Dez anos sem Felippe Serpa

Felippe-Serpa

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Menandro Ramos
Prof. da FACED/UFBA

P.

arece que foi ontem. Ainda ouço a voz do Prof. Nelson Pretto, na época diretor da  Faculdade de Educação, me falando por telefone que o nosso Pajé havia partido no início da madrugada. Não podia ser, pensei. Certamente, eu entendera mal. Na tarde do dia anterior, após a aula da disciplina Universidade, Nação e Solidariedade, por ele ministrada, me convidara para comer um acarajé no Rio Vermelho, juntamente com alguns colegas e alunos.  Eu não pudera ir em virtude de ter assumido, anteriormente, um compromisso para o mesmo horário.

Por muito tempo, seus parceiros de bate-papos e longas conversas ficamos desnorteados com a partida brusca do nosso Pajé, aos 68 anos. Parecia que a universidade havia ficado banalizada. Previsível. Sem ninguém mais para nos fazer provocações, para nos desafiar intelectualmente. Felippe era uma espécie de saci arteiro, sempre a nos cutucar com as suas tiradas provocativas. De um jeito manso e irônico, tanto ele ria dos poderosos quanto os ouvia com atenção para sustentar o bom diálogo.

Felippe cria na possibilidade de construção de uma universidade diferente do modelo vigente. Do “universo caótico e dissipativo”, ele aventava sempre a possibilidade de precipitação de uma universidade em perfeita sintonia com os interesses da maioria da população e bem diferente de uma astuta “Universidade Nova” marqueteira, com fins cinicamente eleitoreiros.

Para ele, a universitas tinha uma “vocação” libertadora e libertária. Mesmo sabendo da origem elitista da universidade lá pelo século XII, tendo no seu nascedouro, sobretudo, a participação de jovens que desfrutavam  das benesses do poder econômico, ainda assim, dialeticamente, ele acreditava na possibilidade da invenção de um espaço resistente e criativodiferente  do existente, mantenedor por excelência dos privilégios da classe dominante -, a ser transformado na instância da crítica e da transgressão, comprometido com a criação de valores humanitários e em benefício da vida.

Inúmeras vezes tive a oportunidade de dialogar com Felippe  sobre tudo o que as universidades do mundo vinham construindo em favor da manutenção do capital. Rios de dinheiro público eram investidos em pesquisas produtivistas que, ao fim e ao cabo, só tinha um beneficiário: o segmento endinheirado da sociedade, em detrimento dos trabalhadores que produziam as riquezas. Falei-lhe diversas vezes sobre a multimilionária indústria farmacêutica globalizada, que se valia das pesquisas acadêmicas para tornar a doença lucrativa; sobre a indústria de armamentos cada vez mais letais para a humanidade; sobre a sofisticação tecnológica objetivando a superprodução e armazenamento de alimentos com vista na acumulação de poucos, enquanto milhões de seres humanos, pelo planeta afora, morriam de fome e de desnutrição.

Ao perguntar-lhe, certa vez, sobre a utilidade do conhecimento que as universidades do mundo vinham produzindo, uma vez que a maioria da população só tinha acesso a insignificantes migalhas do que era produzido, serenamente ele me falou de uma outra universidade que era real, diferente da hegemônica, e que vinha sendo tecida sem alarde, silenciosamente, pelas salas de aula, pelos corredores, pelos pátios, pelas cantinas e pelas bordas dos milhares de campi existentes no planeta, enfim. Para ele, aquilo tudo era a sementinha da insurgência – mesmo que absurdamente lenta! -, era a possibilidade de novas precipitações futuras. Se houvesse sol, se houvesse água e terreno adubado com um bom esterco, por certo uma árvore frondosa dali nasceria…

Felippe era um homem de diálogo. Como dirigente da UFBA, ele sempre procurou o melhor para a instituição, sem guardar  ressentimentos de quem quer que fosse, e pensando sempre na res publica.

