1086 – Festa e desabamento

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VIADUTO

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Igor Ramos

V.

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iva o país do futebol! Viva o país do carnaval! A nação tupiniquim está em festa!!! Depois de mais um jogo com uma atuação apática, um ataque inerte e invisível, dois gols de zagueiros, ambos de bolas paradas, contra um adversário que se apequenou diante do dono da casa e detentor de cinco títulos mundiais. Um adversário que possui o artilheiro da copa, mas não conseguiu chutar uma bola a gol. Um jogo onde o melhor jogador em campo eleito por uma cervejaria americana foi um zagueiro, uma partida após o melhor em campo ter sido o goleiro.

Mas tudo isso não importa! O que importa é que dentro dos 90 minutos o placar foi favorável à seleção da CBF por dois tentos a um. O que importa é que habemus pão! Habemus circo! Uma hora dessa os espaços destinados ao Fan Fest, por todas as capitais que sediam jogos estão apinhados de gente comemorando a qualificação da seleção brasileira para a próxima fase! Comemorando também mais um feriado, mais um dia de jogo, mais um dia de espetáculo circense!

Desta vez a mídia não consagrou o goleiro da seleção como herói nacional… Talvez porque dessa vez ele não tenha feito nenhuma… isso, nenhuma defesa! Teve duas participações no jogo… uma delas saiu desesperado do gol parecendo um caçador de borboletas e por sorte circunstancial o jogador colombiano estava na posição de impedimento e seu gol foi anulado. Em outra oportunidade de participar do jogo defendendo seu gol, cometeu um pênalti, sendo convertido em gol pelo artilheiro da copa.

Enfim… Tudo isso não importa. É apenas um chororô tentar justificar/explicar que a seleção brasileira jogou de forma tímida e apática, como tem feito em todos os jogos, e não merecia ganhar o jogo. Também não adianta querer falar que o Brasil ainda não pegou nenhum adversário de peso, nenhum adversário detentor de título mundial, jogando apenas contra adversários que chegam nos jogos como zebras, por mais que tenham bons times, adversários que se apequenam diante do dono da casa e pentacampeão mundial. Não adianta. Ganhou e ponto final. É festa! Festa no país da copa, no país do futebol, no país do carnaval.

Festa essa que, de repente, não mais que de repente, é silenciada pela notícia de que seu principal jogador, o Neymar Jr., teve uma fratura na 3ª vértebra da lombar e está fora do Mundial de 2014. Triste. Lamentável ao jovem garoto. Ai imediatamente as redes sociais pipocam com comparações com a mordida do jogador uruguaio. Mordida esta proposital e desleal. Por que comparar? A joelhada que ocasionou a fratura no jogador do Brasil foi um acidente de trabalho! Uma joelhada de um jogador que usou uma força desproporcional, sim, mas de um jogador que estava lutando pelo mesmo objetivo que a seleção brasileira lutou: Se qualificar para a próxima fase. Foi falta? Sim! Mas não vejo ato proposital do jogador colombiano. Não vejo vontade do jogador colombiano em machucar o Neymar Jr. Vejo um acontecimento possível em um esporte com tanto contato, tão perigoso e até mais violento que artes maciais. Vejo um acidente de trabalho.

Acidente de trabalho igualzinho ao acidente de trabalho ocorrido no estádio paulista. Não… Não tão igual assim… O acidente ocorrido no estádio paulista, durante suas obras de construção ceifou vidas, estancou sonhos e trouxe dor a famílias. Com certeza Neymar Jr. estará recuperado, jogando bola e proporcionando alegria aos seus familiares e torcedores muito antes da dor dos familiares das vítimas do estádio paulista serem amenizadas… E digo mais… será tudo muito rápido! Ele não precisa do SUS nem da previdência social!

box-viaduto-1Algumas horas depois do jogo começam a chover em redes sociais as notas de apoio e solidariedade ao jogador brasileiro machucado. Notas de fãs, notas de artistas, notas de outros jogadores. Todos muito solidários e carinhosos. Deveras comovente! Não vou mentir, ao menos dos jogadores mineiros, esperava mais. Esperava solidariedade equivalente às famílias das vítimas do viaduto da copa de Belo Horizonte. Viaduto esse que provavelmente fora erguido sob a pressa do padrão FIFA, sem fiscalizações, sem testes, contudo, devidamente superfaturado, como qualquer outra obra com verba federal ligada à copa. Dinheiro Público que desabou no chão matando e ferindo pessoas. Mas não teve nota de pesar, não teve nota de solidariedade. Mas quem se importa? Nossa aflição é só que o Neymar Jr. está fora da copa! Somente quem se importa com aquelas vidas são seus familiares…

Mas o país da copa, do futebol e do carnaval está em festa…. E vamos ao teatro!!!

