Morte aos partidos ou a escolha de políticos decentes?

E (3).

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u quero dialogar com Macone Souza Santos, colega da FACED, autor da charge abaixo. Nos últimos tempos, temos ouvido a mídia insistir na tecla da possível rejeição de bandeiras de partidos políticos nas manifestações de rua. De tanto reverberar essa ideia, vai-se construindo uma “verdade sacralizada”. Parece que, de repente, não há mais espaço para os partidos políticos se manifestarem. Será essa a “solução milagrosa” que o país precisa? Sinceramente, tenho minhas dúvidas.

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vamo-pra-rua---Marcone

É justo colocar todos os partidos políticos brasileiros no mesmo saco fétido, ou melhor, na mesma balança viciada? (A charge é de Marcone Souza Santos, por ele denominada de “A política rasteira dos partidos está colocando o Brasil de ponta-cabeça” ).

Ninguém pode ignorar a necessidade de um marco regulatório para a política e para os partidos políticos. Parece que, entretanto, quem pode fazê-lo, como liderança, vai empurrando a reforma política com a barriga… O governo Lula da Silva, por exemplo, preferiu “reformar” a Previdência. Os motivos são sobejamente sabidos… Enquanto isso, a moralidade não se instaura e, como corolário, quase todos se locupletam, para lembrar o saudoso humorista Sérgio Porto (“Ou se instaura a moral no país ou locupletemo-nos todos”).

Uma das questões que a sociedade brasileira precisa urgentemente discutir, diz respeito ao financiamento de campanhas dos políticos e dos partidos. Sabe-se muito bem da generosidade do grande capital em relação a certos candidatos. “Apoio financeiro” é um eufemismo suave para o “investimento” astucioso e amoral. Nenhuma empreiteira – só para ilustrar -, “colabora” com um candidato sem esperar polpudo retorno. Os grandes estádios brasileiros, construídos para os megaeventos esportivos que se despontam, silenciam qualquer tentativa de provar o contrário. E é aí que a clássica pergunta surge inevitável: “Mas o que fazer?”

Não resta dúvida que a solução mais razoável aponta para a discussão, para o diálogo, para a construção coletiva do regramento do limiar das ações e da imposição das leis democraticamente produzidas. Fica muito mais fácil quando se tem o limite balizador do que pode e do que não deve ser admitido.

Dificilmente haverá, a partir da clareza das regras do jogo e da evidência da dura lex contra os seus transgressores, o estímulo de expedientes escusos como “mensalões” ou assemelhados,  como tentação ou justificativa para a tão propalada “governabilidade”.

Daí, Marcone, quero crer que a existência dos partidos políticos não implicam, necessariamente, em perdas para o país. Pelo menos se tiverem o alvo do bem-comum como princípio… O uso da res publica para o enriquecimento pessoal ou de gangs coligadas, por certo, é uma aberração da política, na sua melhor acepção.

Se a “Casa do Povo” está repleta de picaretas que se travestem em “políticos” – escudados em siglas partidárias -, cabe ao reais titulares da soberania popular fazer a higienização, pelo voto, do que está infectado.

Assim, creio que não é justo colocar todos os partidos no mesmo surrão putrefato. Também não é razoável dizer que os chamados partidos “nanicos” de oposição “atiram pedras” porque não tiveram ainda oportunidade de “botar a mão no ouro”. O que, certamente, equivaleria dizer que toda a humanidade é desonesta.

Mas que fique bem claro: ainda que defendendo o direito de existência e a participação dos partidos políticos decentes/éticos nas coisas da res pública, não significa dizer que os tolero como transformadores dos sindicatos dos trabalhadores em seus aparelhos… Não é à-toa ou gratuita a marcação que venho fazendo às últimas diretorias da APUB petista e aos seus fiéis coligados…

É assim, Caro Marcone, que entendo a política e os partidos…   S.M.J.

Menandro Ramos
FACED/UFBA

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8 Respostas to “Morte aos partidos ou a escolha de políticos decentes?”

  1. Francisco Santana Says:

    O problema todo é que não só os políticos atuais de todos os partidos que não têm legitimidade para propor nada muito menos uma constituinte. A sociedade aatual como um todo não tem legitimidade para mudar a constituição feita pela sociedade brasileira de 1988.

    Enquanto não surgir uma linha, um rumo, uma bandeira que cristalize os verdadeiros anseios dessa juventude sem futuro, e ao mesmo tempo surjam lideranças e novos partidos que abracem essa linha e que as novas gerações depositem sua confiança, vamos continuar num atoleiro.

