– Jaques Wagner, O Cruel

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Menandro Ramos
FACED/UFBA

Mal o Saci leu o e-mail que recebi do Prof. Luiz Aníbal, da Escola Politécnica, contendo um cordel dedicado ao governado da Bahia, o pilantrinha foi logo me expulsando do computador. Alegando que precisava resolver algo urgente, pediu-me silêncio. Sem muita opção, acabei saindo para comprar pão. Enquanto esperava na fila, ouvi a conversa de duas jovens estudantes de escola pública que comentavam o sucesso que estava fazendo o vídeo das “estudetes”, uma crítica bem humorada à insensibilidade do atual ocupante do Palácio de Ondina.

Não via a hora de chegar em casa para assistir ao tal vídeo no You Tube. Pensei nas dificuldades futuras que teriam os tiranos para evitar que a grande maioria fosse informada. Contraditoriamente, a internet que fora desenvolvida por militares, em parceria com pesquisadores de universidades americanas, para tratar de aspectos ligados à segurança do bloco capitalista, ameaçava a virar-se contra o próprio sistema. De alguma forma, o gasto imoral com propagando do (des)governo Wagner estava indo pelo ralo, sem a hegemonia da verticalização da mídia. As iniciativas modestas de fração da população que sofria na pele os estragos que a insensibilidade do governador havia provocado na educação baiana, escancaravam para o grande público o que a TV comercial não mostrava.

Não marquei no relógio o tempo que passei fora, mas o certo é quando cheguei em casa de volta, um laborioso vídeo de autoria do Saci estava prontinho para ser colocado no You Tube.

O que chamo de mera coincidência, os junguianos chamam de sincronicidade… mas não quero discutir isso agora. O fato é que, muito antes de eu ter recebido a mensagem do Prof. Luiz Aníbal, contendo o referido cordel sobre os desatinos do governador da Bahia, o Saci se deleitava em ler o artigo da Prof. Ana Mae Barbosa, intitulado “Interterritorialidade na Arte/Educação e na Arte”, e publicado num dos livros que ela participou como autora e organizadora.

De fato – pensei -, as ferramentas digitais contemporâneas possibiltavam a interculturalidade, a interdisciplinaridade e a integração das artes e das letras… De repente, a semente de um cordel – não mais tradicional, pois o suporte tinha sido o ciberespaço -, era regada para transformar-se em outra solução simbólica, tendo como fito a denúncia das mazelas do mundo e o anúncio de novas possibilidade estéticas…

Admirável Mundo Novo!

—————————————

Jaques Wagner, O Cruel

Autor não identificado

Prezado Governador
Choro sangue no papel,
Quando assisto entristecido
O seu risível papel,
Maltratando o professor
Como faz um Coronel…

Fico aqui me perguntando,
Simples pobre “pensador”,
O que leva um governante
A causar tamanha dor
Ao pobre que está lutando
Contra um grande Ditador…

Procuro uma só razão
Capaz de justificar
Essa tua intransigência,
Teu prazer em maltratar
A quem tem a obrigação
De a nação toda educar…

Um direito garantido
Não pode ser violado,
O aumento ao professor
Deve ser negociado,
O PT é o teu partido,
Não teu trono coroado…

Devolva à nossa Bahia
Sua azul tranquilidade,
Pense nas pobres famílias,
Alvos da tua maldade,
Deixe dessa rebeldia
E diga ao povo a verdade…

A mentira , “caro amigo”,
Pernas curtas deve ter,
Pois o piso é Nacional,
Disso tu deves saber,
Não transforme em inimigo
Quem sustenta o teu poder…

A história não perdoa
O cinismo de um tirano,
Sadan foi assassinado
Por ser porco e leviano,
Tua ação maldosa ecoa
Em todo o povo baiano…

O professorado sabe
Que o tempo é seu aliado
E que a gente da Bahia
Também está do seu lado,
Dê ao povo o que lhe cabe
Vá mandar em outro estado…

Vamos fazer a campanha
Contra tua tirania,
Nunca mais terás meu voto,
Tu maltratas a alegria,
Vê se então toma vergonha,
Vai-se embora da Bahia…

Que o povo te jogue praga,
Chamando-te de farrapo,
Colocando o teu nome
Dentro da boca de um sapo,
Porque aqui é que se paga,
Nem que seja no sopapo…

Deixa de beber cachaça,
De mentir com cara dura,
O povo da nossa terra,
Rica em beleza e cultura,
Não quer mais tua trapaça
Tua risível figura…

Ouça ao pobre do poeta
Que canta com devoção,
Alertando ao soberano
Sobre a força da nação,
Não haja como um pateta
Teu destino é a solidão…

Vou aqui profetizar,
Sobre o teu pobre destino,
O teu nome será posto
Junto ao nome de um cretino:
“Hitler”, o povo irá bradar,
”Tu serás um assassino!”

