Dicas para os reitoráveis da UFBA

. candidatos-a-reitor

Vaca Tatá
Bovina baiana

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D (2)o meu pasto onde me refugio, fico só observando o mundo dos humanos, como quem não quer nada e sacando tudo. Nada como o anonimato… E é assim que, sem ser vista, tenho ouvido muitas conversas sobre os candidatos a reitor da UFBA. A meu ver, são pessoas muito distintas. Todos. Sem Exceção. Porém, como o fruto do cajueiro, mesmo os mais doces, ainda trazem consigo um pouquinho de pigarro. Por menor que seja.

Assim, à sombra do meu juazeiro preferido, enquanto rumino, vou ouvindo coisas sobre os postulantes à magnificência, e me delicio com os bem-te-vis que passeiam pelas minhas costas à procura de suculentos carrapatos. dirceu

É voz geral que alguém precisa esclarecer os reitoráveis sobre o que vem a ser o ANDES-SN e o que vem a ser o Proifes governista.  Como eles não são chegados a frequentar assembleias, pois são professores muito ocupados, não fazem a menor ideia do que é trigo e do que é joio.

Deles todos, incluindo os vices-candidatos, o único que ainda aparecia nas assembleias era o Prof. Dirceu. Mas isso muito antigamente. Depois que se tornou pró-reitor, escafedeu-se.

De modo que, se não forem esclarecidos a tempo, pode ser que alguma pergunta capciosa surja, durante os debates, do tipo: “Candidato, quem defende os interesses dos professores na esfera sindical e quem é porta-voz do governo?”. Como são todos muito simpáticos, alerto-os para que se informem um pouco sobre essas questões, mesmo reconhecendo que um debate não deva ser encarado como um “Enem” para os candidatos.

Eu jurei que não iria mais me meter com esses troços humanos, mas uma coisa me incomodou os cornos. Muito pior do que as antipáticas moscas que me aporrinham o tempo todo, e se tornam ainda mais insuportáveis em dias de chuva. É que, teoricamente, quase todos os candidatos –  se não todos! -,  concordam que a autonomia é uma das maiores preciosidades que se pode pensar para a Universidade Pública. Só que na prática a teoria é outra. O que se vê, são muitas universidades de joelho e de pires na mão, diante do governo, quando não se tornam aparelhos pirateados de partidos políticos. salles-1

Sei que muita gente torce a boca quando escrevo que a UFBA está ptficada, ou melhor, petrificada. Mas essa é a mais pura verdade. Talvez a maior prova disso tenha sido a concessão do título de doutor honoris causa ao ex-presidente Lula da Silva, pela UFBA, em 20 de setembro de 2011. A proposta foi uma iniciativa da Faculdade de Filosofia, nos idos de 2003. É bom ressaltar, entretanto,  que o Prof. João  Carlos Salles não pode ser responsabilizado pelo acerto ou desacerto da proposta. A responsabilidade foi de uma ex-diretora daquela Unidade.

A outra prova do prestígio do partido do governo nas entranhas da UFBA foi a vinda de Zé Dirceu, ex-chefe de gabinete de Lula,  em 2008, já encalacrado com a denúncia de ser um dos capos do mensalão, e, ainda assim, recebido com tapete vermelho pelas maiores otoridade acadêmicas da UFBA, do Consuni e do escambau. Cês pensam que memória bovina é café pequeno? Pois sim! pretto

Caso esses pequenos indícios da ptzação da UFBA não bastem como prova, poderei ainda lembrar aos esquecidos e esquecidas de algumas vontades palacianas implantadas na UFBA sem muita resistência por parte de quem de direito. Uma mais antiga, foi a implantação do Reuni; outra mais recente foi a aprovação da EBSERH. A primeira, aconteceu como num piscar de olhos, do tipo “vai ser bom não foi?”, conduzida pelo ilustre epidemiologista (não confundir com tratorista!) Naomar Almeida. Alguém ousou contestar da parte dos conselheiros do Consuni? Então não é! Uns dois ou três gatos pingados, apenas, o fizeram. No meio desses, o Prof. Nelson Pretto, então diretor da FACED – se minha memória não deu um bug –, que emendou os bigodes com o Pai da Universidade Nova. Em vão, porém. Aristóteles já dizia que “uma andorinha só não faz verão”. E não fez mesmo.