    • osaciperere Says:

      Creio que a sociedade como um todo, em qualquer época, tem legitimidade para propor e mudar o que lhe é conveniente. Evidentemente, com a consciência devida dos problemas, despertada pela boa Educação emancipadora e distante das soluções propugnadas pela mídia de massa compromissada com o capital.

  2. Francisco Santana Says:

    Com certeza a sociedade alemã de 1920 a 1945 teve “legitimidade” para estabelecer o nazismo.

    O Tribunal de Neremberg julgou posteriormente essa “legitimidade”.

    • Saci-Pererê Says:

      A sociedade alemã desse período não foi norteada pela Educação emancipadora… Muito ao contrário. É notório que o cinema foi bastante utilizado, como aparato estatal, para fazer a moçada acreditar na superioridade alemã. Até então a TV não existia concretamente. A famosa cineasta Leni Riefenstahl “se virou nos trinta” com sua estética arrojada e sedutora… Seu célebre filme “O Triunfo da Vontade” confirma isso.

      O grande desafio, acredito, é deixar a condição de massa e tornar-se povo consciente. Na Alemanha nazista, o Estado ditatorial impediu isso através da força e da retórica, inclusive imagética. Atualmente, nas bandas de cá, a mídia empresarial volta e meia engendra articulações com o aparato estatal para continuar alienando a massa em detrimento da emancipação do povo brasileiro.

      Para disfarçar, as forças governamentais, em certos momentos, fingem falar mal da mídia – essa sua parceira de fé e irmã camarada… Mas no fundo, no fundo adoram bater continência para ela!

  3. Marcone Souza Santos Says:

    História e mídia à parte, acredito ser fundamental a discussão! O que “salta aos olhos” é uma grande feira política com bancas por todos o lados. Umas com grandes espaços estabelecidos e conquistados, sabe-se lá a que custo, compartilhando, modificando e ditando as regras do “embate de poder”, com suas “balanças viciadas”, deixando para os demais (nanicos) as migalhas de seu desperdício. Não existe nenhuma regra clara na distribuição desses espaços dando margem a possibilidade de proliferação de camelôs que saltitam de banca em banca, com “pesos não aferidos” vendendo produtos, provocações, intrigas e ideias sem sentido, em busca de oportunidades de “ganho fácil”, lutando pelos seus 15 minutos de fama.
    Enquanto isso, a população enquadrada como consumidora de ideias e ideologias, vai consumindo e se iludindo com ideias velhas travestidas com novas roupagens que não apresentam mais os mesmos resultados.
    Você dirá: – Ora meu amigo, os tempos são outros!
    Lembro-me de um conto que evoca a necessidade de mudança pela própria sobrevivência:
    Diz-se que um filhote de urso polar pergunta à mãe: – Minha mãe! Eu sou um “Urso Polar”?
    E ela responde: – Sim, meu filho, você é um “Urso Polar” !
    Quinze minutos depois, ele repete: – Minha mãe! Meu pai é um “Urso Polar”?
    Ela responde: – Sim, meu filho, seu pai é um “Urso Polar” !
    Duas horas depois, ele, novamente: – Minha mãe! Meu avós são “Ursos Polares”?
    Ela responde: – Sim, meu filho, seus avós são “Ursos Polares”, por que ? !
    Ele exclamando: – Eu estou tremendo de frio !!!
    E ela diz: – Então meu filho… Mexa-se! Movimente-se! Mantenha-se vivo !
    Acredito que o segredo é a movimentação e a busca eterna de melhores condições.
    Espero ter contribuído!!!

  4. Francisco Santana Says:

    Se o cinema fez aquele estrago todo na Alemanha imagine que estrago a mídia e particularmente a Globo está fazendo na sociedade brasileira. E que constituinte sairá dessa sociedade.

    Não se trata de questões de princípios mas de análise concreta de uma situação concreta. E concretamente a nossa sociedade está enferma. E as manifestações que estão havendo são apenas sintomas dessa doença como febre, dores etc. mas não uma reação de cura.

    Como já disse antes, CONSTITUINTE não é uma receita que se avia levianamente em qualquer farmácia.

    • osaciperere Says:

      Concordo plenamente. O pavor decorrente da perda de popularidade de uns e outros, expressa recentemente em números, estimula propostas que aos olhos dos desavisados (e dos “espertinhos”!) soam como a salvação da lavoura. Caô deslavado. Nem os propositores acreditam nisso para o presente momento. É desespero puro e tapeação!

      A pergunta simplezinha é: Por que só agora surgiu a ideia?

      Parece que o bordão de “salvador da pátria” continua recorrente…

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