Chauí, a Aula Magna e o Lattes

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Marilena-Chauí---Plataforma.

Menandro Ramos
FACED/UFBA
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O.

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s filósofos são aqueles seres detentores de neocórtex cerebral (a res cogitans cartesiana) que costumam examinar o mundo material, (res extensas) e seus eventos com mais frequência. É verdade que uns perscrutam, talvez, mais o examinável – ou até mesmo o inexaminável! -, do que outros, e até ganham um certo dinheirinho com isso, através de aulas,  palestras, vídeos, venda de livros ou coisa que o valha. Por mais estranho que possa parecer, isso também é nominado de força de trabalho. Entenda-se synapsis laborens!

Como todo homem (e mulher!), o filósofo guarda suas contradições no seu lidar com o mundo, assegurando a validade do silogismo:

Todo homem é contraditório.
João é homem.
Logo, João é contraditório
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Porém, que o leitor e leitora não se assustem, pois isto não é uma aula de Lógica Formal, mas tão somente uma forma de iniciar um papo sobre Marilena Chauí que é mulher, filósofa e contraditória. Sobretudo, uma res cogitans com bons momentos de lucidez. Momentos sem os quais a ilustre não estaria neste Blog, aqui e agora, na contingencialidade do real, sob condições, portanto, de normalidade hipotética, de temperatura, pressão, além da base espaço-temporal e do movimento do real. Evidentemente que incluindo nisso tudo os conceitos de átomo, vácuo e linguagem em permanente instabilidade referencial.

Marilena Chauí foi lúcida, a meu ver modestíssimo, quando escreveu seus livros mais conhecidos – a começar por aquele adotado no ensino médio, e cobiçado pelos editores, que versa sobre os prolegômenos da Filosofia . Através de sua obra, ensinou e influenciou inúmeras gerações. Ao longo de sua vida acadêmica, fez admiradores e críticos ferozes. Eu poderia me incluir na lista dos primeiros, e incluiria Olavo de Carvalho, entre outros, na lista dos segundos. Soube até que o atual reitor da UFBA, tempos atrás, estava na lista dos críticos das suas obras. Atualmente, talvez, não mais, pois nenhum homem se banha duas vezes no mesmo lago por razões diversas… De qualquer forma, os filósofos profissionais são sempre exigentes. E exegetas, claro. Entretanto, eu, o Saci, a Vaca Tatá e outros tantos que envergamos com mais profundidade o senso comum, somos mais complacentes, tolerantes. Até porque não temos a fina matéria prima da crítica capaz de examinar com acuidade científica e filosófica as nervuras do real…

Vejo competência em Chauí quando ela teorizou sobre o PT de antanho. Ao contrário, a meu juízo, perdeu a medida do óleo clarividente todas as vezes que tentou ungir e sacralizar o Sr. Luiz Inácio em inúmeras de suas fábulas. Prefiro nem mencionar a pantomima sui generis que assisti, em vídeo, da ilustre filósofa sobre a classe média, debaixo do olhar cúmplice do ex-presidente e ex-metalúrgico. Justifico o infeliz espetáculo considerando que há dias que acordamos com gosto de banco velho de igreja na boca. Chico Buarque descreveu bem esses dias de qualquer mortal: Tem dias que a gente se sente/Como quem partiu ou morreu/A gente estancou de repente/Ou foi o mundo então que cresceu/A gente quer ter voz ativa/No nosso destino mandar/Mas eis que chega a roda-viva/E carrega o destino pra lá.

Confesso que nos últimos tempos estive com o pé atrás em relação à insigne filósofa paulista, mas eis senão quando ela me surpreende com umas belas conjuminâncias na sua Aula Magna proferida na USP: “Fuvest e Lattes são a prova da estupidez brasileira”.

Prazam os céus que a UFBA assuma também o protagonismo dessa luta contra o discurso produtivista maroto, já que houve um grande estardalhaço do marketing de apoio de Chauí à campanha do Prof. João Salles para reitor da UFBA.

