Já-já-já Janine já era!

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CAI JANINE 15

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O.

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palhaço do Saci, por volta do meio-dia, quando a barriga já me ensaiava um ronco desentoado, entrou na sala gaguejando.

– Chefia! Já-já-já…

– Que palhaçada é essa, idiota? Já-já o quê? Desembucha, gaiato!

De supetão, ele acabou falando nervoso:

– Já-já-já… Janine já era!

– Janine? Renato Janine? O ministro? O que aconteceu com ele? Morreu? – Agora era eu que estava assustado – Fale logo, caramba!

– Pior, Chefia! Um milhão de vezes pior! Foi descartado pela presidente! Como um sapato velho e imprestável

Aquela notícia trouxe-me um turbilhão de pensamentos.

Nesse caso, pensei eu, desfeita a conversa ou a audiência agendada que nós professores teríamos com o ministro destituído, o conturbado indicativo de saída de greve, tirado na AG de ontem, estaria mantido? Humm! Talvez até aquela situação nova nos fizesse refletir melhor acerca da decisão tomada de graça, espontaneamente, de apontar uma saída, sem nenhum benefício concreto. Um jovem docente falara muito bem sobre o assunto durante a Assembleia dos Docentes.

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Foi impossível não refletir acerca da movimentada AG de ontem e sobre as minhas limitações e incapacidade de perscrutar o real.. Lembrei-me do que o Saci frequentemente vem ponderando. Ele costuma dizer que as assembleias são sempre massas amorfas sem definição de contornos, passíveis da ação de “mãos invisíveis” que vez nos favorecem, vez não. Para o pestinha, erra quem acha que é algo previsível, mensurável, matemático. Às vezes, fico com inveja da convicção teórica acerca das greves e das assembleias de alguns doutos colegas que se manifestam na “debates-l”, a exemplo dos colendos Prof Palacios e Prof. Waldomiro. Ainda que distantes da ágora, os mesmos falam com tanta convicção e desenvoltura sobre o assunto que me sinto o mais estúpido dos mortais, apesar de não ter tido uma única falta sequer nas AGs, e, por box 1conseguinte, ter aprendido bastante nas momoráeis aulas da Greve Educadora. Parece que a minha condição de CDF, de anotador tudo, frame a frame, só me traz insegurança. No mais recôndito do meu ser, indago-me envergonhado: o que sei com razoável segurança sobre as greves e o movimento sindical docente nesses 35 anos de UFBA? Talvez apenas que só a LUTA aumenta a possibilidade de vitória, talvez… E, assim mesmo, não o embate individual, em prol de si mesmo, solitário, egoísta, narcísico, mas a luta coletiva, solidária em função da polis ampliada nos limites dos que dispõem de um rosto humano, sem distinção de etnia, credo, local de nascimento, gênero e preferência de parceria afetiva…

Se, de fato Janine Is Dead, no que diz respeito à sua reputação para tocar adiante os negócios do MEC, a partir da notícia que alardeia a mídia, de que  Dilma conversa com Mercadante, e ministro vai para a Educação, só me resta pensar na ironia de quem passou anos a fio ensinando Ética ou Política, e entrando para a história do Ministério da Educação e Cultura como sendo o único titular da pasta a não ter uma única audiência comos seus pares, os professores das Instituições Federais de Ensino Superior em greve, pela defesa da Educação, vítima esta dos cortes da “Pátria Educadora”…

Mas se para essas indagações de questões tão próximas do meu cotidiano eu não tinha – como não tenho! -, respostas precisas, o que dizer de outras tantas de grau de complexidade infinitamente maior, como as que sentam praça nos corredores palacianos?

O que eu sabia, por exemplo, do novo-velho ministro, agora já ex-titular da Casa Civil da presidência da República, que retornava ao seu antigo aprisco ministerial, além do que os jornais contavam sobre o seu possível envolvimento nos sombrios dutos oleosos da Operação Lava Jato? Por que, logo ele, Aloízio Mercadante, fora convocado para cobrir a lacuna deixada pelo afastamento do professor de Ética do comando do MEC? Ou teria, justamente, o aludido professor de Ética deixado a pasta ministerial por ser a única a não gozar do apreço da presidente que usou como slogan, no início do seu segundo mandato, “Brasil, Pátria Educadora”? Seria o MEC, então, para a presidente Dilma Rousseff, um traste imprestável, capaz de abrigar como dirigente tanto um Cid Gomes quanto um Renato Janine indistintamente? Ou teria ocorrido a indicação do docente apenas pela prudência de não dever mais escolher um político falastrão capaz de trazer mais problemas do que soluções para o Palácio do Planalto, já megulhado em pinimbas? A indicação do professor de Ética seria, pois, uma maneira de não deixar vago um cargo de um ministério dito importante apenas nos momentos da propaganda eleitoral? E, assim sendo, quais os critérios para a escolha do titular da pasta? Poder-se-ia pensar em alguém de temperamento fácil, afável, com uma boa dose de subserviência, apreciador de pompas  e circunstâncias, e, sobretudo, com um ego sensivelmente inflável?