Ao contrário. Os questionamentos ao Reuni feitos pelo Prof. Pretto, na época diretor da FACED e membro do Conselho Universitário, a partir das demandas da Congregação da Unidade que dirigia, não só não fizeram verão, como ainda colocou a Faculdade de Educação no limbo das Unidades malditas, fortalecendo o dito de que “o silêncio vale ouro”. Ouro esse não recebido que atanazou a vida de seus diretores e diretoras daí para a frente.

Quem duvidar, que pergunte à Profa. Celi Taffarel, ex-diretora da FACED, e docente do Curso de Educação Física, o que ela conseguiu para o Centro de Esportes, administrado pela Faculdade de Educação, além de um belíssimo projeto no papel, colorido, encadernado com bom gosto e que dá prazer de ver. Pergunte a ela. Aliás, o próprio Curso de Educação Física, integrante dos cursos da FACED, está funcionando com menos de trinta docentes, segundo ela própria denunciou na última Assembleia da APUB. E olhe que a Profa. Taffarel dialoga bem com o partido do governo, pois não se desfez da velha estrela e ainda crê na miragem de a CUT centralizar, com autonomia, as energias dos trabalhadores para enfrentar o capital… Ficção à parte, o fato é que a FACED, até hoje, pena pela ousadia que teve em tecer críticas às imposições do Planalto, tendo por mensageiro o próprio reitor da UFBA, a qual deveria gozar de autonomia para discorrer criticamente sobre o PFPF (prato feito pífio e frio) que lhe obrigaram a ingerir.

Como é que uma bovina como eu tem acesso a essas informações? Ah! Meus amigos humanos! Hei de preservar sempre os meus contatos e minhas boas amizades!… Sem as quais eu já estaria nas câmaras de tortura da Friboi…

Trago esses senões aqui para que os candidatos se acautelem. Aos mais ingênuos, digo que o céu não está logo ali, como podem supor; aos que pensam que podem prometer impunemente o paraíso na academia – e o eleitor não perceber que é retórica chinfrim de campanha -, recomendo que voltem ao Jardim de Infância de onde nunca deveriam ter saído.

Se fosse dado o direito ou a oportunidade a uma simples bovina de proferir uma oração aos moços universitários, recomendar-lhes-ia continuar pensando na Universidade como um Templo do Saber, sim, mas um templo demasiadamente humano, sujeito a vaidades, inveja, maucaratismo, oportunismo, “injustismo” e tantos outros ismos

Como tudo que povoa o real, a contradição está presente também nos sacrossantos campi acadêmicos, ontem, hoje e sempre. Se isso provoca uma grande angústia pela decepção, ao constatar que por baixos dos coloridos véus não há o corpo romanticamente idealizado, por outro lado é possível pensar que o vigor desse mesmo corpo só poderá existir pelo que se opõe à acomodação. Se a inércia esclerosa, a ação soergue!

Mas que fique bem claro que não é a ação atabalhoada, parcial, desequilibrada. O que seria do corpo do atleta, para ficar na metáfora corporal, se apenas os membros do lado direito – braço e perna –,  fossem  exercitados? O que seria da UFBA, só para ilustrar, se apenas o Instituto de Saúde Coletiva fosse dotado dos benefícios que a tecnologia faculta, e a Faculdade de Educação não dispusesse sequer de um simples elevador para assegurar a acessibilidade a todos que por lá transitam?

Que os reitoráveis pensem, pois, na UFBA, a Universitas baiana, como UNA, indivisível, constituída de unidades coesa e solidárias, espadachins e mosqueteiras da paz, nos moldes da ficção de Dumas: “um por todos e todos por um”. Caberia um anúncio nos jornais de grande circulação de Salvador: “Universidade Federal precisa, urgente, para admissão imediata, de um(a) reitor(a) que catalise ações benfazejas – Urbis et Orbi! – e faça confluir a solidariedade em direção ao bem comum”.

