Carta ao Reitor da UFBA

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Sr. Reitor,

cap-v.

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osso reitorado tem se caracterizado por enfrentar questões complexas a exemplo do corte de recursos para as IFEs e por promover eventos de grande porte que buscaram reunir a comunidade da UFBA para refletir sobre problemáticas que atingem não só a universidade como também a sociedade, especialmente nos dois últimos anos.

A presente missiva objetiva colocá-lo a par de aspecto relativo ao ensino na universidade, com base em nossa experiência e, evidente, sob nossa limitada ótica. Objetiva também e, em decorrência, sugerir que, em diálogo com as instâncias inferiores e superiores da instituição, promova no ano de 2017, um MUTIRÃO pela QUALIDADE DO ENSINO NA UFBA que se inicie com reuniões nos Departamentos, com professores e estudantes, em todas as unidades e culmine com um grande evento no final do ano. Que o ano de 2017 seja dedicado á avaliação dos processos de ensino-aprendizagem na graduação e na pós, analisando tanto os conteúdos trabalhados quanto as metodologias utilizadas. Que se realize pesquisa com os estudantes e professores sobre O QUE PENSAM SOBRE A QUALIDADE DO ENSINO.

Estou assustado! De um lado, por me imaginar (depois de anos de magistério) que sou incompetente para conduzir processos de ensino-aprendizagem. De outro, por identificar a crescente dificuldade dos estudantes, de diversas áreas, de lerem e interpretarem bibliografias, textos e, em decorrência, explicitarem o que entenderam, a compreensão global dos assuntos.

Nos processos de ensino-aprendizagem que desenvolvemos semestralmente busco trabalhar no sentido que os estudantes realizem esforço de entenderem as teorias dos autores estudados, que versam sobre a estrutura e funcionamento da sociedade capitalista em que vivemos, construindo formas de as explica-las. A proposta é que os estudantes sejam sujeitos do seu processo de aprendizagem, atuando o professor como facilitador e estimulador desse processo de formação criativo e crítico.

Para tal, desenvolve-se curso com base em metodologias participativas, problematizadora e da pesquisa, trabalhando-se os conteúdos  em diversas etapas: momentos de pesquisa e leitura em casa com base em orientações bibliográficas (tradicional); atividades de leitura em grupo, em sala; prioridade para que os alunos expliquem o leram/pesquisaram; exibição coletiva e problematização de vídeos; pesquisa e problematização de fatos do cotidiano etc.

Ou seja: processualmente, cumpre-se diversas etapas metodológicas de ensino-aprendizagem na perspectiva que os alunos se motivem com a temática, se envolvam no processo, despertem o desejo e a vontade de aprenderem o conhecimento sociológico e, fundamental, que construam o seu aprendizado.

A prática tem mostrado que, mesmo havendo envolvimento, persiste a imensa dificuldade dos estudantes entenderem, ampla e concretamente, a forma como os autores referenciais do curso de Introdução à Sociologia explicam a estrutura e funcionamento da sociedade, as relações dos  indivíduos com a sociedade entre outros fenômenos.

Exceção? Ponto fora da curva?

Infelizmente, a avaliação que vimos fazendo ao longo de anos (bem como depoimentos de colegas) é que a dificuldade dos estudantes lerem e interpretarem os textos que leram, apresentando a compreensão global dos assuntos, acontece com eles.

Ou seja: o fato que ocorre esse semestre não é uma exceção  mas algo que (parece?) passou a ser generalizado.

As observações mostram que:

1) poucos lêem completamente os textos selecionados e indicados. Depoimentos de estudantes indicam que adotam diversas estratégias de acordo com a programação do professor/disciplina. Entre outras, selecionam e priorizam a leitura nas disciplinas nas quais os professores fazem sistemáticas avaliações. Ou seja: só lêem para avaliação!