Até o meu amigo Saci, que durantes semanas se encontrava prostrado numa espécie de “torpor cético com as coisas do mundo dos homens e das mulheres”, segundo seu auto-diagnóstico, saltou meio eufórico da sua cadeira de três pernas quando eu li para ele a matéria sobre a referida Aula Magna chauiniana. Depois de me pedir para preparar-lhe um suco gelado de limão com sementes de girassol, sua bebida predileta, escancarou a janela para saudar a Primavera e sussurrou-me quase encabulado:

– Chefia, já começo a ter esperanças no reitorado que desponta!…

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Aula magna de Marilena Chauí
desvenda “Universidade Operacional”

“É um crime o currículo Lattes”, diz Marilena Chauí
Postado em 3 de setembro de 2014 & arquivado em Notícias, Outros.

13/08/2014 – A universidade brasileira submeteu-se à ideologia neoliberal da sociedade de mercado, ou “sociedade administrada” (Escola de Frankfurt), que transforma direitos sociais, inclusive educação, em serviços; concebe a universidade como prestadora de serviços; e confere à autonomia universitária o sentido de gerenciamento empresarial da instituição.

Em repetidas manifestações, o reitor da USP revela seu “lugar de fala”, sua afinação com esse ideário, ao recorrer ao vocabulário neoliberal utilizado para pensar o trabalho universitário, que inclui expressões como “qualidade universitária” (definida como competência e excelência e medida pela “produtividade”) e “avaliação universitária”. Foi o que sustentou a professora Marilena Chauí ao proferir sua Aula Magna sobre o tema “Contra a Universidade Operacional”, em 8/8, que lotou com centenas de pessoas o auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP).

Nesse contexto, a USP, como suas congêneres, transformou-se numa “fábrica de produzir diplomas, teses”, tendo como parâmetros os critérios da produtividade: quantidade, tempo, custo. “Esse horror do currículo Lattes. É um crime o currículo Lattes! Porque ele não quer dizer nada. Eu me recuso a avaliar alguém pelo Lattes!”, disse Marilena. As frases fortes mereceram da plateia aplausos entusiasmados.

“Vejo as pessoas desesperadas porque perderam 7 ou ganharam 7 da Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior]. Não significa nada. ‘Quero ser 7 porque Porto Alegre é 7’. A gente incorporou a competição pelas organizações, pela eficácia”, destacou Marilena. Mais tarde, acrescentou: “Fuvest e Lattes são a prova da estupidez brasileira”.

Fragmentação

Na sua exposição de uma hora, a professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) esmiuçou o processo por meio do qual a universidade pública brasileira vem sendo transformada e descaracterizada, desde os anos 1970, deixando de ser uma instituição social para tornar-se uma organização, isto é, “uma entidade isolada cujo sucesso e cuja eficácia se medem em termos da gestão de recursos e estratégias de desempenho e cuja articulação com as demais se dá por meio da competição”.

A “universidade operacional” corresponde à etapa atual desse processo, segundo Marilena. De acordo com ela, “a forma atual de capitalismo se caracteriza pela fragmentação de todas as esferas da vida social, partindo da fragmentação da produção, da dispersão espacial e temporal do trabalho, da destruição dos referenciais que balizavam a identidade de classe e as formas da luta de classes”. A passagem da universidade da condição de instituição social (pautada pela sociedade e por uma aspiração à universalidade) à de organização insere-se, diz Marilena, “nessa mudança geral da sociedade, sob os efeitos da nova forma do capital, e no Brasil ocorreu em três etapas sucessivas, também acompanhando as sucessivas mudanças do capital”.

