O Golpe dos Desesperados

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correia de transmissão 2016.

Prof. Dr. Itamar Ferreira (*)
UNICAMP

 

cap-engrenagem-g2.
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correu hoje uma Assembleia de Docentes da Adunicamp com a pauta básica referente à Campanha Salarial de 2016, ou seja, à avaliação da primeira reunião de negociação com o Cruesp e à discussão dos indicativos do Fórum das Seis (a pauta na íntegra encontra-se AQUI.
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Neste contexto foi apresentado, discutido e aprovado o dia 16 de maio como um “Dia de Luta e Mobilizações”, com ato unificado do Fórum das Seis em São Paulo, pois nesse dia haverá a segunda reunião de negociações do Fórum das Seis com o Cruesp. O Boletim do Fórum das Seis que trata desses assuntos encontra-se (AQUI).
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Entretanto, no final dessa Assembleia, quando inclusive as inscrições para fala já estavam encerradas, um docente do IFCH fez uma proposta de incluir na nossa deliberação “Não ao Golpe”. Tentei falar, mas fui impedido, inclusive como uma questão de ordem, para lembrá-los de que o Artigo 15 do Regimento da Adunicamp estabelece que: “A Assembléia Geral discute e delibera sobre os assuntos expressos no edital de convocação: 1º – a assembleia deverá aprovar a pauta excluindo ou incluindo itens; 2º – as deliberações tomadas fora da pauta serão nulas.” O Regimento da Adunicamp completo encontra-se (AQUI).
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Como o edital de convocação dessa Assembleia referia-se à Campanha Salarial 2016, como citado anteriormente, e o “Não ao Golpe” remete à Política Nacional, seria de bom tamanho e altamente recomendável que a discussão desse assunto fosse aprovada, para ser incluída na pauta, logo no início da Assembleia, o que não ocorreu. Entretanto, o desespero era tanto que a democracia foi atropelada. Não foi possível alertá-los, tamanho era o desespero, de que a Assembleia estava fazendo um ato nulo, como o próprio Regimento da Adunicamp estabelece, se evidentemente a diretoria da Adunicamp fosse minimamente imparcial e respeitasse o seu próprio Regimento. “Golpe de Desesperados” – como os fins justificam os meios – para incluir “Não ao Golpe”!
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Antes desse ”Golpe de Desesperados” alguns docentes fizeram o uso da palavra nessa Assembleia e disseram que esse assunto, da Política Nacional, era da maior importância e que, lógico, deveria ser discutido amplamente na Unicamp e na Sociedade como um todo, em função do momento político que o Brasil atravessa. Dada a importância do assunto, vários docentes indicaram no sentido da Diretoria da Adunicamp, após ampla discussão e debates, convocar uma Assembleia com pauta específica para discutir e deliberar sobre esse assunto. Incrível, o docente que fez a proposta que levou ao “Golpe dos Desesperados” fez, também nessa Assembleia, uma série de afirmações equivocadas, tendenciosas e levianas sobre o Andes-Sindicato Nacional e algumas organizações de esquerda. Ou seja, tudo e todos que não concordam com O Golpe dos Desesperados /Adunicamp, o seu slogan, de “Não ao Golpe”, devem ser duramente criticados, desacreditados e, pior, desmoralizados, na base de “os fins justificam os meios”. Que falta de ética!
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Como estamos às portas das eleições para a Diretoria do Andes-SN, que ocorrerão nos dias 10 e 11 de maio, as afirmações sobre o Andes-SN, feitas pelo docente do IFCH na Assembleia, impulsionou-me a escrever esse artigo. É importante lembrar que o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior – ANDES-SN é constituído de mais de 70 Seções Sindicais sendo a Adunicamp uma dessas Seções Sindicais. É um dos maiores Sindicatos da América Latina, com mais de 70 mil sindicalizados de um universo de 4,838 milhões de sindicalizados no Brasil, o que representa aproximadamente 1,5% do total de sindicalizados.
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O Andes-SN não “flutua em função de ventos de interesses de partidos políticos, governos, centrais sindicais etc”. Ou melhor, possui autonomia plena, pelo menos com o grupo político que o dirige. Lembrando, em 2003, por ocasião da Reforma da Previdência do Governo Lula, o Andes-SN, que era um sindicato da base da CUT (Central Única dos box 1a.jpgTrabalhadores), teve um grande embate com a Diretoria dessa Central, pois a CUT funcionou e vem funcionando, como correia de transmissão de decisões dos governos petistas. O Sr. Luiz Marinho, que era Presidente da CUT, foi içado à condição de Ministro da Previdência Social do Governo Lula, em 2007, pelos “bons serviços prestados ao Governo Lula” na condição de Presidente da CUT. Os resultados dessa Reforma da Previdência, enfiada “goela abaixo” da classe trabalhadora e, principalmente, dos professores universitários, com a ajuda da CUT, materializada na Proposta de Emenda Constitucional nº 40 (PEC-40), promulgada em 19 de dezembro de 2003, retirou o caráter público e universal do sistema previdenciário, aprofundando uma lógica privatista, em benefício do capital e dos fundos de pensão. Esse embate com a CUT, somado a uma série de outros não menos importantes, levou o Andes-SN a aprovar, no início de 2005, no seu 24º Congresso, em Curitiba, a desfiliação da CUT. Prevaleceu a autonomia do Andes-SN!
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Atualmente, com relação à grave crise política que vivemos, “temperada” com gravíssimas
