Apresentação

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FISIOLOGISMO POLÍTICO E QUALIDADE DA EDUCAÇÃO

José Arapiraca

Apresentação

Vivemos um momento histórico de consagração do imediatismo. A forma impõe-se sobre o conteúdo. O vitorioso é o ídolo que se segue, não importando se o exercício da sua sabedoria seja ou não a fórmula “sabida” que sempre consagra o “homem do ano”. Embora já tenha acontecido que, um ano após a consagração do “homem do ano”, este tenha sido condenado como um impostor-mor, o mito do vitorioso permanece de forma quase mística. Venera-se o “sabido” e não mais a sabedoria e a probidade. Exercita-se a crença de que o fim do mundo é amanhã, num flagrante existencialismo da “Chiquita Bacana”.

Essas regras, tão importantes para um certo mundo dos negócios e do capital, hoje fazem escola no mundo da política. Ser político, hoje, é sinónimo de invertebrado. Ter “jogo de cintura” é nível de sabedoria. O político não tenta mais interpretar o real ou o sentimento popular, devolver suas posições e esperar ser julgado pelo povo.

Costuma-se dizer que é melhor “seguir o povo”. Ora, quando o povo delega a um indivíduo competência para legislar ou administrar, está implícita uma expectativa de capacidade ou sabedoria para interpretar as interpretações com mais competência que a sua. Desse modo, “seguir o povo” não deixa de ser um embuste populista pós-palanque. Confundir a sabedoria popular com malabarismos verbais não qualifica ninguém como político. Político tem que apresentar posições, defendê-las e esperar o julgamento da sabedoria popular pelo voto. O engodo do tapinha nas costas e dos cartões de aniversário é a fórmula do político invertebrado para se aposentar pela caixinha parlamentar. Do lado académico, grassa uma expressão de igual quilate do politico que prefere “seguir o povo”. A expressão académica é “conforme a leitura que faço…”. Ora, ninguém mais do que o intelectual acadêmico tem a obrigação de ofício de dar interpretações das suas leituras.

Quando ele diz que “fez leitura” para substituir interpretação por leitura, isto soa como um descompromisso com a obrigação do seu ofício de interpretar e tomar posição! Como se pode notar, o momento histórico não é de se tomar posição nem assumir compromissos. Experimenta-se o exercício de uma sabedoria de “sabidos” que “seguem o povo” e “fazem leituras”. É um mundo onde é estupidez o compromisso do “fio do bigode”. O compromisso com a verdade e a probidade não tem lugar. E o mundo da sutileza invertebrada do “jogo de cintura”.

Enfim, “seguir o povo” e “fazer leitura” é uma forma sabida de fazer tipo, tomando para si opiniões alheias, e alhear-se de responsabilidade de opiniões. É sempre um conciliador de ocasião! No fundo, é um “murista histórico” travestido de “terceiro partido” em causa própria.

Este trabalho que apresentamos é um exercício político, de um intelectual desgarrado desse modismo escamoteatório, tentando discutir os argumentos da sabedoria popular, bem como ler e interpretar a realidade seguindo sua visão de mundo e compromissos inerentes ao ofício de académico que exerce no seu cotidiano da sala de aula. Ê um exercício do direito da dúvida como método acadêmico.

Para as pessoas que acham que devemos nos resguardar de possíveis confrontos políticos com a divulgação das nossas investigações, estamos tentando mostrar, com este trabalho, que o exercício profissional estruturado com rigor científico é imparcial, sem ser neutro. A divulgação de estudos sempre correrá riscos de incompreensão na medida em que a verdade resultante da investigação agrida privilégios. Desse desfecho não está imune o intelectual do ofício académico, muito pelo contrário. O exercício académico nos impõe compromissos exclusivamente com a saúde da sociedade e com a vida. Principalmente nós, educadores de profissão, temos que nos conscientizar de que a ambiência formal da formação de cidadania, que é a Escola, tem que transparecer pela probidade, competência e pelo exemplo de que ninguém deve negar-se a assumir compromisso. A sociedade nos remunera também para educarmos seus filhos para o exercício da cidadania.

O trabalhador intelectual académico é um servidor remunerado da sociedade, mas não um serviçal paia “seguir o povo” ou “fazer leitura”. Antes somos servidores em compromisso com o rigor científico nas interpretações das interpretações. Enfim, somos pagos para assumirmos o ónus da interpretação e não faturarmos o bónus da “leitura”.

