nos façam apreciar as mesmas manifestações artísticas. Como ser estético, não aprecio a forma como as habitações trepadas nos morros se encontram. Sei o quanto as boas soluções arquitetônicas poderiam interferir nessas paisagens urbanas. Arquitetura e tecnologia poderiam fazer a diferença, trazendo beleza e estabilidade ao solo. Consequentemente, segurança aos moradores dos locais íngremes, além do acesso menos sofrido para a população.

patópolis 2016

Numa postagem no Facebook, sugeriram que Salvador só tem pato…

Por que esta preocupação com as casas das encostas nunca consta nos planos mirabolantes que os políticos têm para nossa cidade? Por que os “não-lugares” para a maioria são sempre os contemplados pelos planos de urbanização? Por que é tão difícil que se tenha uma visão mais ampla dos limites da cidade? Por que o conceito de cidadania se estende a tão poucos?

Perguntas, perguntas, perguntas!…

Mas nada disso me é estranho, humano que sou! Tudo isso nos é familiar, humanos que somos!

red river 2016

Noutra postagem do Facebook, asseguraram que o prefeito de Salvador está feliz como “pinto no lixo”, pois são muitas as fontes de receita…

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