Perguntas, perguntas e perguntas. E nenhuma certeza nas incipientes respostas!

Menandro Ramos
FACED/UFBA

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bebericando-2015

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6 Respostas to “Já-já-já Janine já era!”

  1. osaciperere Says:

    Circulou na “debates-l”:
    ——————————-

    Prezados,

    Quando estamos em “desacordo” é possível assumir diferentes posturas. Entre elas, podemos assumir, de antemão, que nosso adversário está errado e, com isso, esforçarmo-nos para desqualificá-lo, censurá-lo ou silenciá-lo. Outra maneira é enfrentar o desacordo como um desacordo de posições e argumentos e, com isso, aceitar a possibilidade de nós mesmos estarmos errados.

    Contra a minha vontade, mas por um tipo de obrigação civil, tenho acompanhado essa lista e lido todas as postagens, inclusive aquelas que expressam posições claramente opostas às minhas. E tenho visto que tem se tornado um hábito, em nome de um sentido estranho de democracia e de luta trabalhista, censurar qualquer um que se manifeste contrário à greve ou contrário à condução da greve. Assim, os estudantes que livremente (e, para nossa felicidade, livremente) se manifestam contrários à greve são pichados como “de direita”; os professores que proclamam uma posição divergente ao Comando de Greve são ridicularizados… E assim vai, quem é a favor da greve (mesmo que defenda um ideia absurda) é bom; que é contrário (mesmo que tenha um argumento sério) é estúpido.

    Isso não é apenas constrangedor, mas preocupante. Para todos os lados que eu olho, na UFBA e na atual crise econômica e de governância, só vejo palavras de ódio e de autoritarismo.

    Não, Prof. Menandro, não tenho “sólida convicção teórica acerca das greves e das assembleias”, não sou cientista político ou ideólogo. Eu tenho apenas apontado duas coisas: a) a greve nasceu de uma plataforma espúria (uma pauta difusa, contra a política econômica, pela educação pública e gratuita – já não era?) que, na verdade, ocultava uma disputa pela hegemonia sindical entre PROIFES/ANDES e b) a estratégia da greve não tem contribuído para convencer a sociedade da relevância da universidade nem ao Governo para rever suas políticas (enquanto isso, a UFBA enfrenta uma crise sem precedentes, sendo que ninguém, além da administração central, parece se ocupar em a resolver).

    Não, não sou “douto”. Eu apenas prefiro enfrentar os desacordos com ideias e, para tanto, busco os melhores argumentos (mas quase sempre eu fracasso nesse esforço). Há algum tempo um estudante mostrou à minha esposa uma montagem que o senhor vez com minha imagem (e do Prof. Charbel). Isso, sim, é ridículo: trocar um argumento por uma brincadeira.

    Fui às assembléias, sempre que tive condições. Reuniões, defesas, relatórios, projetos, pareceres, prazos para entrega de artigos e outros compromissos que eu e outros professores dessa universidade não podem evitar, não permitiram que gozasse da agradável liturgia das assembleias. Algumas vezes fui, mas devo confessar, que não consegui ficar até o final.

    Lamentavelmente, não pude ir votar pelo fim da greve ontem, pois desde agosto passado estou no exterior realizando um estágio de pesquisa. Espero que quando eu voltar, em julho de 2016, a greve tenha acabado.

    Meus melhores votos,

    Waldomiro Silva Filho

    • osaciperere Says:

      Circulou na “debates-l”:
      —————————

      Você é muito douto e capaz de saber que, aqueles que estão em greve e forçando audiência e participando de manifestações, que tripudias, são que te asseguram sair para pesquisar, ficar longe de tudo e todos e, com financiamento público, certamente.

      Como dizia Felippe Serpa, temos que defender nossa instituição, é a única onde a pessoa ganha para pensar e se não acontecer, ela fenecerá.

      Uns defendem a instituição com seu próprio corpo, outros colhem os frutos dos que trabalharam, já dizia um sábio professor: tem muito caronista institucional.

