E se Nelson Pretto tivesse levado?

B.

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O Saci, remexendo nos meus alfarrábios digitais, fez-me atravessar oito anos no túnel do tempo. Parece que foi ontem….

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Menandro Ramos
FACED/UFBA

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P.

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arece que foi ontem mesmo. Fechei o olhos e vi o Auditório II, da FACED, repleto de apoiadores da Campanha Nelson/Dirceu. Os dois professores constituíam, por assim dizer, a “oposição”. O segmento de eleitores mais à esquerda fechava com a dupla, segundo ouvíamos na época. Mas as urnas decidiram pelo Prof. Naomar Almeida. Aliás, pela segunda vez.

Aquela imagem que compunha o site dos candidatos, que eu ajudara a construir, chacoalhou com a cuca do meu amigo de gorro vermelho e pito:

– E se o Prof. Nelson Pretto tivesse levado aquela eleição, chefia?

Tentei corrigi-lo.

– Você quer dizer Prof. Nelson e o Prof. Dirceu…

– É que vice quase não apita… Veja se já apareceu alguém para ser candidato a vice… Apareceu?

Aquelas lembranças me remeteram a outras eleições e a outros eventos da UFBA. Na primeira vez, o Prof. Naomar tivera por adversária – também de “oposição”! -, a Profa. Nice Americano da Costa. Lembro-me da expressão de descontentamento do Prof. Felippe Serpa quando saiu o resultado da apuração. Esbravejou que aquilo acontecera por obra e graça de um certo partido de esquerda, coligado ao governo, que virara a casaca. Prometera, naquela ocasião, “que não queria mais conta com aquela gente”. Mas Felippe tinha o coração enorme…

Ninguém questionou o resultado das eleições. Os três segmentos da UFBA haviam escolhido o Prof. Naomar para dirigi-la. Há quem tenha asseverado que a escolha fora excelente. Também houve quem dissesse que a ciência perdeu um grande epidemiologista e que a troca fora injusta com a UFBA.  Os irônicos nunca descansam…

O fato é que pouco tempo depois lá estava o Prof. Felippe Serpa em Cachoeira, interior baiano, para a instalação da Universidade do Recôncavo. Fora convidado pelo reitor da UFBA para a solenidade. Acabei indo também com ele, para lhe fazer companhia. O Prof. Nelson Pretto, assim como eu, também havia sido convidado pelo Prof. Felippe, mas não pôde ou não quis ir. Após a fala do Prof. Naomar, o Prof. Felippe me segredou no ouvido: “Esse moço aprende muito rápido!” De fato, o Prof. Naomar aprendera depressa demais. Nem de longe lembrava aquele candidato nervoso e tenso que se apresentara para o debate no anfiteatro do Hospital das Clínicas, para o desespero dos seus auxiliares marketeiros… Sua palavra agora era firme, certeira.

Daí para frente, o reitor ganhou todas. Foi um grande vitorioso, e ninguém pode negar. Fez o que bem quis com a UFBA. Transformou-a num grande laboratório de suas ideias. Tornou-se seguro. Mesmo sem entender muito bem as ideias de Anísio Teixeira e Milton Santos, passou a citá-los com intimidade.

A partir de 2007, passou a comandar o Reuni em terras baianas. Quem o acompanhou mais de perto pôde testemunhar o quanto foi convincente nas suas proposições. Dizem seus desafetos que se transformou num exímio “tratorista”. De fato, com grande habilidade, empurrou por goela abaixo o Reuni e os penduricalhos que sua imaginação fértil engendrou A partir de então.

Disseminou-se, na época, a ideia da inexorabilidade do Reuni. “Era pegar ou largar”. A toque de caixa, o reitor da UFBA foi conseguindo aprovar tudo, sem a menor participação da comunidade, sem discussão, sem oposição. Inclusive o atual  Marco Legal da UFBA, que para alguns é “biônico”, uma vez que não foi discutido pela comunidade. No início, até houve o leve aceno da possibilidade de uma Estatuinte, mas tão logo sentiu o terreno firme a seu favor, buscou o caminho mais fácil. A APUB, a ASSUFBA e boa parte do segmento estudantil prestaram-lhe a mais respeitosa reverência. No caso da APUB, a submissão foi total e incondicional. Estava tudo dominado. E a UFBA quedou-se muda Aos pés do magnífico sedutor.

Ocorreu-me, então, pensar: E se a dupla Nelson/Dirceu tivesse levado a melhor? Teria a UFBA resistido ao Reuni? Teria, ao menos, discutido o dito cujo? Em caso da recusa da tal “reestruturação”, nos moldes em que estava sendo proposto pelo governo, como estaria hoje a nossa querida instituição? Melhor? Pior? Não posso deixar de lembrar das penúrias pelas quais a FACED passou, por ter sido uma das poucas Unidades a dizer não ao Reuni.

E aí vem aquela angústia de indagar, nas atuais circunstâncias, até que ponto é possível acreditar numa autonomia, de fato, para as IFES, uma vez que o próprio MEC está subordinado ao MPOG, e nada é feito sem o seu consentimento.  E o MPOG, por sua vez, segue prescrições vindas de além mar… Alguém já questionou se todo o processo eleitoral e o ritual de posse não seriam eventos de pura mis-en-scène para legitimar o engodo de uma “democracia burguesa”, cuja essência é o faz de conta…

Creio que até para os mais conservadores honestos o modelo suscita reflexões.

Não é à toa que já se fala numa outra forma mais avançada e mais democrática que destronaria a figura do Reitor e do Vice, que seria uma espécie de “Colegiado Tripartite” do qual além do representante docente, haveria também a presença do representante técnico-administrativo e da representação discente. Ainda que a discussão acerca do conceito de autonomia não fosse descartada. Nesse caso, a ANDIFES perderia a razão de ser e de participar de qualquer discussão. Para muito já perdeu o bonde da História  faz muito tempo…

Maluquice ou viagem insólita, o fato é que o real está em permanente movimento…

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