Na primeira etapa (anos 1970, “milagre econômico”), a universidade tornou-se “funcional”, voltada para o mercado de trabalho, sendo “prêmio de consolação que a ditadura ofereceu à sua base de sustentação politico-ideológica, isto é, à classe média despojada de poder”; na segunda etapa (anos 1980), passou a ser “universidade de resultados”, com a introdução da ideia de parceria com as empresas privadas; a terceira etapa (anos 1990 aos dias de hoje), em que virou “universidade operacional”, marca o predomínio da forma organização, “regida por contratos de gestão, avaliada por índices de produtividade, calculada para ser flexível”, estruturada por estratégias e programas de eficácia organizacional e “por normas e padrões inteiramente alheios ao conhecimento e à formação intelectual”.

A tecnocracia associada a esse modelo, explicou, “é aquela prática que julga ser possível dirigir a universidade segundo as mesmas normas e os mesmos critérios com que se administra uma montadora ou um supermercado”. De modo que se administra “USP, Volks, Walmart, Vale do Rio Doce, tudo da mesma maneira, porque tudo se equivale”.

Metamorfose

“A metamorfose da universidade pública em organização tem sido o escopo principal do governo do Estado de São Paulo”, denunciou Marilena. Ela argumentou que a reforma do Estado adotada pelo governo FCH (1995-2002) e efetivada pelos governos estaduais do PSDB, particularmente o de São Paulo, pautaram-se pela articulação com o ideario neoliberal (Estado mínimo, privatização dos direitos sociais) e, no caso do ensino superior, realizaram a agenda de mudanças preconizada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a reestruturação das universidades da América Latina e Caribe, em 1996, e baseada na redução das dotações orçamentárias públicas às instituições de ensino superior.

“Penso que a expressão perfeita dos desígnios do governo do Estado e do BID se encontra na carta enviada pelo reitor da USP aos docentes em 21 de julho de 2014”, afirmou a professora. “Sei que se tem debatido a falsidade dos números apresentados por ele, a manipulação. A carta me interessa pelo vocabulário que ele usa. Ele começa a carta se referindo a nós como o custeio. Somos o custeio, não somos o esteio da Universidade. A partir daí já está tudo dito. Ele não começa pelas obras que foram feitas sem necessidade, pelo esparramamento da USP pela cidade. Não. Ele começa por nós”, enfatizou.

“O reitor não está usando essa linguagem porque caiu de paraquedas no mundo e equivocadamente fala nessa linguagem. Ele tem uma concepção de universidade, uma concepção política, uma concepção do conhecimento, uma concepção do saber. Minha fala vai na direção de localizar o que é que tornou possível a um reitor da USP dizer as coisas que ele diz”.

Ao longo da leitura do texto que preparou para a ocasião, Marilena fugiu do roteiro para fazer comentários bem-humorados e sarcásticos que provocavam gargalhadas ou fortes aplausos do auditório. “O PSDB é o filho revoltado do MDB. Eles estão aí há 30 anos! Eu quero alternância de governo”, disse, ao comentar conversa que manteve com um grupo de jovens.

A Aula Magna foi coordenada pelo professor João Zanetic (IF) e pela professora Priscila Figueiredo (FFLCH), que mediaram intervenções e perguntas de participantes à professora Marilena Chauí.

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Fonte: AQUI

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Em 2011, só pra recordar,  este Blog já publicava a postagem “Plataforma Lattes“, sobre a vitrine do brilhoso repositório.

Para o Saci, não tem mais-mais: no absolutismo acadêmico produtivista esclarecido, quem tem mais, vale muito mais… (clique na arte para melhor visualizá-la)

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Outra postagens com temas afins:

Que Lattes!

Plataforma Lattes

Lattes: registro ímpar ou marketing pilantra?

Chuva de aposentados compulsórios

A UFBA produtivista em questão

UFBA: Subserviência à Capes?

 

Uma resposta to “Chauí, a Aula Magna e o Lattes”

  1. Samuel Says:

    Mais um PTista falando mal do governo PT! Esse partido está no 4º mandato consecutivo e, BLABLABLA!! Eu odeio a classe Chauí !!!!

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