      Universidade federal é uma marca cara e precisa de muita luta para ser conservada. Por que não há interesse em defendê-la, por parte dos que usufruem das suas melhores oportunidades? É pobre fazer greve? rsrsr

      Não sei o que vai encontrar em 2016, se não lutarmos agora. Sinto muito não podemos te esperar.

      Bons sonhos e Bons estudos, moço.

      Maria Inês Marques

      —————————–

      • osaciperere Says:

        Circulou na “debates-l”:
        ——————————–

        Estimada Profa. Inês Marques,

        A senhora, lamentavelmente, não entendeu nada do que eu disse (escrevi) até agora, talvez porque não tenha interesse em ler com generosidade aqueles que expressam opiniões diferente da sua posição.

        a) em primeiro lugar, não estou “tripudiando” ninguém, muito menos os meus colegas que defendem a greve. Estou APENAS criticando e expressando um “desacordo”. Conheço os argumentos (!) a favor desta greve e não concordo com eles. Tripudiar seria fazer piadinha, desautorizar, zoar, ironizar, fazer caricaturas. Caso a senhora tenha lido alguma das minhas mensagens, verá meu esforço em construir um argumento sério. Eu poderia simplesmente silenciar e não me expor a ser tratado no tom que a senhora e o prof. Menandro me tratam, sem qualquer respeito e deferência. Nunca usei uma palavra ofensiva;

        b) não entendi a referência que a senhora faz à ideia de “caronista institucional”. A senhora está se referindo a mim? Com certeza a senhora não me conhece e, por isso, usou essa expressão pesada, ofensiva, numa mensagem dirigida a mim. A senhora escreve: “[u]ns defedem a instituição com seu próprio corpo”. O que isso significa? Que entrar num greve é como se imolar em praça pública, sacrificando-se pelo bem de todos? Creio que isso é muito dramático – e está errado. Além do fato constrangedor de que a greve é uma “greve remunerada” (e não significa qualquer sacrifício), não estou seguro de que ESTA greve vá assegurar o avanço da ciência e da pesquisa universitária;

        c) em referência a mim, a senhora escreve que eu não teria interesse em defender a UFBA, mesmo usufruindo “de suas melhores oportunidades”. Há muitos modos de “defender” a instituição: os muitos professores que se envolvem em projetos de pesquisa, que buscam financiamento (em agências públicas e privadas) para a construção de laboratórios, que fazem extensão universitária, que trabalham duro para estabelecer relações de cooperação acadêmico-científica, essas pessoas estão defendendo a instituição e honrando os altos custos que a universidade representa para uma sociedade pobre como a nossa;

        d) “É pobre fazer greve?” Claro que não. Eu jamais disse (escrevi) tal coisa. A greve é um instrumento importante para que os trabalhadores confrontem seus patrões e reivindiquem seus direitos. Em certas situações, mobilizações em massa de sindicatos e movimentos sociais, têm a função de criar uma pressão social nos agentes políticos. Ela é legítima e nobre. Mas aqui podemos incorrer num raciocínio viciado: “A greve é nobre e legítima, logo todos aqueles que defendem greves estão certos”;

        e) meu desacordo é acerca DESTA greve, suas motivações e consequências, como foi em relação à greve de 2012. Não sou tão “moço” assim e imagino que a senhora também seja uma pessoa experiente e que conheça a dinâmica dos movimentos sindicais (jamais imaginaria a senhora como uma pessoa ingênua). Não vou repetir a minha ladainha sobre o quanto é absurdo a disputa por hegemonia sindical – vão-se os anéis, os dedos, os braços…

        d) Só para dizer uma vez mais: o Brasil está atravessando uma crise, isso tem refletido na universidade. Depois de muito tempo de estagnação, passamos um período de franco crescimento em todos os sentidos (expansão de vagas, infra-estrutura, financiamento, internacionalização, salários). Essa situação é séria e precisa ser avaliada de modo agudo, pensando no futuro. Universidade pública e gratuita não é tudo, é apenas uma parcela do desafio: fazer ciência de alto nível, produzir tecnologia que ajude a melhorar a vida das pessoas e a sobrevivência do planeta, criar meios para a divulgação do conhecimento científico, tudo isso deve estar na agenda. Acho que esta é a hora de voltarmos ao cotidiano na UFBA, retomando nossos postos. Nas salas de aula é possível não apenas seguir os conteúdos do programas, mas educar os mais jovens para o sentido da universidade, as reuniões de departamentos e colegiados a pauta deve enfrentar de cara o estado das coisas. Isso não proíbe que sejam organizados eventos, audiências, manifestações que procurem comover a sociedade e influenciar os gabinetes.

        e) … Mas não creio que o destinatário desta mensagem tenha chegado até essa linha…

        Waldomiro

    • Menandro Ramos Says:

      ……………………………………………………………………………………………………………
      As AGs velam pelo sono do docente...