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2 Respostas to “1086 – Festa e desabamento”

  1. altino Says:

    Blog do Alex Antunes
    Uma derrota necessária
    Por Alex Antunes | Alex Antunes – sex, 4 de jul de 2014
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    No Brasil dito cordial, o futebol virou durante décadas um mediador da disputa de classes sociais. O projeto branco, europeu, ordenador e vertical, aceitou que o projeto pardo, tribal e em geral mais anárquico, se fizesse representar na grande narrativa social através do futebol e de seus jogadores de origem humilde.
    Futebol passou a ser a narrativa que os machos de todas as classes sociais, opressoras e oprimidas, podiam alegar ter em comum. A divisão entre times “populares” e “de elite” (como o Corinthians e o São Paulo, nesta cidade) acabou borrada pelo hackeamento cruzado. Gente intelectualizada assumia a “paixão” pelo Corinthians.
    E torcedores de origem humilde aprenderam a gostar do antigo time coxinha e “pó de arroz”. O termo pó de arroz, aliás, tem uma origem sensacional, no ainda aristocrático Fluminense do Rio, quando o jogador Carlos Alberto, em 1914, usou pó de arroz para disfarçar sua negritude – e foi denunciado quando o suor desfez sua maquiagem.
    Acontece que essa narrativa cordial e acochambrada não dá mais conta da complexidade psicossocial do país. O projeto pardo botou suas manguinhas de fora. Expressões próprias como o funk, o passinho e o rolezinho, não dependem mais do aval branco. E não é mais um boyzinho arrivista patriarcal como Neymar, que anuncia cuecas subliminares e acredita piamente em truques de marketing, que o representa. Há uma crise quanto à função social do futebol.
    E essa mesma mentalidade de “rivalidade”, seja lá o que significa isso, migrou para a política brasileira. Agora virou frase recorrente que qualquer cobrança ao PT é “fazer o jogo da direita”, desqualificando as reclamações. Ora, quem faz o jogo da direita é o próprio PT, que atraiçoa impiedosamente seus antigos eleitores, fazendo todo tipo de acordo eleitoreiro sem princípios.
    E não se trata mais de sustentar zumbis políticos como Collor, Sarney e Maluf – uma gracinha que Lula gostava de fazer, posando de grande líder olímpico. Mas de opressão e assassinato mesmo. A monstruosidade do acordo com o agronegócio, que se arma para assassinar índios, só é comparável à do acordo com neopentecostais, que dão o mote para perseguição a gays, aos povos de terreiro, à liberdade feminina e outras liberdades individuais.
    A brutal repressão da PM nos estados recriou uma figura que não existe oficialmente desde o fim da ditadura: o preso político. O caso de Fábio Hideki em São Paulo é escandaloso: acusado de ser “líder black block” e de portar explosivos que não existiam, Fábio é um ativista pacifista conhecido, preso “em flagrante” enquanto ia embora de metrô. Uma reunião pública pela libertação de Fábio foi igualmente atacada a bomba pela PM, e advogados que reclamavam da presença de soldados sem identificação agredidos e presos.

    Fábio Hideki
    Sobre esses episódios, os Advogados Ativistas publicaram carta aberta: “talvez esta formação jurídica seja o que falta para esta gestão, pois se vale de provas plantadas, intimidação, prisões ilegais e tantos outros recursos escusos para camuflar a incompetência da sua polícia e justificar investigações contra manifestantes (…) Não aceitaremos mais os abusos perpetrados por esta Secretaria de Segurança Pública”.
    E segue: “É curiosa a pretensão desta Secretaria de Segurança Pública, ao afirmar a posição de um cidadão como mentiroso, sem ao menos buscar saber as versões dos envolvidos. Nos parece muito claro que não é a função de um servidor público realizar a análise sumária de uma falha da sua administração criticando um cidadão (…) Percebe-se que toda máquina pública não favorece os direitos do cidadão ao que tange a sua defesa contra os abusos policiais”.
    Quanto a isso, o governo federal acuado não tem nada a dizer. Até porque foi Dilma que deu a senha para a repressão, ao dizer que “não toleraria vandalismo durante a copa” – sendo que vandalismo passou a ser qualquer tipo de manifestação. É essa Dilma chefe de torcida, comparável aos milicos que a torturaram em 1970, que nos leva de volta ao futebol.
    Se a política vira futebol, o futebol vira política. Por isso a derrota do Brasil na copa, um choque de realidade, é tão necessária. Para pararmos de subterfúgios, como o do Brasil todo tratando do choro dos jogadores. Uma DR nacional neurótica e circular, que toma o desempenho no futebol como o problema nacional, quando ele apenas o espelha.
    Escrevo antes do jogo contra a Colômbia. Pronto para comemorar a desclassificação do Brasil. Porque é ela que leva à libertação de Fábio Hideki. É ela que leva à libertação do país, à liberação da raiva e da alegria reais, sem biombos nem procuração.

  2. Zuleide Costa Says:

    Ótimo texto, Igor.

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