O candidato da direção da APUB para reitor

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Reitoria-da-UFBA

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Menandro Ramos
FACED/UFBA

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EP-VACA-TATA

 

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O

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meu amigo de gorro vermelho e pito indagou-me sobre o candidato apoiado pela direção da APUB a titular da Reitoria da UFBA. Enfastiado, fiz cara de pouco-caso.

Não se dando por vencido, ele continuou falando, raciocinando, fazendo o cotejo de dados da realidade da UFBA e evocando publicações do site da APUB. Limitei-me a ouvi-lo.

– Andei sondando uns arquivos e escutando umas conversas, chefia. A conclusão que tiro é que existem dois blocos polarizados: o bloco dos amigos do ex-reitor e pai da Uninova, e o bloco que a ele faz oposição, preocupado com a universidade pública, gratuita, de qualidade e referenciada pelo social. Ou seja, um bloco mais à direita e um outro bloco mais à esquerda. Se bem que o real não é tão simples assim… O fato é que ainda podem aparecer “candidatos-laranja”, com o propósito de enfraquecer pleiteantes que tendem a somar apoios… Segundo ouvi nos corredores da UFBA, houve um candidato dessa estirpe na eleição passada para reitor. Na verdade, o candidato laranja seguia as ordens do chefe, segundo me disseram, mas dava uma de independente. Tudo teatro.

Por mais que eu não quisesse me envolver, aquela informação acabou por excitar-me as sinapses… Candidato laranja? Eu já ouvira algo assim. O Saci é uma praga. Sempre arranja uma forma de me aguçar a curiosidade. Ciente de sua astúcia, exagerei a cara de desinteresse. Arqueei o cenho até me sentir com o semblante de um cachorro São Bernardo. Parece que funcionou.

– Que cara de desânimo é essa, chefia? Parece que a doença de Raul Seixas lhe fisgou. Você achando tudo um saco, mesmo! Ou seria a pasmaceira da UFBA que lhe contaminou?

Para contrariá-lo, afirmei o oposto.

– Até que não. Nunca me senti tão bem.

– Não parece. Tenho observado o seu olhar distante. Com cara de embalagem de isopor sem ovo.

– Engraçadinho! – limitei-me a dizer.

– Mas, como eu estava falando, o candidato laranja, na verdade, fazia parte de um esquema cuidadosamente bolado. Tanto assim é que, volta e meia, o poderoso boss nutrindo a cachola do laranja de minhocas. Para não perder a piada…

Em seguida, piscou-me maliciosamente.

Não lhe dei confiança, mas sentia-me prestes a capitular. Precisava fazer algo. Não queria dar essa ousadia ao pilantra. Perguntar quem era o tal laranja e o tal boss era a última coisa na vida que eu faria. Confesso, porém, que eu morria de curiosidade para saber, sobretudo, o nome do tal laranja. Talvez se eu tomasse a sopa pelas beiradas… Quem sabe se ele não falaria espontaneamente…

– Você e suas teorias conspiratórias!… – joguei a isca.

– E você na sua eterna ingenuidade. Parece até aquele professor do Instituto de Química… Ou mesmo a menina Poliana, para quem o governo está sempre falando a verdade, a Globo informa bem e o aumento do IPTU foi justo…

As astúcias dos falantes, – considerei para os meus botões -, são verdadeiras preciosidades para quem se liga nessas coisas da linguagem. Como numa partida de xadrez, sentia que o Saci pulava verbalmente de todos os lados para me dar o xeque-mate. Ou, como ele mesmo dizia, “comer o meu rei”. Talvez, se eu fingisse indiferença e usasse o seu próprio linguajar, eu o pegaria no contrapé. Arrisquei.

– Eu quero é prova e um real de big-big!

– Hum! Como está o professor! Todo cheio de gíria.

– Ô! Não é assim que você entende? Fazer o quê?

– Fazer o quê? Simplesmente me falar olhando nos meus olhos. Perguntar-me sem arrodeios pelo nome do laranja… Não é isso que quer ouvir? Pensa que não sei que você está morrendo de curiosidade para saber o nome do dito cujo?

– Eu interessado? Então não é! Mesmo que existisse essa figura, você não acha que a probabilidade de um raio cair no mesmo local é cada vez menor? Você acha que a repetição da candidatura do mesmo laranja não seria facilmente percebida? Ou você menospreza a inteligência da comunidade da UFBA?

– Você bebeu, chefia? Quem falou no mesmo candidato laranja para concorrer à Reitoria da UFBA? O que disse é que existem dois blocos ideológicos… E digo mais: um deles é capitaneado pelo ex-reitor…

– Bobagem sua. O ex-reitor está agora em outras plagas, tentando dar a sua melhor contribuição para a Educação do sul baiano…

– Não duvido… Pelo menos “melhor” segundo a concepção do Proifes, do governo Dilma/Lula, do Banco Mundial, do FMI, dos herdeiros de Bretton Woods e por aí vai…

Já não havia mais retorno. O pestinha conseguira mesmo me envolver na conversa. Filho da mãe! Resolvi entrar no jogo.