“Tu serás um assassino”,
Cantará toda cidade,
“Hilter”, o povo irá lembrar,
Na maior tranquilidade,
“Tu serás um libertino”
Por toda a eternidade…

Não maltrates nosso povo,
Sobretudo o professor,
Ele sabe como agir,
Suporta tortura e dor,
Teu governo acendeu fogo
No coração do eleitor…

“No PT não voto mais,
Velhas lições aprendi,
Agora sonho acordado,
Pois de bom eu nada vi,
Eu acho que é satanás
Quem governa por aqui…”

“O diabo ganhou forma,
Tem os olhos do PT,
Ele brinca com a gente,
Ele diz nos dar prazer,
A lei da nação deforma:
Faz o professor sofrer…”

“Te esconjuro Satanás”,
Benze a face o professor,
Ao olhar para o retrato
Do falso Governador,
“Sai de mim, chega pra trás”,
“Teu maldito ditador!”

Pense bem neste cordel
Nas palavras que ele tece,
No sentido que ele guarda,
No brilho que se arrefece
No olhar do povo fiel
Que clama a Deus numa prece…

Teu governo irá tombar
E teus feitos de maldade,
Porque quem maltrata o povo
Com tortura e com maldade,
Não consegue suportar
A face da liberdade…

Caminho para encerrar
Meu protesto literário,
Minha forma de dizer
Que não luto solitário,
O verso tem seu lugar
Num governo reacionário…

Minha arma é a poesia,
Minha palavra cortante,
Meus versos sem vaidade
Tentam congelar o instante,
Mostrando que a hipocrisia
Não tem nada de elegante…

Escute meu triste canto,
“Quem avisa amigo é,”
Dê de volta ao professor,
Sua graça e sua fé,
Quem produz o desencanto
Termina junto à ralé…

Meu caro Governador,
Jacques Wagner cruel,
Não brinque com quem derrama
O sangue sobre o papel,
Sou também um professor
Na arte de fazer cordel…

Vou de novo repetir
Para o povo este refrão,
“Quem avisa amigo é”
Não se mata em confusão,
Se tu não queres me ouvir
Vai ouvir o meu bordão…

Deixe em paz o professor,
Devolva a ele a alegria,
“Quem avisa amigo é”
Ensino com poesia;
O verso tem mais valor
Do que tua hipocrisia…

Meu caro Governador
Não se meta em confusão,
“Quem avisa amigo é”,
Isso vai virar refrão,
O final de um Ditador
É viver numa prisão…

Encerro agora o cordel,
Pois cumpri minha missão,
“Quem avisa amigo é”,
Diz o povo da nação,
Governador Coronel
Não vence mais eleição…

2 Respostas to “– Jaques Wagner, O Cruel”

  1. osaciperere Says:

    Caros,

    VOLTO A LHES CONTACTAR PARA PROCEDER A UMA CORREÇÃO IMPORTANTE:

    os versos do cordel que encaminhei pela manhã, abaixo transcritos, não são do signatário que aparece na mensagem original. Também não são de qualquer ex – colega de trabalho do atual secretário estadual de educação. Soube agora que são anônimos e faço questão de proceder ao reparo.

    Só não o assumo como MEU para não roubar a verdadeira autoria. No entanto, assumo plenamente a divulgação dos mesmo.

    Luiz Anibal – DCTM – EP/UFBA.

    Quoting laos@ufba.br:

  2. Enéas Estrela Says:

    Parabéns ao autor do Cordel, pela forma crítica, coerente e verdadeira como tratou o “governo de todos nós”… nós baianos que ainda acreditamos num estranhos de olhos azuis que nos (des)governa.

    A maldade de Wagner é tão diabólica contra os professores e outros profissionais do estado, que é capaz de Deus perdoar Toinho Malvadeza por todos os crimes que ele praticou contra os baianos e conceder um lugar para ele no paraíso.

    Na terra do coronel Cabeça Branca, carioca que tem olho azul assume o trono de coroné.

    Se o que os espíritas dizem for verdade, a esta ora o maior Coroné, Toin Marvadeza, que a Bahia já teve, deve estar olhando para os baianos e dizendo: “eu mereço está sofrendo no purgatório por não impedir que a Bahia caisse nas garras de um tirano.

    Aliás, “com tiranos não combina os nossos corações”; já dizia o hino de independência da Bahia.

    Por falar em independência, será que os secretários de Wagner já conseguiram inventar uma viagem internacional (assim como fez o prefeito de Salvador) para se esconder dos baianos no 2 de julho?

    Enéas Estrela

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