denúncias de corrupção, o Andes-SN, no seu último Congresso, entre 25 e 30 de janeiro de 2016, também em Curitiba, com 356 delegados, 74 observadores, 33 diretores (do Andes-SN) e 6 convidados, dedicou uma boa parte do tempo para debater essa crise política. A Carta de Curitiba, de autoria da Diretoria do Andes-SN, resume os principais pontos debatidos ao longo do congresso. Nesse contexto essa carta deixa claro que: Diante de um aprofundamento cada vez maior da privatização e da mercantilização do ensino, da pesquisa e da extensão, dos serviços sociais em geral, bem como do ataque aos direitos sociais e trabalhistas, os participantes do 35º CONGRESSO deliberam, como centralidade da luta, a “Defesa do caráter público, laico, democrático, gratuito e de qualidade da educação, da valorização do trabalho docente, dos serviços públicos e do direito dos trabalhadores, com intensificação do trabalho de base e fortalecimento da unidade classista com o movimento sindical, estudantil e popular, na construção do projeto da classe trabalhadora”.
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 A íntegra dessa carta encontra-se (AQUI). É interessante lembrar que haviam várias teses nesse último congresso do Andes-SN, algumas inclusive de petistas, que foram derrotadas democraticamente, com muita discussão e sem desespero. Os Cadernos de Textos desse congresso, disponíveis no Portal do Andes-SN, comprovam esse caráter plural e democrático do Andes-SN – (AQUI).
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Como esse professor do IFCH da Unicamp tentou desmoralizar o Andes-SN e algumas organizações de esquerda procurei me informar melhor sobre ele. Recorri à Plataforma Lattes do CNPq (AQUI). Verifiquei que ele é Professor Titular e possui uma significativa produção acadêmica sobre as relações de classe no capitalismo neoliberal no Brasil e na América Latina, com ênfase no marxismo. Em função disso, reservo-me o direito de finalizar este texto com algumas perguntas e uma reflexão:
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(a) Onde estava esse docente, teoricamente de esquerda e que agora defende desesperadamente o governo petista, na década de 1990, quando inclusive eu e vários amigos da Unicamp estávamos empenhados na campanha do Sr. Jacó Bittar a prefeito de Campinas pelo PT? Tínhamos um Núcleo de Docentes da Unicamp do PT, com uns vinte docentes, do qual eu era secretário e tesoureiro. Foi uma disputa árdua, mas conseguimos eleger o Sr. Jacó Bittar que, diga-se de passagem, é pai do Sr. Fernando Bittar e que segundo a PF e o MP é um dos donos do sítio em Atibaia frequentado pelo Ex-Presidente Lula e sua família. Lógico, na década de 90 o partido de plantão, no plano federal, era outro;
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(b) Por que o desespero? Não seria em função do governo petista ser de esquerda, tendo em vista que, infelizmente, ele decepcionou a esquerda, perdendo uma oportunidade histórica de promover um conjunto de reformas, de base, que de fato diminuiriam a gritante concentração de renda no Brasil. Pelo contrário, fizeram uma série de ações que maquiaram a realidade nacional, como, por exemplo, na área do ensino superior, a grande transferência de recursos públicos para a esfera privada com programas do tipo ProUni e FIES, com investimentos pífios nos ensinos fundamental e médio. Lembrando, o Sr Delfim Netto, um dos balaústres dos governos militares, que diga-se de passagem é (ou era, dada a atual deserção) o guru do Ex-Presidente Lula em economia, declarou, por ocasião dos 50 anos do golpe militar, que “… o descaso com a educação básica durante o regime militar foi um erro mortal”. Programas de formação universitária dos nossos jovens são importantíssimos, necessários e urgentes, mas predominantemente em instituições públicas – com investimentos significativos – e, lógico, simultaneamente “ressuscitando a educação básica”;
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(c) Por que o desespero com a CPI da UNE, criada pelo Ex-Presidente da Câmara dos Deputados, no apagar de sua gestão interrompida pelo STF recentemente? Lógico, esta CPI, como várias outras ações do Congresso Nacional, são tendenciosas, antidemocráticas e, pior, antipopulares. Lembrando, quem não deve não teme;
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(d) Por que esse desespero com a queda do governo petista? É legítimo lutar pela manutenção de vantagens, ou até cargos, conseguidas “por indicações políticas”. Lutarbox 2a sim, mas não manobrar, com golpes sujos, pois quem tem competência não depende de governos e muito menos de indicações políticas. É ilegítimo, evidentemente, lutar para evitar investigações de toda e qualquer natureza. Lembrando que, com relação a barrar investigações e já que estamos falando de golpes, quem de fato deu o “Golpe de Misericórdia” foi o Quase-Ex-Senador Petista Sr. Delcídio do Amaral.
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Para encerrar coloco a seguinte reflexão: os governos petistas se prestaram ao serviço de proporcionar, como prato principal, a desmoralização da esquerda – sem dúvida nos planos nacional e internacional, pois, lembrando, “ele é o cara” – e, como sobremesa, a entrega da Petrobrás e das nossas reservas de petróleo do Pré-sal ao grande Capital Internacional
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(*) Aposentado da Faculdade de Engenharia Mecânica da UNICAMP
Consultor em Engenharia Mecânica / Análise de Falhas e Professor do UNIFAE
Adunicamp, 05 de maio de 2016
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