– E o que lhe dá essa certeza?

– Muita coisa, chefia! Os boatos dos corredores, as notícias falsas plantadas, os recuerdos da época da greve passada que você mesmo registrou em fotos e vídeos, os artigos publicados no site da APUB…

– Artigos do site da APUB? A diretoria da APUB resolveu fazer um  mea culpa?

– Não me diga que você, um associado da APUB, não acompanha as publicações do site da entidade!…

Tentei ser espirituoso:

– Prefiro ir diretamente ao site do MEC…

– Então, tudo bem. Nesse caso, não temos papo. Sem as informações contidas nos artigos disponibilizados no site da APUB, você não é um bom interlocutor pra moi.

Dizendo isto, simplesmente, pinoteou e desapareceu como uma grande ventania que, girando loucamente, arrasta consigo o que encontra pela frente. E lá se foi o Saci com seu gorro vermelho, pito e a fumaça insuportável, saída das entranhas daquela abominável chaminé.

– Eu, hem! Depois sou eu quem está impaciente!… – disse para mim mesmo.

Já sozinho, livre para não ser incomodado, constrangeu-me a solidão. Aquele moleque debochado representava a suprema contradição do existir humano. Se, por um lado, sua presença, muito frequentemente me irritava, por outro, sentia um enorme vazio quando ele não estava. Além do mais, ele era como um carro velho – se não mal comparo -, que só pega no tranco. Atiçava a minha curiosidade com insinuações mirabolantes, mas cobrava-me caro pela informação. Não era raro eu ter que lhe ministrar uns pequenos e bons sopapos para ele abrir o bico. No final da “prensa”, ainda que mais informado, eu me sentia exaurido física e mentalmente. Não é fácil ser amigo do Saci!

Assim que ele saiu, a pergunta me saltou da cabeça. Afinal, o que ele lera no site da APUB de tão significativo?

Certificando-me que a corrente do pega-ladrão estava passada na porta, e que as janelas estavam hermeticamente fechadas, corri para o computador. Fui logo digitando www.org.br. A carroça do provedor até que não me fez esperar muito. Tinha diante de mim o site da APUB. Rolei o mouse até aparecer o link para os tais artigos que o pilantrinha mencionara.

Fui olhando um por um, a começar pelo primeiro, de um ex-diretor, que falava do conterrâneo Anísio Teixeira. Lembrei-me do Prof. Francisco Santana que costuma denominar certos autores de necrófilos, por explorarem ad nauseam a vida dos heróis, sem contudo seguir o seus exemplos edificantes…

O texto seguinte era uma matéria da Folha de São Paulo sobre o modelo paulista de cotas universitárias. Saquei que na verdade o texto era uma reles desculpa apresentada pela diretoria da APUB para promover os ideários “universidadenovistas” de um ex-reitor da UFBA.

De novo deparei-me com mais um texto do primeiro articulista, em que ele se metia a falar do PNE e aparentados.

O texto seguinte trazia algo da Folha de São Paulo sobre o 1º SISU em que o então titular do MEC Aloísio Mercadante contava proezas sobre sua gestão ministerial. Um verdadeiro revolucionário. Certamente o crétido ficaria para o governos petista.

Na sequência, um texto muito oportuno, por sinal, de um parlamentar petista, ex-professor da UFBA, sobre um colega docente falecido. Começava a perceber o prestígio do PT e PCdoB no site.

Desta vez deparei-me com um denso artigo de um ex-presidente da APUB e cientista político sobre “os mesmos erros”. O notável articulista celebrizou-se pela firmeza com que brandiu a tesoura da censura contra a lista “apub-l” durante a sua pouco saudosa gestão… Destaco um parágrafo em que o notável cientista assim se manifesta com calculada profundidade: “Não somos nem conservadores nem radicais”. Lembrei-me de algo que li, tempos atrás, em que o autor assevera que “toda autobiografia ou fotografia selfie é auto-laudatória…

O texto seguinte tratava sobre a medida provisória nº 520/10 e era assinado pelo então presidente da ASSUFBA e pela ex-presidente da APUB, destituída em Assembleia, durante a última greve passada, por traição à categoria dos docentes. Por incrível que pareça, reconhecia-se na EBSERH uma armadilha em favor da privatização da coisa pública. Vindo de quem veio – pelo menos de uma das partes autorais -, diria o Saci: “Durma com um barulho desse!”.