Ainda como reitor, soube que o extinto Grupo Econômico pretendia se desfazer das tralhas de uma cozinha industrial de sua propriedade, usadas no restaurante  da empresa, e destinado a prover as refeições de seus funcionários. Felippe procurou o então presidente Ângelo Calmon. Apresentou-se como candidato ao material em vias de descarte. Queria destiná-lo ao restaurante da UFBA (que funcionava onde hoje é a FACOM, espaço lamentavelmente tomado dos estudantes…). Prontamente, o Sr. Ângelo Calmon o desaconselhou em adquiri-lo. Sugeriu, então, que o reitor fizesse como ele próprio fizera. Em lugar da consumição com a trabalheira de um restaurante, era bem melhor distribuir tickets aos alunos. E eles que se virassem sozinhos buscando os restaurantes ou cantinas que melhor lhes aprouvessem. Educadamente, recusando mais um expediente da terceirização doutrinada pelo catecismo neoliberal,  Felippe foi incisivo: Doutor Ângelo, um restaurante universitário  não é apenas um lugar onde se alimenta de comida…

Segundo o próprio Fellipe, ele tinha tudo para não ser um dirigente universitário: não era politiqueiro, não cursou mestrado ou doutorado e nunca tinha sido diretor de Unidade de ensino. Os caprichos dos deuses, entretanto, o fizeram reitor. E o reitor mais democrático que a UFBA  conheceu. Quando deixou a Reitoria foi aclamado por centenas de alunos num evento no Pelourinho. Poucos dirigentes teriam essa alegria de ter espontaneamente o reconhecimento da comunidade estudantil.

Seguindo o seu destino “torto-bissexto” e nada previsível, ao deixar a Reitoria, Felippe foi convidado para compor uma chapa progressista que concorria à direção da APUB. Topou a parada e foi eleito. Diferente de muitos que fizeram e fazem da instância sindical trampolim de suas vaidades e ambições de poder, ele percorreu o caminho oposto, pois acreditava na luta organizada dos trabalhadores.

Talvez, um dos projetos que mais agradou Felippe foi exatamente o último, desenvolvido com a comunidade do Iguape. Através de órgão estatal de financiamento, conseguiu tocar uma velha ideia de construir um barco para a comunidade do Paraguaçu, próxima da cidade baiana de Cachoeira. Todo o processo de construção do pequeno barco foi marcado por lições de democracia e respeito pela cultura local. O mestre construtor escolhido foi um homem do povo com vasta experiência em navegação fluvial. Felippe se empenhou em fazer com que os jovens daquela localidade não deixassem morrer uma tradição rica e útil, sobretudo para os que viviam de atividades pesqueiras. Foram memoráveis as lições de convivência aprendidas pelos moradores, pelos alunos e docentes que participaram do projeto. Minha modesta participação nele permitiu-me fazer este pequeno registro de memória.

Uma década depois, exatamente no mesmo horário em que recebi a triste notícia dada pelo Prof. Nelson Pretto, minha mente é instada a homenageá-lo por conta própria, independente de associar-me a outras homenagens que porventura a UFBA venha a prestar-lhe. Não apenas por uma mera data assinalada numa “folhinha” da lembrança, mas por quem ele se tornou para seus amigos, para alunos mais próximos e para a própria instituição que dirigiu.

Felippe Serpa foi um democrata. No melhor sentido que a palavra comporta. Ele não podia compreender as melhores soluções para os problemas da polis sem passar pelas instâncias colegiadas e coletivas. Qual o também admirável Mestre Paulo Freire, Felippe acreditava honestamente que ninguém educa ninguém, que ninguém educa a si mesmo, mas que os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.

A data da saída de cena do nosso Pajé, como era carinhosamente chamado por alguns de seus alunos e amigos mais íntimos, não podia ser melhor escolhida: Dia 15 de novembro, data em que o calendário cívico brasileiro comemora a Proclamação da República. Res publica essa que ainda não chegou para o bico da maioria dos ditos “cidadadãos” brasileiros – sem saúde, sem  educação, sem segurança, sem esperança – em busca eterna pela tão cobiçada dignidade humana!

Coincidentemente, a última aula de Felippe, na véspera de sua partida, foi justamente para militantes e representantes de moradoras da Ladeira da Montanha, lideranças da Associação das Empregadas Doméstica e militantes do Movimento dos Sem-Teto. Contando também, claro, com a presença dos seus alunos regulares da UFBA. Nessa aula, o saudoso mestre recomendou aos trabalhadores presentes que não confiassem exageradamente na ajuda das instituições burguesas. Que passassem a confiar mais na força do instituinte solidário…

Se ainda estivesse conosco, por certo, o saudoso Pajé muito assunto teria para prosear em sala de aula. Sobretudo, comentando a respeito do Brasil do Mensalão de  Zé Dirceu e do Brasil da Esperança de Joaquim Barbosa.


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9 Respostas to “Dez anos sem Felippe Serpa”

  1. Idalice Santos Says:

    Professor… saudade, mas uma lembrança boa. Excelente texto para falar de um Homem, que palavras não conseguem descrever.

