O peru e as savanas

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motos e passaros

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D.
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e uma lado, a imensidão das savanas, a alegria de estar vivo, o cheiro gostoso de natureza selvagem e a sensação de liberdade. Do outro, a desolação, o rancor, o sentimento de impotência, o escracho. Lá, a moto voa ao lado de espécies encantadoras de pássaros, borboletas, e tudo o que tem o céu azul por quintal. Cá, um peru jaz inerte, e a esperança de vê-lo transformar-se um dia numa fênix…
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Duas realidades distintas. Cada uma importante no seu quinhão de contribuição para com a humanidade. O viajante Darwin, à bordo do Beagle, foi tão importante quanto Marx, no navio estacionado da Europa. Esta, por sua vez, explorou muitos dos conhecimentos produzidos por pesquisadores devotados como os dois o foram, para exaurir as riquezas dos continentes africano, americano e ainda escravizar os seus filhos. Sobretudo o africano e o sul-americano. O real é contraditório, ainda que, às vezes, belo… Conforme a ótica em que é visto.
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A “Greve Educadora” é assim chamada porque educou, fez pensar no seu período de vigência. Embora a palavra “Educação” seja confundida com “instrução”, é bom que as distingamos, no que cada uma tem de essencial. Educar vem de “educare” e “educere”, dois movimentos do real, em que mulheres e homens estão envolvidos inexoravelmente. Enquanto o primeiro termo manifesta-se de fora para dentro, o segundo movimenta-se no sentido contrário, ou seja, de dentro para fora. Absolutizar o primeiro é nutrir a “educação bancária”, à qual denunciou Paulo Freire. Limitar-se ao segundo é cortar o canal da comunicação humana autêntica, do diálogo, que por sua vez distingue-se do monólogo ou da persuasão. Educar é comunicar; comunicar é convencer; convencer é “co-vencer”, vencer com outrem. Ainda que não desprezando a “instrução”, a “Educação” tem por horizonte a emancipação humana. Esta, por sua vez, não pode ser sopesada, medida, contada. Rigorosamente, não! Ainda que existam balanças, paquímetros, nônios, escalímetros, metros e instrumentos que tais.
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Bobo foi quem acreditou que durante a Greve Educadora as aulas seriam suspensas. Não foram, não. Mas não me refiro aos que não hipotecam solidariedade à categoria. Esses sempre existiram e existirão, dando suas “aulas magnas” porque são “sérios” e imaginam que os docentes “sérios” não fazem greve. Refiro-me às aulas que aconteceram nas praças, ruas, assembleias e outros espaços dentro e fora da academia. De memória, cito alguns deles, próximos das diligências dos docentes da Faculdade de Educação. Foram muitos, mas não pude participar de todos, pelo limite das minhas penas e mãos…
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Cito uma bela aula que tivemos, em praça pública, com as crianças de um bairro vizinho da FACED e líderes do Grupo de Mulheres do Alto das Pombas (GRUMAP). Foi emocionante. Além da pipoca e das performances infantis, falou-se, entre outras coisas, da violência que grassa na nossa querida Bahia e no nosso querido país, bem como da famigerada redução da maioridade penal. Entre outros docentes da UFBA, estavam lá os batalhadores da FACED Romilsom dos Santos (o Romisss!), Cilene Canda, Pedro Abib. Cito dois “Diálogos Culturais” organizados pela FACED, um deles com a presença do Prof. Paulo Lima, da Profa. Dulce Aquino, da Profa Suzana Barbosa (diretora da FACOM), entre outros, que cito de memória – frágil, muito mais por se tratar de um sexagenário… O outro “Diálogos Culturais”, também da FACED, aconteceu na Praça das Artes, com a presença de crianças que coloriram e encantaram o campus de Ondina. Dava gosto ver pais e avós, docentes da UFBA ou não, brincando com seus rebentos. Cito um grande debate sobre Trotski, no Auditório I da FACED, por ocasião do aniversário de morte do teórico marxista e revolucionário russo, com a participação dos professores Carlos Zacarias, Francisco Pereira e Sandra Marinho, entre outro. Em breve, estaremos disponibilizando, neste blog, as gravações em vídeo. Cito outro grande debate sobre a “Redução da Maioridade Penal”, ocorrido do hall do primeiro andar da FACED, com a presença dos professores Ana Kátia (FACED), Ricardo Capi (UNEB) e Rita Santa Rita (GRUMAP). Veja AQUI.
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Para não me estender mais, cito apenas en passant outros atos externos realizados durante a “Greve Educadora” como os ocorridos em frente à Reitoria da UFBA, no Campo Grande, na Piedade, no Iguatemi, no Cortejo do Dois de Julho, entre a Lapinha e a Praça Municipal. Rapidamente, também cito eventos realizados no “Salão Nobre da Reitoria”, na Faculdade de Economia e no campus de São Lázaro.
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Não é de se estranhar, assim, Prezado Professor Ronan, que tenha ouvido de alunos participantes – de fato! – dessa trabalheira toda de greve, frase com essa: “Professor, nunca tive aulas tão bacanas como essas ocorridas durante a greve”
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Finalizando, Prof. Ronan, a presença do grande poeta Augusto dos Anjos (veja a postagem sobre o mesmo AQUI), simbolicamente no “pós-velório” do Peru, mais do que uma profanação é uma homenagem. É bom que os jovens o conheçam. Sem isso ele estará apenas com o nome numa lápide fria, talvez encardida, olvidada pelos poderes públicos e pelos “guardiões oficiais da cultura”.
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Se o prezado professor se der ao trabalho de ler com atenção os dois sonetos do genial poeta, publicados recentemente neste blog, vai entender o porquê da escolha. Tem tudo para ligá-lo com a melancólica saída da chamada “Greve Educadora”.
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Interrompa, só por uns minutinhos, o seu olhar sobre as belas savanas do extremo norte da América do Sul, e mire sua atenção para o pobre peru hirto, inadequadamente teso. Se o Planeta é um grande palco e os pobres mortais são os atores, como já disseram um dia, é sempre bom pensar na possibilidade de o “sério” ser uma encenação, da mesma forma que o “burlesco”…
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Desejo-lhe, de coração, uma excelente estada no que suponho ser um dos paraísos terrestres em matéria de beleza!
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Meu caro Menandro,
Aqui das savanas do extremo norte da América do Sul, fico a me perguntar, Educadora de que? de quem? para quem? Deixe dos Anjos em paz, deixe-o descansar junto ao Panteão dos grandes pensadores, não o vulgarize imiscuindo-o nos assuntos sobre a morte prematura do seu peru.
Um abraço fraterno
Ronan
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A Redução da Maioriada Penal foi assunto discutido na FACED durante a Greve.
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