Disfarçado de “artigo” o texto seguinte era uma Carta Aberta aos docentes da UFBA. Na verdade, tratava-se de um material de propaganda indicando nomes para a inútil representação docente nos Conselhos Superiores da UFBA.

O texto seguinte – assinado por só Deus sabe quem! -, me pareceu mais um libelo em favor do idealizador do polêmico Bacharelado Interdisciplinar. Lembrei-me do Saci, quando ele fala da atual APUB como garota propagando do Reuni, Universidade Nova, BI, Prouni e todos os “marketings da bondade” do governo Lula/Dilma. Talvez, essas coisas todas nos remetam “às articulações orgânicas/inorgânicas em favor do partido do governo e coligados” de que tanto investiga o Saci.

Em seguida, li uma espécie de “Oração aos Moços”, tendo como balizador o Marco Legal da UFBA, proferida por um ex-candidato (salvo engano, por duas vezes) a Reitor da UFBA, que possivelmente não estará mais no páreo.

Os três seguintes e últimos textos da lista dos tais artigos mencionados pelo Saci têm as assinaturas de capus do Proifes. Segundo pude observar, nem unzinho texto sequer de alguém da Oposição APUB. O que fica patente a política de verticalidade da informação adotada pelas últimas diretorias ligadas ao Proifes. A extinção da lista “apub-l” e a impossibilidade de comentar os textos do site da entidade sindical (Comments Off”), por parte dos associados, são outros expedientes para assegurar a verticalização da informação imposta pelos diretores proificistas.

A partir das leituras sugeridas – por vias atravessadas! – pelo meu amigo de gorro vermelho e pito, o cenário da sucessão tornou-se cristalino para mim. Se é verdade, como afirma o Saci e outros, que o design desse ente insólito chamado Proifes, conjuminado pelo governo Lula, teve por propósito minar as bases do combativo ANDES-SN, pode-se afirmar, com relativa segurança, que os treze “artigos” consignados no link de tarja rosa do site da APUB, direta ou indiretamente, acabam esboçando o perfil dos candidatos que a atual diretoria apoiará e se subordinará como correia de transmissão.

De tudo isso, e além disso, tiram-se algumas conclusões:

  1. O Polo Conservador da disputa é governista.
  2. O Polo Progressista não abre mão da crítica. Doa em quem doer.
  3. A composição que não assumir o polo conservador ou o polo progressista é laranja. Portanto, está a favor do primeiro grupo.
  4. Caso o Polo Progressista consiga se articular para a disputa, o Reuni, o Prouni, o SINAES, o Projeto de Inovação Tecnológica, as PPPs e a subserviência da Andifes serão objetos de severas críticas.
  5. Proposta de “envidar esforços para aumentar o número de vagas da Universidade” é algo muito genérico. E irresponsável. O que importa é assegurar as condições adequadas de trabalho sem precarizar as condições de ensino, pesquisa e extensão.
  6. Os pleiteantes aos magníficos cargos de Reitor e Vice deverão ter como cláusulas pétreas de suas propostas a inegociabilidade da autonomia universitária. Quem tentar argumentar que os novos tempos exigem novas posturas, já antecipa de que lado está.
  7. Os candidatos do Polo Progressista precisam ter consciência que o segmento estudantil ligado ao polo conservador, vincula-se também à entidade que se tornou acrítica e pró-governo. Dessa forma, é muito mais honesto tentar fazê-lo enxergar melhor do que enganá-lo com promessas que não podem ser cumpridas.
  8. Os candidatos progressistas estão conscientes que representam os segmentos que os elegeram e que a confirmação dos seus nomes pelo MEC não significa um gesto de indulgência de quem quer que seja, mas um ritual obrigatório do jogo democrático.
  9. As Fundações Privadas estarão na mira e nos discursos do Polo Progressista. Já o Polo Conservador cantará loas sobre o produtivismo acadêmico e a flexibilização das relações de trabalho e outras… E tudo em nome das “novas demandas”.
  10. O uso da “máquina” será prerrogativa exclusiva do Polo Conservador, com vasta experiência no ofício. Revogam-se as disposições contrárias.
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Uma resposta to “O candidato da direção da APUB para reitor”

  1. altino Says:

    PREZADO ESCRIBA!!
    que tal desdobrar tuas observações com o BLOG promovendo ampla consulta aos docentes da UFBA sobre essas y otras cositas + a exemplo da democracia, da PAUTA LOCAL, da estatuinte, da situação do ensino e sua relação com a pesquisa e extensão…..etc, etc…..
    a opinião das “bases” pode vir a se constituir no instrumento para demarcar o que denominas de progressistas/conservadores, esqurda/direita.
    Pode contribuir politizar essas eleições – diferentemente da passada – e animar o processo que está prá lá de lento, frio….
    abraços,
    altino

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