Verifica-se, inclusive, que o País vive um momento de descompromisso social. O cidadão é oficialmente pendulado entre a sorte e o azar: joga-se no bicho duas vezes ao dia (14 e 18 horas); há loterias estaduais as sextas-feiras; a loteria federal corre às quartas e sábados, incluindo seus grandes prémios; semanalmente, joga-se ainda na Loteca, na Esportiva e na Sena; as rifas e os bingos competem abertamente com as várias formas de carteados, inclusive as eletrônicas; existem as especulações financeiras e o mercado de câmbio. Toda essa estrutura de papel (oficial), ao distribuir a ilusão da realização pessoal, inibe o papel do trabalho e do risco do investimento produtivo. Valeria a pena comparar o quanto dos recursos que deveriam estar no setor produtivo, estão nessa ciranda de ilusão capitalista.

Neste quadro de anomia oficializada, a nossa insaciável “iniciativa privada”, que um certo presidente chamou de “gigolô de vaca”, ao defender-se como instância legítima do processo de desenvolvimento, exige o bônus escuso da agiotagem e imputa ao Estado o ônus de investimento, impondo a não taxação do capital, bem como a sua “livre” manipulação. É evidente a manifestação de que não se deve correr riscos. Devem-se cortar os subsídios, do outro. O Estado deve privatizar a economia (sem riscos?).

Sem entrar no mérito, enumeramos alguns (a relação é exaustiva) fatos recentes que, no nosso entendimento, põem em contradição os argumentos “racionalizantes” dos privatistas: 1) a Transbrasil está sendo estatizada para ser saneada de um passivo de 128 milhões de dólares, em 23 bancos (“Jornal do Brasil”, edição de 15.4.88); 2) denuncia-se a elevação, de 98 milhões de dólares para 252 milhões de dólares, da participação dos fabricantes privados de navios (armadores) no Fundo da Marinha Mercante, de US$ 700 milhões (“Jornal do Brasil”, edição de 15.4.88); 3) a CPI da Corrupção está inquirindo ministros e ex-ministros para descobrir quem redigiu e fez o Presidente da República assinar o Decreto n° 94.233, de 15.4.87, que retroagiu a 24 de novembro de 1986 a correção dos preços de obras e serviços contratados pelo governo, ocasionando um prejuízo à Nação de mais de USS 600 milhões (“Jornal do Brasil”, edição de 15.4.88); 4) no momento, a imprensa está anunciando com bastante veemência a possível privatização da Aracruz, considerada a mais rentável empresa de celulose do mundo! De concreto, o decantado e famigerado cupim da economia, o déficit público, está sendo contido, não com o ressarcimento dos escândalos das falências mal explicadas de empresas privadas que operavam com o incentivo de recursos públicos a juros negativos, mas com o congelamento da URP, que é fator de correção mínimo do poder de compra do trabalhador!

Finalmente, como se pode notar, este trabalho não é, por razões inclusive de estilo, um discurso acadêmico, “letrado”, no sentido da erudição; é mais um exercício de pensar alto por quem é remunerado pela sociedade para expor, com os riscos de julgamento implícitos no cargo, resultados de investigações e estudos, em linguagem de divulgação jornalística. Aqui transcrevemos vários artigos publicados em “A Tarde” a partir de 1982, abordando questões teóricas da educação e questões políticas propriamente ditas, que nos pareceram relevantes para a formação da cidadania. São dados da realidade trazidos à sala de aula para polemizar a compreensão do cotidiano pelos alunos, e depois compartilhados com um público maior através do jornal.

Na segunda parte deste livro, apresentamos uma pesquisa realizada no “Catálogo das Escolas da Rede Estadual — Estado da Bahia – 1986” e no “Cadastro de Estabelecimentos de Ensino Regular – 1986”, ambos os documentos de responsabilidade da Secretaria de Educação do Estado da Bahia. O resultado desta pesquisa demonstra o quanto o sentido patrimonialista do exercício do poder interfere no processo de formação da cidadania.

Transcrevemos listas de nomes de educadores, escritores e vultos oficiais de nossa história atribuídos a escolas municipais e estaduais, comparando-as com listas de nomes de políticos, principalmente de governadores, secretários da Educação e seus familiares.

Buscamos demonstrar que o nome de uma escola, quando remetido à história para homenagear um herói ou vulto, se transforma em fato educativo, dado o sentido de probidade e despreendimento que a lembrança evoca para a formação da cidadania. E não pode ser considerado vulto ou herói quem postula o exercício de cargo público, já que para tanto é remunerado.

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