O bom capitalista

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cap o cinz.

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Saci e a Vaca-Tatá reclamaram comigo por ter contestado o Pica-Pau. Segundo eles, além de amigo ser coisa para se guardar no fundo do peito, é preciso ser generoso e compreender que o passarinho tem como hobby brincar e duelar com a palavra. Quanta gente não coleciona selo por aí? Isso lhe dá um enorme prazer ao que parece. A escolha da causa, ou dos lados, às vezes, parece aleatória. Tanto faz ser o time vermelho ou azul. Depois de escolhido para quem torcer, só resta preparar a munição para o ataque e a defesa, caso essa se faça necessária. E haja petardos! Sem isso, sem essa “adrenalina”, talvez, ele não consiga viver intensamente – talvez seja uma espécie da Cyrano de Bergerac (sem a espada e o longo nariz) dos trópicos, da contemporaneidade  – coisa que acontece apenas com pessoas dotadas de cérebro especial e que precisam de pesados estímulos e desafios cerebrinos.

Refleti que os meus amigos podem estar corretíssimos nas suas ponderações. Quem ousará criticar agora Trump sem que receba dele – do Pica-Pau –  poderosos mísseis na caixa do peito? Não foi assim com Vargas  e Brizola durante décadas? Quem ousou falar de um deles sem ter a cara, metaforicamente, partida? Nos últimos tempos, a ex-presidente impichada caiu-lhe nas graças. E até Lula tem sido por ele poupado. Este mesmo que durante algum tempo tanto foi criticado pelo Pica-Pau. Seria pelo fato de Dilma ter tido ligações com o partido de Brizola? E nem gaúcha ela é… Vá saber! Eu quero lá ficar quebrando minha cabeça com enigmas? Meus dois neurônios logo pediriam arrego…

Lembrei-me de Bilé, um senhor com quem convivi no interior, que era conhecido na cidade por ser “do contra”, por ser, antes de tudo, um teimoso gratuito.

Certa feita, quando Bilé viajava de carona com alguém, ouviu o motorista elogiar uma espécie de “dunas” na beira da estrada. Prontamente, Bilé contestou, dizendo que aquilo não era areia, e sim, água. Enquanto o motorista se afastava do local, Bilé falava da sua adolescência tomando banho naquela bela cachoeira. Intrigado, o motorista resolver voltar e conferir o que vira, depois de ter rodado alguns quilômetros, para se certificar se tivera, de fato, visto apenas uma miragem.

Pois bem, deu a volta, enquanto Bilé fazia ares de uma pessoa altamente confiante nos seus saberes. Chegando ao local da polêmica, o motorista sentiu-se aliviado. Aquilo não era água nada. Diante do ar convicto de Bilé, que se mantinha fiel às suas afirmações, o motorista não teve alternativa senão a de se abaixar e jogar um pouco de areia no teimoso carona. Bilé, sem perder a pose, gritou espalhafatoso:

– Não me molhe não, seu banana, que eu estou gripado!

Pensei na possibilidade de eu ser, ou o Pica-Pau, um Bilé, e sorri. Refleti que, como as nossas insistências não comportavam dar meia volta para sabermos se era água ou areia, uma vez que o que afirmávamos não estava atrás, mas na frente, no futuro, talvez o bom mesmo fosse dar tempo ao tempo sobre as nossas preferências,  sobre a política, sobre   a economia e, sobretudo, sobre Trump, agora, aparentemente, tão endeusado pelo Pica-Pau.

Ainda que com alguma dificuldade em ver o filósofo e jurista Alysson Leandro Mascaro –  autor de publicações (julgadas por mim) importantes na área do  Direito, da Política, da Sociologia, da Filosofia, tendo, inclusive, um dos seus livros elogiado (*) pelo filósofo esloveno de esquerda Slavoj Zizek – como um “marxista de galinheiro”, como afirmara o Pica-Pau em e-mail na lista dos docentes da UFBA, ainda assim, pensei que talvez fosse mesmo prudente dar tempo ao tempo, para identificar qual de nós dois é mesmo o Bilé na história.

Em tempo, embora  Zizek tenha considerado, através de entrevista, Donald Trump nojento, do ponto de vista pessoal, por fazer piadas racistas e por sua vulgaridade, ele vê aspectos razoáveis nas falas do presidente estadunidense em relação à Palestina e Israel. Também Zizek considera Hillary Clinton, de fato, o que seria o perigo real. (Leia a entrevista de Zizek AQUI).

De toda forma, caso tenha oportunidade, em breve, vou sondar se Zizek, por quem também tenho muita admiração, se ele concorda com o Pica-Pau quando diz que Mascaro é, de fato, “um marxista de galinheiro”. Se isso ocorrer, jogo a toalha sem pestanejar, pois são dois contra um. Diga-se de passagem, duas cabeças brilhantes. Caso isso ocorra, declararei, aqui mesmo neste blog, que sou inveteradamente “do contra” e teimoso como uma mula. Igualzinho a Bilé. Rss.

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(*) A opinião é de Slavoj Žižek, convidado a escrever o texto de quarta capa, e que se surpreendeu com o que considera como “simplesmente a obra mais importante do pensamento político marxista nas últimas décadas”. Leia mais AQUI.

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