2) lêem e expressam o que leram de forma fragmentada, restringem-se e/ou fixando-se em pontos/aspectos dos textos que são reproduzidos mecanicamente em sala;

3) apresentam dificuldades não só de interpretação mas também para produzirem/realizarem relações entre temas/assuntos, entre a teoria e a realidade, exemplificaram com fatos da realidade, especialmente o cotidiano.

4) têm dificuldade de relações com o cotidiano, com o que está próximo. Em geral, buscam exemplos distantes, genéricos e

4) apresentam dificuldades em demonstrarem a compreensão global sobre determinado assunto. No caso da Introdução à Sociologia, de exprimirem o que entenderam das explicações de cada autor clássico. Enfim, apresentam dificuldade de responderem à questão básica: “como o autor X, Y, Z explica a estrutura e funcionamento da sociedade em que vivemos”? “Que relações existem entre a teoria e as diversas situações do cotidiano?”

Em síntese: têm compreensão parcial e fragmentada da teoria lida, não compreendendo as idéias e concepções dos autores, circunscrevendo-se e/ou limitando-se a aspectos de determinado “conteúdo”, a temas ou assuntos dentro do conjunto da teoria de cada clássico.

Mais preocupante: estudantes têm se mostrado passivos, submissos, aceitando calmamente os resultados de avaliações sem maiores reações, demonstrando não se importarem com os resultados, inclusive com a reprovação. Ou seja: não respondem nem à coerção!

Pressões para leitura através de avaliações escritas, atribuição de notas às atividades diversas não têm surtido o efeito que, supostamente, se espera.

Pontos em questão:

1)  esse é um problema, dificuldade e/ou incompetência desse docente?

2)  Esse é um problema/dificuldade generalizada dos docentes?

3)  essa é uma dificuldade específica da disciplina Introdução à Sociologia?

4)  Essa é uma dificuldade dos estudantes de diversos cursos, de diversos colegiados para os quais se ministra Introdução à Sociologia como os do BIs de Humanidades e de Artes, Economia, Biblioteconomia, Museologia, Nutrição, Geografia, Direito, História, Fonoaudiologia, Educação Física etc?

5)  Essa situação atinge também os estudantes de CISO?

6) essa é uma questão que ocorre devido à inadequação das metodologias, da proposta de ensino-aprendizagem ou

7) decorre de um tipo de processo que não prioriza os que os estudantes sejam sujeitos dos processos  de ensino-aprendizagem?

8) Qual a relação dessa situação que acontece no 3º grau, na universidade com a ensino médio e o básico? Há uma “bola de neve” que está explodindo na universidade?

9) Deve-se fazer de conta que nada acontece, que está tudo bem ou buscar desvelar e enfrentar essa problemática?

CRISE DO ENSINO?

Observamos ano a ano se agravar o problema da dificuldade de leitura e compreensão de textos por parte dos alunos, enfim, que se atinja os objetivos que é a apreensão dos conhecimentos das diversas áreas/campos.

As avaliações escritas demonstram a gravidade: dificuldades em redigir, erros de pontuação, concordância e, pior ainda, construções desconexas, frases inconclusas, sem nexo, com textos composto por sequência de assuntos fragmentados.

Intrigado com o fato temos consultado colegas de diversos cursos que têm reafirmado o fenômeno que, segundo depoimentos, também acontece na pós-graduação.

Esse assunto tem sido destacado em matérias jornalísticas que divulgaram estudos a exemplo da publicada no site Adminstradores (Veja AQUI), destacado abaixo:

Mais da metade dos estudantes universitários são analfabetos funcionais”. Redação, Administradores.com, 13 de março de 2014, às 16h30.

“Segundo pesquisa, quem encontra mais dificuldade ao ingressar no ensino superior são os alunos de escolas públicas que fazem faculdade particular.

Entre 2006 e 2010, um pesquisador da Universidade Católica de Basília realizou um estudo em seis cursos de quatro faculdades do Distrito Federal e concluiu que mais da metade dos alunos de instituições de ensino superior apresenta analfabetismo  funcional.