  2. Telma Says:

    Melhor homenagem o Saci não poderia registrar neste dia. Parabéns Mena pelo texto. Bjs

  3. Alzira Ferreira Says:

    Meu querido professor! Saudades! Que texto lindo! Quando crescer quero escrever assim, com paixão e sentimento… Rssss

    Queria ter conhecido o Prof. Felipe Serpa. O Sr. sempre falou tão bem dele. Acho que ele tinha muita coisa mesmo do grande Paulo Freire. Acho que eram da mesma escola…
    Grande beijo.

  4. Nelson Pretto Says:

    saudade, Pajé… vc faz falta! Sempre bom lembrar a data, Menandro.

  5. Francisco Santana Says:

    Felipe Serpa era busca e esperança.

    Ele não se fixou na Bahia por falta de opções acadêmicas. Se ele não ficasse na Bahia provavelmente já nos anos sessenta teria o seu doutorado em física por um desses centros de excelência como, Stanford, Harvard ou outros da Europa.

    Ele escolheu a Bahia, assim como o seu colega Valdez, enquanto outros mais jovens e baianos preferiram emigrar para cumprir os seus sonhos de físicos, porque viu na UFBA de então o espírito de Universidade que já estava morrendo nas do Sul Maravilha.

    Ele portanto pertenceu a outra UFBA, que morreu com ele (parodiando Camões).

    Ele era uma flor que não sobreviveria na UFBA de hoje construída com palácios de concreto nu sem alma.

    F. SAntana

  6. osaciperere Says:

    Alguns comentários que rolaram na rede:
    —————————————–

    Se bem recordo, pela primeira vez, tenho algo a concordar com o colega Menandro Ramos.
    De fato Felippe Serpa é um nome a ser lembrado e para além dos muros da UFBA!
    Obrigado por recordar a data.

    marcos palacios

    ———————————————–
    Parabéns Menandro!

    Lindo texto. Homenagem mais que merecida.
    Claudemiro Neto
    Igeo-Ufba
    ———————————————–
    Menandro, caríssimo
    Agradeço a lembrança. Belíssimo texto. Fazem mesmo falta as análises e divagações de Felippe e sua sabedoria impar em tempos tão bicudos.
    Forte abraço
    Angelo
    ———————————————–
    Este homem brilhante e pessoa humaníssima foi meu orientador de doutorado, mas, acima de tudo, um amigo, um irmão, um amante da vida e da dignidade humana… Um consolo para nosso interior, um desbravador de novos horizontes, um santo, um douto santo.
    Arnaud Soares
    ———————————————–
    Saudades eternas
    Telma Brito Rocha
    ———————————————–
    Saudades de Felipe professor na Faced… Saudades de Felipe no Conselho!!! Como aprendi!!!!
    Anna Carolina Daltro Sampaio

    ———————————————–

    Saudade mesmo, Menandro.

    Abrs. com carinho

    Tereza Cristina Fagundes
    ———————————————–

    Caro Menandro,

    Na quarta passada, uma epifania me fez, numa aula sobre currículo, realçar as diferenças entre Bobitti, o inventor americano do currículo tecnoprodutivista e meu Professor Serpa, solo fecundo da ideia de uma Universidade Histórica e Cultural. Não sei porque, mas a aula toda foi por aí.
    Felicitações pela sensível homenagem!

    Abraço

    Roberto Sidnei Macedo
    FORMACCE – FACED | UFBA

    ———————————————–

  7. osaciperere Says:

    Recebemos muitas mensagens pelo post sobre o saudoso Prof. Felippe Serpa.

    Impressionou-nos, entretanto, o que disse o Prof. Francisco Santana. Os excertos abaixo, extraídos da sua postagem, resumiram bem quem foi o grande Mestre.

    “Felipe Serpa era busca e esperança.
    […] era uma flor que não sobreviveria na UFBA de hoje”.

    Não foi à-toa que seus amigos da Faculdade de Educação o denominaram de “Pajé”.

  8. Soraia Says:

    Bela homenagem a Felippe, embora não existam palavras para descrevê-lo. Ele orientava, desorientando, como só ele sabia fazer.
    Saudades, saudades, saudades…..

    Abs,

    Soraia Lôbo

  9. Roseli de Sá Says:

    Só li hoje, Mena, porque estava sem acessar esses dias, mas compartilho essa homenagem. No dia 15 me lembrei do que essa data representa pra quem conviveu com Felippe. Bela homenagem!

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