Claro que, de acordo com o próprio espírito da Universitas, uma universidade não pode ter olhos apenas para o seu próprio umbigo. É preciso que estreite os laços com a comunidade que a circunda, e vá muito além disso. É imprescindível que dialogue com o senso comum, com as religiões, com as culturas – hegemônicas ou não! –, com os partidos políticos, com o escambau.

Sobre os partidos políticos, é inevitável, e é até importante que a universidade dialogue com eles, mas que não ultrapasse o limite imposto pela autonomia acadêmica. Isso não. Isso nunca. Isso jamais. E que isso sirva de parâmetro para todos os candidatos.

Conforme tão bem colocou o candidato João Carlos Salles no I Debate entre os Reitoráveis, organizado pela Oposição APUB, na Faculdade de Arquitetura, no dia 10 de abril, de acordo com o que me relataram, “não se pode recusar apoios”. Em princípio, sim, mas ao fim e ao cabo não é bem assim. Sob pena de “unir-se aos porcos e banquetear-se dos farelos com eles”, segundo proclamam os humanos. Se é que esse ditado merece ser considerado. Vide a coligação PT, PCdoB, PMDB e demais pró-governistas, vide o Mensalão e a tal governabilidade.rogério-1

Vou debulhar melhor essa espiga. Ventos, vez ou outra, me trazem elogios acerca dos candidatos. Aqui, do meu pasto, não perco um só sussurro que a brisa traz da academia. Sempre há alguém exaltando as virtudes de um deles. E, diga-se de passagem, ressaltando os defeitos também.

As falas de todos os reitoráveis  no I Debate, segundo os ecos que a mim chegaram, não frustraram a expectativa do público presente. Claro que cada torcedor (do Bahia, do Vitória, do Ipiranga e do Galícia), vibrou mais quando o seu time marcou o gol… Até então tudo bem.

Só que aí surge um problema: se todos disseram mais ou menos o que o público demandava ouvir – todos condenaram a violência policial contra manifestantes que criticavam o exagero nos gastos com a Copa e outras manifestações justas, todos bradaram pela autonomia da universidade, pelo trabalho docente digno etc. – como escolher, então, um e somente um candidato? Como pinçar a diferença sutil que possa apontar para o melhor dos quatro? Oh, dúvida cruel!

Inevitavelmente, um outro elemento precisa ser tomado como auxiliar de investigação. Talvez o testemunhal possa pesar na balança. Que técnico-administrativos sejam ouvidos, que alunos sejam auscultados, que docentes prestem seus testemunhos. Mas que os testemunhos não sejam tomados como os únicos elemento balizadores, uma vez que, dialeticamente, “o pau que dá em  Chico, dá também em Francisco”, como pode confirmar o Prof. Santana… Eu explico.

box1Imagine que a presente eleição para a escolha do dirigente da UFBA estivesse ocorrendo há 50 anos, mutatis mutandis. Portanto, em plena ditadura militar; imagine se um dos candidatos tivesse o apoio declarado do general Golbery do Couto e Silva, teórico do movimento político-militar de 1964, por exemplo, ou de qualquer outro figurão ligado ao governo golpista; imagine, ainda, de lambuja, se um deputado da Arena também resolvesse manifestar o seu apoio ao mesmo candidato referendado pelo citado general. Agora, responda: que coloração ideológica o público poderia atribuir, por exercício da inferência, ao candidato que mereceu apoios tão carimbados, senão à coloração verde-oliva?

Dito isso, e concordando que não é elegante para o candidato virar para alguém e dizer “não quero o seu apoio”, talvez seja prudente não alardear a cortesia recebida e reafirmar vinte mil vezes o seu compromisso com a autonomia da Universidade agora, hoje, amanhã e sempre. Só assim o eleitor poderá ter um pouco mais de segurança e reduzir a probabilidade de cair em mais uma cilada.

Se esses modestos conselhos bovinos servirem para alguma coisa, que os reitoráveis – sem exceção! -, façam bom proveito deles, apesar do chavão que diz que água e conselhos só devem ser dados a quem pede.

2 Respostas to “Dicas para os reitoráveis da UFBA”

  1. Zé Veneno da Linha Verde Says:

    Por acaso saci, mutatis mutandis, Golbery é Marilena Chauí e o deputado da Arena é Emiliano José? KKK

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