O levantamento avaliou a formação, modo de estudar, tempo de dedicação e características socioculturais de mais de 800 universitários e verificou que o problema vem desde o ensino fundamental.

Mais de 50% dos entrevistados não desenvolveram a habilidade de interpretação de texto, ou seja, eles possuem dificuldade de compreender desde publicações simples, como de revistas e jornais, a artigos acadêmicos.”

Segundo pesquisa do IBGE existem 30 milhões de analfabetos funcionais. Já estudo realizado pelo Instituto Paulo Montenegro indica que 75% dos brasileiros não sabem ler e escrever de modo satisfatório e pleno: (FOLHA e ESTADÃO)  e .

A grave situação é sintetizada na matéria da jornalista Karina Yamamoto publicada no UOL, em São Paulo, em 29/02/2016 05h00:

“No Brasil, apenas 8% têm plenas condições de compreender e se expressar131     

Foi isso mesmo que você leu no título: apenas 8% das pessoas em idade de trabalhar são consideradas plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. Ou seja, oito a cada grupo de cem indivíduos da população.

Eles estão no nível “proficiente”, o mais avançado de alfabetismo funcional em um índice chamado Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional).

Um indivíduo “proficiente” é capaz de compreender e elaborar textos de diferentes tipos, como mensagem (um e-mail), descrição (como um verbete da Wikipedia) ou argumentação (como os editoriais de jornal ou artigos de opinião), além de conseguir opinar sobre o posicionamento ou estilo do autor do texto.

Também é apto a interpretar tabelas e gráficos como a evolução da taxa de desocupação (veja que tipo de gráfico é nesta notícia) e compreende, por exemplo, que tendências aponta ou que projeções podem ser feitas a partir desses dados.

Outra competência que o “proficiente” tem é resolver situações (de diferentes tipos) sendo capaz de desenvolver planejamento, controle e elaboração.

Numa situação ideal, os estudantes que completam o ensino médio deveriam alcançar esse nível — no Brasil, o ensino médio completo corresponde a 12 anos de escolaridade.

A situação tem importância para a economia e geração de empregos.

Para a professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Ana Lúcia Guedes-Pinto, essa defasagem reflete as desigualdades socioeconômicas históricas no país e aponta para a necessidade de mais investimento na educação básica e pública.

“Ainda não atingimos [bons] níveis de alfabetismo”, diz a docente do departamento de ensino e práticas culturais da Faculdade de Educação. “[Os proficientes] ainda é um grupo muito pequeno, de elite”, completa Guedes-Pinto.

Há cinco níveis de alfabetismo funcional, segundo o relatório “Alfabetismo e o Mundo do Trabalho”: analfabeto (4%), rudimentar (23%), elementar (42%), intermediário (23%) e proficiente (8%). O grupo de analfabeto mais o de rudimentar são considerados analfabetos funcionais.

O estudo foi conduzido pelo IPM (Instituto Paulo Montenegro) e pela ONG Ação Educativa. No conjunto, foram entrevistadas 2002 pessoas entre 15 e 64 anos de idade, residentes em zonas urbanas e rurais de todas as regiões do país.”

Bem, e isso acontece em FFCH? Acontece em outros cursos da UFBA? Como tem sido enfrentado pelos professores? Que estratégias têm utilizado? Esse é um problema particular e individualizado dos professores ou é um problema institucional, público, social?

         Que relações tem esse suposto “problema de ensino” com o ensino médio, com o privilegiamento das atividades de pesquisa em detrimento do ensino-aprendizagem, da graduação?

Enfim, esse é um problema específico, localizado ou é algo generalizado na UFBA?

         Senhor Reitor,

espero que o assunto tenha relevância e densidade para ocupar a lotadíssima agenda de vossa senhoria.

Saudações universitárias,

Prof. Altino Bomfim de Oliveira Junior
Departamento de Sociologia/FFCH

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