      Prezado Professor,

      Que o Sr. tenha uma excelente estada no exterior. Do fundo do meu coração. Com muita saúde, alegria e disposição para enfrentar o duro batente do estudo. Da nossa parte, estamos lutando pesado para que o colega tenha direito a um espaço condigno de trabalho quando retornar. E que possa, por muitos e muitos anos participar e dar conta efetivamente de “Reuniões, defesas, relatórios, projetos, pareceres, prazos para entrega de artigos e outros compromissos”. Ainda que escolha trocar a luta coletiva por uma solitária – mas brilhante! -, carreira acadêmica. Defendemos o seu direito de escolher qual o caminho seguir.

      Lamentavelmente, os nossos trabalhos e compromissos com o movimento de greve não nos permitem alongar as explicações acerca da importância do uso das múltiplas linguagens, conforme compreendemos, em favor do Trabalhador, dos Direitos Humanos e de bandeiras libertárias. Isso porque, pelo teor dos seus escritos, teria, talvez, alguma dificuldade em compreender que humor é coisa séria. Quem sabe teríamos de escrever um longo tratado sobre o riso, abordando a galhofa, a anedota, o chiste etc. com o risco de concluir, no final de tudo, que o esforço fora inútil…

      Mas sei o que é isso. Historicamente, temos ouvido que “Muito riso é sinal de pouco siso”. Romper com esse “determinismo” cultural não é tarefa fácil…

      Para terminar, valho-me de suas palavras, com as quais concordo: “Quando estamos em ‘desacordo’ é possível assumir diferentes posturas. Entre elas, podemos assumir, de antemão, que nosso adversário está errado…”. Pelo visto, o Sr. jamais procurou se inteirar das divergências entre ANDES-SN e Proifes, negando o que se fala tanto no meio acadêmico em relação ao pensamento crítico. Suponho que tenha tomado o discurso de algum guru da Proifes governista como uma verdade sacralizada.

      A fala do colendo filósofo reitera o mantra que tenho ouvido como argumentum ad nauseam da presidente da APUB, de alguns diretores e simpatizantes, o que sugere uma sintonia fina entre as partes citadas: “a greve nasceu de uma plataforma espúria (uma pauta difusa, contra a política econômica, pela educação pública e gratuita – já não era?) que, na verdade, ocultava uma disputa pela hegemonia sindical entre PROIFES/ANDES”. Da minha parte, ressalto, não oculto a minha irresignação de ver no que transformaram a APUB, outrora combativa, e hoje entidade sindical chapa branca. Este blog abriga inúmeras postagens, minhas e de outros autores, acerca do assunto.

      A conclusão que chego é que o colega, com a devida vênia, desprezou a dúvida – tão boa conselheira, a meu ver, para o pesquisador – ouso dizer que relegou ao segundo plano a positividade do ceticismo! – para abraçar o pensamento dogmático engessado. Salvo engano, confirmando o ditado editado pelo meu estripulentamente amigo de gorro vermelho e pito: “Casa de espeto, ferreiro de pau” Rss.

  2. osaciperere Says:

    Circulou na “debates-l”:
    ………………………………

    Caro Menandro

    Eu também fiquei sem saber qual era a do erudito ex-ministro do MEC. Será que tornou-se sábio na sua fugaz gestão e passou a adotar o princípio prático central da filosofia taoísta Wu-Wei, que traduzido para o português significa “não ação”, “agir pelo não agir”, não fazer ou não interferir, a fim de que tudo se realize e resolva ??

    Pois é, parece que de tanto não fazer nada, o ministro também caiu, por nada.

    Abs

    Roberto Cardoso

  3. osaciperere Says:

    Circulou na “debates-l”:
    ——————————–
    Oi Waldomiro,

    Não tentei desmerecer seu raciocínio, mas, acho que toda demonstração de que eu te entendo, menos você me entende. Não quero que voltes ainda estejamos em greve espero que o novo ministro da educação lembre-se que foi do Andes (ainda insistimos) e não nos trate com este total descaso, precisando invadir repartição, colocar seu corpo e cargo em risco para conseguir audiência. Isto é que precisa ser visto, acabamos nos colocando uns contra os outros. O problema é que temos que nos juntar e construir a universidade do pertencimento e ai não haverá caronista, jamais foi seu caso, vide o tempo que dialogamos.

    Para selar a paz:

    Um beijo

    Maria Inês Marques

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